POV Madi
Junto os ombros para me relaxar enquanto desço do avião. A viagem de Nova York me cansou mais do que deveria, e não sei se o que sinto é realmente exaustão mental.
“Tudo culpa do doutorzinho.”
Saio do aeroporto em meu carro, que deixei estacionado em uma área segura, rumo ao meu apartamento. Estou com uma vontade tremenda de chegar e sentir que estou em casa, no meu lar. O qual eu não deveria ter deixado nem mesmo por esses poucos dias em que decidi ir atrás dele. Não valeu a pena todo o sexo maravilhoso se, no final, ele me fez sentir como uma prostituta.
Vão passando pensamentos pela minha cabeça durante o caminho. Continuo amaldiçoando o nome de Zeus West, agora que posso e que minha irmã ainda não me bombardeou com mil perguntas. Continua me parecendo ridículo eu ter feito o papel de palhaça por causa de um exigente com padrões e crenças absurdas do século passado.
Ao entrar na área onde fica nosso apartamento, sinto que relaxo.
“Uma dose de realismo da Ariel é tudo o que eu preciso. Sim, senhor!”
Já a imagino me dizendo mil razões pelas quais não devo martirizar minha existência e dois mil motivos pelos quais ele é o único que está perdendo.
“Minha irmã tem um ego imenso e faz questão de que eu não perca o ritmo.”
Quando chego ao apartamento, paro no umbral da porta, com os olhos fechados e respirando fundo; finalmente me sinto em casa, e parte do estresse que tenho começa a sair de mim.
Assim que fecho a porta, ouço o barulho da fechadura e passos apressados vindo do corredor que dá para os quartos. Um sorriso se forma no meu rosto ao ver a Ariel.
Minha gêmea é tudo o que eu sou, além do que não consigo ser, por mais que tente.
A seriedade de Ariel transparece através da roupa, mas isso não significa que ela não possa ser uma cópia exata da minha personalidade, se assim quiser. A única coisa que nos diferencia fisicamente é o cabelo escuro, que ela usa natural, enquanto eu me faço loira, pois costumo me sentir melhor quando vou contra a corrente. Seu estilo de vestir também é um pouco diferente do meu; enquanto eu sou mais boêmia e relaxada, ela sempre vai formal, com seus perfeitos saltos de doze centímetros, dos quais gosta de dizer que são sua melhor arma.
Ariel corre em minha direção assim que me vê e não me evita antes de se chocar contra mim e me abraçar, enquanto atrás dela aparece seu namorado do momento, Max.
Sorri divertida; minha irmã parece um pouco alterada, e no ar está o cheiro de whisky.
— A Bellatrix Lestrange está em sua melhor versão? — pergunto, provocativa, já que Ariel não costuma ser tão efusiva com suas emoções.
— Você tira a diversão de tudo. — reclama, revirando os olhos e fingindo estar brava. Ela se afasta e me sorri.
Eu retribuo o gesto e lhe dou um beijo molhado na bochecha.
— Essa é você, Banana #2; eu sou a alegria desta casa.
Ela resmunga e se afasta. Vejo que em cima da mesa de centro há uma garrafa da coleção que minha irmã guarda, graças aos presentes que os clientes nos deixam, e dois copos largos. Percebo que um deles ainda está cheio e que, em cima do sofá, está o vestido vermelho da vingança.
Levanto uma sobrancelha em direção à Ari e depois olho para o prospecto de homem que, evidentemente, aproveitou ao máximo aquele vestido. Ele está sendo arrastado sem saber para uma vingança, mas desfrutando dos melhores benefícios.
Max se aproxima para me cumprimentar assim que minha irmã me deixa caminhar alguns passos longe dela. Ele me dá um abraço rápido.
— Cunhado, que bom te ver por aqui… — digo, e depois olho para a mesa onde estão as bebidas. — Fico feliz que você tenha feito companhia à minha irmã na minha ausência. Sem mim, ela fica irritante.
Max ri das minhas palavras, mas entra na brincadeira.
— Mais? — replica ele, e Ariel o lança um olhar repreensivo. Embora não possa dizer nada, ela sabe que é verdade.
O trabalho dela, por ser tão exigente, a faz parecer uma mulher forte. E não ajuda seu caráter ser tão implacável em tudo o que se propõe, por menor que seja.
E ela tem que ser assim no meio em que nos movemos. O mundo do espetáculo é complexo, e ela, sendo um tudo em um para mim — desde minha gerente até minha publicitária —, tem uma carga de trabalho que a faz sentir ainda mais pressão. Por mais que eu diga que podemos dividir as tarefas e buscar alguém mais, ela insiste que somos uma equipe e que sempre estará nos bastidores comigo.
— Deixem de falar de mim, vocês dois traidores. E melhor, me diga, que diabos aconteceu em Nova York para que você me ligasse naquele estado e eu acabasse fazendo o jogo de gêmeas, que costuma ser a ponta do iceberg em uma montanha de acertos de contas. — ela exige saber, e eu suspiro derrotada, porque o pouco alívio que sentia desaparece.
Me permito cair no sofá, ignorando que pode haver fluidos de todo tipo ali e tentando não ser como Zeus West, que vê esse tipo de risco em todo lugar. Minha irmã se senta ao meu lado, como se pensasse que eu ia sair correndo para fugir de suas perguntas.
“Embora eu esteja considerando isso, não adiantaria nada.”
Olho para o copo de whisky servido e, sem pensar duas vezes, bebo de uma vez o que resta. Pelo batom na borda, sei que é da minha gêmea, por isso faço isso.
Respiro entre dentes enquanto o álcool queima a garganta e sinto um estremecimento ao perceber que desce pelo meu estômago vazio.
— Então? — insiste, com uma sobrancelha levantada, cheia de impaciência. — E não se atreva a me dar voltas e acabar pedindo para que eu não te julgue. O único que me impede de pegar um avião para Nova York, buscar esse West até debaixo das pedras e acertar suas partes, é que ainda não sei ao certo o que aconteceu. Mas sei que deve ser algo grande, se isso… — aponto para o vestido amassado e em forma de bola em um canto do sofá — aconteceu.
Ariel é implacável e prática. Onde eu sou muito emocional, ela é a vilã que se alimenta de sua dor e a transforma em vingança fria. Por isso, não duvido que ela cumpra sua ameaça.
“E como não quero que minha irmã odeie ainda mais o Zeus, decido ficar em silêncio sobre a parte que realmente me feriu em tudo isso.”
Baixo a cabeça e digo a verdade, até onde posso. Me custa não ser completamente sincera, mas algo me impede de jogar tudo para o alto em relação ao Zeus. Algo desconfortável que não me deixa ser, que não me permite parar de pensar nele.
— É que não somos compatíveis, isso …— declaro, sem me importar que Max esteja testemunhando essa conversa. — Onde ele é fechado, eu sou muito aberta. Onde ele é sério, eu costumo rir sem me importar com nada.
— Mas opostos se atraem — exclama Ari com ceticismo, sabendo muito bem que esses motivos não me fariam sentir assim. Ela sabe que há mais.
— E a atração funciona perfeitamente — contesto sua reflexão. — O melhor sexo que tive na minha vida foi com aquele homem.
Max se engasga ao me ouvir, e ambas o olhamos, eu quero rir da sua reação.
— Querido, isso não é nada — diz minha irmã com um tom condescendente. — Se você está se perguntando, também falamos de você.
Isso não ajuda Max, que começa a ficar roxo. Ele se desculpa para nos deixar um pouco de privacidade e ainda o ouvimos tossir enquanto vai em direção ao quarto de Ariel.
— Bem, estávamos na parte em que Zeus West foi o melhor sexo da sua vida. É tão bom assim?
Assinto, com um pouco de nostalgia. Desde que o senti dentro de mim, soube que ele havia me arruinado. Porque foi tudo o que eu imaginava e mais. Um ano inteiro tendo sexo por telefone, mostrando o melhor de mim, enquanto ele me oferecia o melhor dele, criou expectativas altas demais.
E ele as superou.
“Mas depois ele abriu a boca. E tudo se foi para o espaço.”
— Foi devastador — asseguro. E, guardando o que realmente sinto, insisto — Mas tudo que é bom na cama realmente se desfaz em uma rotina diária. Zeus é exigente, mente fechada, obstinado, e outros duzentos defeitos que não consegui notar através de uma tela, mas que percebi só de passar algumas horas com ele.
Tento soar contundente, sincera. Mas tenho as palavras na ponta da língua e não consigo dizê-las. Repetir em voz alta que Zeus só me vê como uma prostituta não é o que quero, e muito menos com minha irmã. Ela é uma pessoa vingativa, e o que menos quero é me sentir sufocada entre seu ressentimento e minha dor.
— E se você ficou tão decepcionada e realmente não há mais nada, por que você se vê e se sente como se fosse o fim do mundo?
Olho para minha irmã e sei que ela vê muita verdade em meus olhos, mas continuo firme.
— Porque eu realmente gosto dele, você sabe. Porque nunca em minha vida vi um cliente como algo mais, nunca me atrevi a dançar como se fosse tudo para um desconhecido e depois procurar seu nome e telefone na base de dados do hotel só porque fiquei impressionada com seus olhos escuros. Olhos que gritaram mil coisas e das quais eu ouvi tudo. Quando você me viu agir assim, Ari? — meus olhos se enchem de lágrimas, e rio para tentar disfarçar essa dor que sinto, porque me sinto julgada de uma maneira repugnante. — Quando eu fui tão longe por causa de um homem?
— Nunca. — confirma minha gêmea, e seu tom é tanto duro quanto compassivo.
— Pensei que com ele poderia ter algo que até agora não buscava, mas que ao ter esse relacionamento com ele, esperava confirmar.
“E para quê? Para que ele me levasse para conhecer sua família sendo sua "amiga", "companheira"? Para que ele me pegasse como o possesso que é e depois me dissesse praticamente que isso é tudo o que quer de mim enquanto eu coloco minha profissão acima de tudo?”
— Você criou muitas ilusões. — Eu assinto, as lágrimas caindo ao fechar os olhos.
Todas as minhas ilusões se desmoronaram, e se eu considerar que sempre dei a ele o que queria, mesmo enquanto pedia que ele respondesse uma simples pergunta, me sinto muito pior. Porque eu entreguei demais, esperando algo em troca que nunca ia chegar
“Zeus West é muito fechado, muito egoísta. Ele me quer em sua vida, mas me quer nos seus termos.”
— Tem certeza de que não há mais? — Ariel insiste novamente, e eu rio sem ânimo, apenas para diminuir o impacto das minhas lágrimas.
Agora que comecei a chorar, não consigo parar. E se levarmos em conta que não estou sendo completamente sincera, a situação fica ainda pior.
Limpo as lágrimas sem parar de sorrir.
— Mais? Isso não é suficiente?
Ari levanta a sobrancelha, aquela que mostra que não confia em mim neste momento. Ela me conhece melhor do que eu mesma, e esta é uma mentira descarada. Mas, apesar de seu caráter difícil, ela sabe onde estão os limites. Por isso, decide parar de insistir.
— Bem, então é só isso. Perfeito. Quer ver o post da vingança?
A mudança de assunto me alivia e me faz rir de verdade.
— O post que declara meu ódio pelos médicos ou o post que fez você ter sexo neste sofá? — pergunto, e Ari solta uma gargalhada.
Eu gosto de vê-la assim, porque sua empolgação me contagia. Até que, de repente, ela grita.
— Viu, Max? Agora é a sua vez de falar sobre você e o sexo fenomenal que temos!
Eu dou uma boa risada com isso. Não sei se Max está ouvindo, mas sinto pena dele; lidar com duas versões de um mesmo rosto deve ser complicado.