Prólogo Part II

2760 Words
Eu tentei girar a maçaneta de novo, de novo e de novo. Eu me negava acreditar que aquilo estava acontecendo. Tentei uma, duas, três , quatro e a porta não se moveu um centímetro. tomada pela frustração e raiva empurrei a porta com um chute, mas ela nem se moveu. — Pensa… pensa, Anahí. — sussurrava para mim mesma, a voz trêmula. O ar preso na garganta, as mãos passavam pelos cabelos em gestos descompassados, puxando os fios como se a dor física pudesse calar o pânico. Ou me acordar daquele pesadelo maluco. Mas não era sonho, era verdade e eu estava encrencada. Meus olhos corriam pelo closet, frenéticos, incapazes de fixar em nada. Já não me importava com as roupas caras, com os perfumes alinhados ou com o brilho das joias espalhadas. Nada daquilo importava agora. Eu só precisava sair. Uma janela, um duto de ar, um esgoto, uma passagem secreta, qualquer coisa que me tirasse dali antes que fosse tarde demais. Mas tudo estava selado e só podia ser aberto com a digital dele, ou seja, o mesmo que nada. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar nas paredes fechadas. Cada segundo se arrastava como uma tortura. O sonho havia virado pesadelo. E, pela primeira vez, não havia escapatória e só Alfonso poderia me tirar daqui, que era o mesmo que nada. — To muito fodida! lasquime… Encolhi-me em posição fetal no canto, entre os ternos que agora pareciam me julgar. Quanto achava que as coisas não poderiam piorar? Sim, eles podem! De repente, o silêncio do closet foi rompido por um bipe eletrônico distante. A porta da suíte principal abrindo com aquela precisão digital que só ele tinha. Meu corpo inteiro enrijeceu de novo, o pânico virou uma bola de chumbo no estômago. Passos Firmes, confiantes, como se o chão pertencesse a ele e pertencia, né? Alfonso Herrera, o homem que eu idolatrava como um deus da TV, agora soando como o d***o entrando em casa. — Entre, Lorenzo — disse ele, a voz grave e casual, como se estivesse pedindo um café em vez de... sei lá, planejando o fim do mundo. — Senhor presidente… — Ele pigarreia ao notar o erro. — Quer dizer… Don, os rapazes estão prontos. As linhas estão seguras. — Ouvi outra voz, rouca e subserviente. A curiosidade realmente matou o gato, e naquele minuto eu senti a vida inteira do felino passar diante dos meus olhos. Encolhida no escuro do closet, com a madeira morna atrás de mim e o cheiro amadeirado do paletó impregnado nas narinas. Tomada pela curiosidade, andei na ponta do pé até a porta do closet que dava para quarto, como se o chão estivesse agulhas, encostei o rosto na fresta e espreitei. O quarto parecia outra dimensão: a luz azulada das telas recortava o rosto austero de Alfonso em sombras, e o resto da sala se enchia de vozes como um coro subterrâneo que vinha do além. Quando ele se sentou à escrivaninha, a cena me atingiu com a força de um soco. A camisa branca marcada pelo corte perfeito ressalta os ombros, a gravata foi afrouxada com um gesto preguiçoso que disfarçava o cálculo. Havia um movimento quase ritual na forma como ele se acomodou. Um rei tomando posse do trono, consciente do espetáculo que encenava. No centro da mesa, a tela projetou janelas em mosaico, cada quadrado, um rosto, uma conexão direta com o submundo que eu como jornalista, mesmo sendo estagiária conhecia bem. Eu conseguia ver a tela pelo reflexo das janelas que eram como espelho. — Buonasera, Signori — disse ele, com a voz de sempre: controlada, cortante e terrivelmente magnífica. Era a mesma entonação que eu ouvira nos comícios, adaptada agora ao tom de comando íntimo, aquele que não precisa de microfone porque se impõe por si só. — Relatórios. Comecemos por Don Ramones. Na primeira janela, um homem com o rosto quadrado e um machucado discreto na sobrancelha fez uma reverência que soou quase infantil diante da imponência de Massimo. — Don di tutti Doni — a voz saiu grossa, forçada a ser humilde. — tivemos problemas em Miami. Os federais farejaram o carregamento. Perdemos dois homens. O riso curto de Alfonso foi um som que congelou meu sangue. Não tinha a leveza da gargalhada de campanha. Era uma risada com dentes, fria, cheia de consequência. — Perdemos? — repetiu ele, elevando a sobrancelha como se a palavra fosse uma insolência. — Você perdeu, Ramones. Eu não perco… eu controlo os federais. Três agentes no meu nome. Da próxima vez, envie corpos como aviso, entendeu? O silêncio do outro lado foi tenso, cortado apenas por um sussurro nervoso que m*l se sustentava. A partir daquele momento, percebi que ali não havia erro que não fosse punido com método o tipo de violência que vem sem espetáculo, calculada como auditoria. — Don Vito — chamou Massimo, mudando de canal como quem vira a página de um livro. — fale sobre Nova York. Na tela, um homem mais velho, a pele marcada pela vida na rua, encostou a nuca na cadeira e inclinou-se para a câmera: — Padrone, os russos pressionam… perdemos terreno… precisamos de armas. Sem suprimento, as ruas correm para vermos sangue. Alfonso pegou um globo de que havia ao lado e o fez girar entre os dedos com desprezo quase brincalhão. O Globo parou bruscamente, quando o dedo tocou sobre a Itália como se lá residisse o castigo. — Armas? — repetiu, olhando para a janela como se o mundo ali representado fosse uma peça de xadrez. — Eu forneço. Portos, juízes, até votos quando necessários. Eu controlo o fluxo. Vocês recebem e prosperam. Desafiem-me e desaparecerão da mesma forma que os Gambino. Lembram-se? Algumas janelas caíram na risada nervosa, outras mostraram rostos duros, olhos que cintilavam com medo e reverência. A hierarquia estava clara, ele era a cabeça que decidia a direção da serpente. E o modo como falava, instruindo, condescendendo, ameaçando com a tranquilidade de quem escurece o horizonte por puro capricho, fez com que eu sentisse uma náusea profunda. Aquele era o rei dos bastidores, o administrador do medo. A conversa seguiu, urgente e meticulosa, como se estivessem coordenando uma operação militar. Detalhes apareceram nas palavras: nomes de portos, horários, rotas que eu, uma jornalista estagiária com mapa memorizado, jamais imaginaria serem linhas de uma geografia clandestina. Eles discutiam cargas, documentos falsificados, subornos com a frieza de quem fala sobre paz, quantidades, horários, quantias em cifras que giravam entre sílabas. Em cada frase havia um cálculo, em cada pausa, um possível castigo. — E os juízes? — Alfonso perguntou com voz baixa, quase íntima. — Como estão os nossos contatos no judiciário? — Estão satisfeitos, Don. As sentenças foram organizadas. Não haverá ligação entre o material e o governo. — Houve um suspiro, a resposta veio com palavras que mordiam. — Ótimo — respondeu ele —. Lembrem-se, a nação precisa continuar acreditando. A mídia, os discursos, as aparências. Nós somos o backstage. Vocês comandam o palco com a mão que eu lhes empresto. A imagem dele, naquela meia-luz, era de uma dureza surpreendente. Observava o mapa projetado na mesa como se fosse uma tela de guerra. Os projetos, as rotas, os calendários todos passavam por sua mão metódica. Não havia frenesi ali, apenas um controle absoluto que me fez entender, com uma clareza cortante, o quão profundo era o abismo entre o homem público e o homem atrás daquela máscara. Em dado momento, a voz de um dos dons subiu num tom mais nervoso, repetindo circunstâncias, descrevendo perdas e pedidos de reforço, dinheiro, homens e influência. Alfonso não se alterou. Regou a impaciência com um comentário seco, quase uma lição pública. — Vocês não entendem. Eu não sou apenas o homem que senta na cadeira oval. Eu sou o mecanismo que faz as coisas funcionarem. Vocês servem a mim. Eu não peço, eu ordeno. Obedeçam e verão o fruto. Desobedeçam e verão o vazio. Foi então que um rosto trêmulo na tela. Um homem de terno claro, suado, os olhos inquietos demais. Alfonso o fitou em silêncio, e o som se dissipou. — Don Caruso — disse, sem alterar o tom. — Fale-me de Palermo. — Houve... complicações, Signor Presidente. Alguns fundos desapareceram. Deve ter sido um erro de contabilidade. — O homem hesitou. Alfonso apoiou o cotovelo na mesa, colocou a mão no queixo, o apoiando e olhos de forma tão fria para o homem. Vejo o seu corpo estremecer de pânico. — Um erro. — Repetiu como se provasse o gosto da palavra. — Um erro custa caro quando o dinheiro é meu. O silêncio se tornou um campo minado. Do outro lado da linha, Caruso começou a suar mais. —Não se preocupe. — ele tentou transmitir confiança, mas falhou. – Eu... eu posso resolver. Darei um jeito. Alfonso inclinou a cabeça, como se considerasse a oferta. — Já resolveu. — disse com uma serenidade que gelou o ar. Fez um sinal breve com os dedos, uma figura fora de quadro se moveu atrás de Caruso, logo em seguida a cabeça de Caruso explodiu na tela, ao ser atingida por um fuzil, seguido de um som seco, o tipo de ruído que não precisa de legenda. A imagem do homem caiu, a cadeira virou. A chamada permaneceu aberta, ele havia levado a câmera junto, a imagem do seu corpo sem vida grotesca, envolto com poça de sangue parecia na tela e o silêncio absoluto do outro lado. Engoli em seco, o corpo inteiro vibrando, o pânico tomou conta de mim. Alfonso não desviou o olhar da tela, com uma frieza e o homem que eu idolatrava não existia. Era uma máscara. — O lugar dele será ocupado por alguém mais competente. — Alfonso cospiu com naturalidade. As janelas restantes responderam com vozes submissas, um coro de “sì, Don, come desidera. “ Sempre acreditei em Alfonso. Para mim, ele era mais que o presidente do país, era o símbolo da justiça em meio ao caos. O homem que liderava com a firmeza e a integridade que o país precisava, um farol de esperança num cenário político tomado pela corrupção. Suas aparições públicas transmitiam uma aura de perfeição. A forma como falava, como sorria, como inspirava fé até nos corações mais endurecidos. Eu era fã fervorosa, orgulhosa da nação que ele comandava. Admirava cada gesto, cada palavra. Nunca poderia imaginar que havia uma verdade obscura por trás daquele homem. Eu era uma verdadeira devota de Alfonso, daquelas que sabem tudo sobre o presidente, desde o termo preferido até o tipo de café que ele toma pela manhã. Agora a verdade vinha até mim como um tapa cara junto com soco no estômago. O silêncio depois da execução parecia ter peso, como se o ar tivesse se tornado denso demais para respirar. Eu continuava ali, imóvel, o coração pulsando nos ouvidos, tentando convencer a mim mesma de que o que tinha acabado de presenciar não podia ser real. Aquele homem frio, c***l, calculando vidas e mortes com a naturalidade de quem discute política, o mesmo que me olhara mais cedo com um sorriso discreto, o mesmo dos aplaudiam como um símbolo de poder e civilização. — Isso não pode ser real… não pode ser real… — murmurei para mim mesma ao mesmo tempo, levo mão na boca, em um fio de voz que tremia junto com o corpo inteiro. — Era um pesadelo, só podia ser. Mas o som das vozes ainda ecoava no quarto, graves, distorcidas pelo microfone, misturadas àquela língua carregada de consoantes duras. Alfonso ainda estava ali, sentado à frente da tela, imperturbável, como se tivesse acabado de assinar um simples contrato em vez de ordenar a morte de um homem. A luz fria do monitor desenhava sombras sobre o rosto dele, revelando cada linha da mandíbula, cada centímetro da rigidez controlada que me fascinou desde o primeiro dia. Só que agora, essa fascinação vinha misturada ao pavor. Eu recuei um passo, tentando processar tudo, e meu ombro esbarrou em uma prateleira. O toque fez um dos frascos de perfume balançar. Antes que eu pudesse contê-lo, ele caiu no chão com um estalo seco, se espatifando em mil pedaços. O som cortou o silêncio como uma sentença. O aroma amadeirado, aquele mesmo que eu havia aspirado minutos antes, que me fazia pensar nele, espalhou-se em ondas sufocantes, queimando o ar. O coração subiu à garganta. Minhas mãos começaram a suar. Eu me abaixei instintivamente, tentando segurar os estilhaços, como se fosse possível esconder o crime, apagar o som, desfazer o cheiro. Mas já era tarde. Do outro lado da porta, o ruído do monitor cessou. O silêncio agora era total, um silêncio cheio de intenção. Eu podia sentir o olhar dele, mesmo sem ver. Um arrastar de cadeira ecoou pelo quarto, o som firme de passos se aproximando. Cada batida no chão era uma ameaça, uma contagem regressiva. Não havia saída. A porta do closet era controlada por ele. Eu estava presa dentro do próprio segredo que havia descoberto. — Não… não, por favor… — murmurei baixinho, as lágrimas ameaçando cair. Agachei-me de imediato, desesperada, tentando juntar os pedaços. As mãos tremiam tanto que m*l conseguiam obedecer. Toquei um dos cacos e o senti ceder sob a pele, entrando como uma lâmina fina. O corte foi pequeno, mas o ardor não veio, a adrenalina que tomava conta de mim agora e logo o sangue começou a escorrer, vivo e quente, manchando o tapete claro como uma assinatura. — Não, não, não… isso não pode estar acontecendo. — sussurrei, o som quase engolido pela respiração trêmula. Apertei a palma contra o tecido da saia, tentando conter o sangue, mas o calor e o perfume se misturavam, e o ar parecia me envolver como uma armadilha. Foi então que ouvi os passos lentos, firmes, cada um deles pesando como um aviso. Meu corpo inteiro gelou. O som vinha de perto, muito perto. A maçaneta girou, e eu prendi o ar como se isso pudesse me tornar invisível. A luz invadiu o closet com um estalo, e antes mesmo de erguer a cabeça eu soube. Era ele. Alfonso Herrera. A presença dele encheu o espaço antes que sua voz o fizesse. Havia algo em sua postura que não deixava dúvidas. Aquele tipo de controle silencioso que não precisava de gestos. O perfume dele, o mesmo que agora estava espalhado pelo chão, se misturava ao cheiro metálico do meu sangue, e tudo parecia mais íntimo do que deveria. Levantei o olhar, devagar, e o encontrei me observando. Não havia raiva, nem surpresa. Só aquele olhar verde escuro e calculado, o mesmo que eu já vira nas telas e discursos, mas agora sem máscara. Era como encarar o próprio poder em carne viva. O tempo parou ali. A dor na mão sumiu, o ar pareceu rarefeito. Só havia ele, e aquele sorriso leve, quase imperceptível, que não prometia nada bom. — Olha o que temos aqui… — disse, a voz grave e serena, como seda deslizando sobre uma lâmina. — Um coelhinha intrusa. O sotaque italiano transformava cada palavra em algo perigoso, quase sensual. Meu corpo reagiu antes da razão. Um arrepio percorreu a espinha, e por um instante, não soube se queria desaparecer ou continuar ali, presa naquele olhar. Ele se aproximou mais um pouco, devagar, estudando-me. A ponta da gravata balançava com o movimento, o tecido caro contrastando com o caos do chão. Quando seus olhos desceram para o sangue na minha mão, um lampejo breve, quase imperceptível, cruzou sua expressão. Não era piedade, era interesse, ou curiosidade. — E quem é você, piccola intrusa? — perguntou, o timbre baixo vibrando no espaço entre nós. — Uma ladra... ou apenas curiosa? O coração batia tão alto que eu m*l conseguia ouvir a própria respiração. Tentei abrir a boca, mas o som morreu antes de nascer. Ele arqueou uma sobrancelha, um sorriso pequeno, quase entediado, curvando o canto dos lábios. — Não fala? — murmurou, dando mais um passo, até o perfume derramado manchar o solado de seus sapatos. — Interessante. Por um instante, seus olhos se prenderam aos meus, e algo indecifrável passou ali, como se o rei tivesse encontrado um jogo que ainda não conhecia as regras. E foi então, cercada por ternos perfeitamente alinhados, vidro quebrado e um homem que cheirava a poder e perigo, que compreendi. A curiosidade não mata apenas o gato. Às vezes, mata a garota que ousa tocar o mundo de um homem como Alfonso Herrera.
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