âAneliese Moore â
Vejo quando o senhor Blake solta o ar em alĂvio, como se eu tivesse acabado de jogar um colete salva-vidas enquanto ele se afogava num mar de birras e gritos infantis. Ele sorri. Um sorriso genuĂno, tranquilo... e, confesso, meio bonito.
Acho que nesse pequeno intervalo de tempo desde que cheguei aqui, jå o vi sorrir mais do que em todos os anos em que trabalho para ele. E, céus, eu não estaria mentindo se dissesse que esse homem deveria sorrir mais vezes. Mesmo que isso me custe uma hérnia emocional e algumas noites de sono.
Mas antes que eu pudesse me perder naquele sorriso raro e perigoso, a realidade voltou e me acertou como uma bolada de criança hiperativa no parquinho: eu acabei de concordar em cuidar de trĂȘs pequenos seres humaninhos que, ao que tudo indica, possuem pacto com alguma entidade do caos.
Sirius... isso Ă© por vocĂȘ. Espero que esteja preparado pra conhecer o lado selvagem da humanidade.
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âą Alexander Blake âą
Com as malas prontas ao meu lado, observo atentamente enquanto Anelise se apresenta a cada um deles - minhas adorĂĄveis crias do apocalipse. Estou em modo alerta, lendo cada expressĂŁo com o cuidado de um especialista em desarmamento de bombas. Meus olhos os analisam como se eu pudesse prever o exato momento em que planejariam transformar a vida de Aneliese num roteiro digno de filme de terror familiar.
Mas, surpreendentemente, atĂ© agora tudo parece... calmo. As gĂȘmeas sorriem como se fossem alunas exemplares de um internato suĂço, e Lucca - o mais velho e definitivamente o mais estrategista dos trĂȘs - aperta a mĂŁo de Aneliese com um sorriso tĂŁo doce que atĂ© eu quase me enganei. Quase.
- Coitada. - ouço a voz arrastada e debochada de Jade ao meu lado, me puxando de volta à realidade. - Ela vai precisar de terapia intensiva quando isso acabar.
Ela fala baixo, mas o suficiente para que eu possa ouvir e para me fazer franzir a testa.
- NĂŁo Ă© para tanto. - resmungo, tentando me convencer disso mais do que a ela. Observo a cena Ă minha frente, onde as gĂȘmeas jĂĄ estĂŁo acariciando a cabeça do cĂŁo que estĂĄ bem comportado, sentado ao lado de Anelise. - Eles prometeram se comportar.
- Aham. Assim como prometeram para a francesa que fugiu no segundo dia e deixou um pedido de socorro escrito com pasta de dente no espelho do banheiro, lembra? - ela diz num tom absolutamente tranquilo, quase entediado. - Ou para aquela que chorava escondida no banheiro, achando que ninguĂ©m percebia. VocĂȘ jĂĄ pensou em contratar um padre ao invĂ©s de uma babĂĄ?
Reviro os olhos.
- Meus filhos sabem quando passam dos limites, Jade. Eles nĂŁo fariam nada com Aneliese. Eles sabem que...
- Que vocĂȘ tem uma queda por ela? - completa, como quem comenta sobre o tempo. Com a maior naturalidade do mundo.
Viro o rosto para encarĂĄ-la, perplexo, meus olhos quase saltando das Ăłrbitas .
- VocĂȘ enlouqueceu? De onde diabos tirou isso?
- Gaspar me contou. E sinceramente? Eu tambĂ©m percebi. - ela responde, com aquele sorrisinho que ela sempre dĂĄ quando sabe que estĂĄ cutucando uma ferida aberta. - A forma como vocĂȘ olha para ela... Ă© quase romĂąntica. E sinceramente, nĂŁo te julgo. Ela Ă© linda. Um pouco mais nova, Ă© verdade, mas encantadora. Uma mistura de graça, desespero e competĂȘncia. Pena que depois desses trĂȘs dias, talvez sĂł reste o desespero.
- Primeiramente, Gaspar estå vendo coisas onde não tem. - respondo, tentando manter o tom profissional e calmo. - Aneliese é minha secretåria. Minha relação com ela é puramente profissional.
Mas meus olhos, por traidores que são, desviam para ela naquele instante. Ela sorri de algo que as meninas dizem - e sorri bonito. Um sorriso leve, sem defesas. Um que raramente vejo no escritório. E nesse momento, Marie pega a mão dela e praticamente a arrasta em direção a sala de jogos, com Lucca e Maya, junto com o cão, que esqueci o nome, as seguindo como quem leva uma oferenda ao altar do caos.
- Segundo... - continuo, mesmo me sentindo um tanto exposto. - Meus filhos nĂŁo sĂŁo monstros. Eles sĂŁo...
- Pequenos demÎnios que me amarraram na cama com fita adesiva enquanto eu dormia e deixaram um rato morto ao lado do meu travesseiro esta manhã. - diz ela com tanta naturalidade que me arrepio. - Se não fosse pela Vivian, que ouviu meus gritos enquanto arrumava os quartos, eu ainda estaria lå. Amordaçada. Com um rato de olhos arregalados como companhia.
- Ah, por favor, vocĂȘ exagera! - retruco, sem tanta convicção.
- Exagero? Um deles me perguntou hoje de manhĂŁ qual era o tamanho exato do olho humano fora da Ăłrbita. Eu nĂŁo sei o que vocĂȘ tem alimentado nessas crianças, Alex, mas sugiro que mude a receita. Suas futuras babĂĄs agradecem.
Dou um suspiro cansado e olho novamente na direção em que as crianças levaram Aneliese.
- Que Deus a proteja.
Jade sorri, vitoriosa.
- E que vocĂȘ comece a admitir logo que estĂĄ apaixonado por ela antes que essas crianças a devorem viva.
- Não estou apaixonado por ela. - digo com firmeza, pegando minhas malas e saindo da mansão. O ar frio me ajuda a disfarçar o incÎmodo, mas não o suficiente para afastar as palavras que Jade insiste em me jogar.
- NĂŁo hĂĄ nada errado em seguir em frente, Alex - ela responde, com aquela voz suave que me desarma. - JĂĄ fazem quatro anos...
- JĂĄ chega, Jade. - corto antes que ela vĂĄ longe demais. NĂŁo quero discutir isso. NĂŁo agora. NĂŁo assim.
Ela apenas balança a cabeça, em silĂȘncio, e entra no carro. Faço o mesmo. O motor ronca e seguimos em frente, cada um imerso nos prĂłprios pensamentos.
Fazem quatro anos desde que Elizabeth se foi. Eu sei que Jade tem razĂŁo. Sei que nĂŁo posso viver eternamente no passado. Mas o vazio que ela deixou nĂŁo Ă© algo que se preenche - muito menos com outra pessoa.
Ninguém ocuparå o lugar dela. Nem na minha vida, nem na dos nossos filhos. Manter distùncia é a forma que encontrei de preservar sua memória. E se isso significa abrir mão de novos começos... então é o preço que estou disposto a pagar.