01 -- Victória Narrando
Eu não lembro de ter tido infância, não daquela que as pessoas gostam de contar, com brinquedo espalhado pela casa, comida na mesa e alguém chamando pelo nome na hora de dormir, porque as minhas primeiras lembranças são de rua, de chão duro, de fome apertando a barriga e de aprender cedo demais que o mundo não tinha pena de ninguém, muito menos de uma criança sozinha. Eu não sei dizer exatamente quando comecei a viver assim, só sei que quando me dei conta, já tava ali, no meio do nada, sem pai, sem mãe, sem ninguém que olhasse por mim, aprendendo a me virar antes mesmo de entender o que significava sobreviver.
A rua não ensina devagar, ela joga tudo de uma vez, e ou você aprende, ou você some, simples assim, e eu aprendi rápido, mais rápido do que deveria, aprendi a identificar perigo só pelo jeito que alguém olhava, aprendi a dormir leve, com um olho aberto e o corpo sempre pronto pra correr, aprendi que comida não era garantida e que, se eu quisesse comer, eu tinha que dar um jeito, fosse pedindo, fosse pegando, fosse fugindo depois, porque ninguém ali dividia nada por bondade. O frio era constante, a sujeira também, mas nada se comparava à sensação de não existir pra ninguém, de passar pelas pessoas e ser invisível, como se eu não fosse nada além de mais uma sombra jogada na calçada.
Teve dias em que eu achei que não ia aguentar, dias em que a fome doía tanto que parecia que tava rasgando por dentro, noites em que o medo apertava o peito e eu só queria desaparecer, mas desaparecer nem sempre era opção, porque até pra morrer na rua você precisa de oportunidade, e eu não tive essa sorte, então continuei, dia após dia, me segurando como dava, criando uma casca que ninguém via, mas que me mantinha de pé. Eu aprendi a não confiar em ninguém, porque toda vez que eu tentei baixar a guarda, alguém tentou tirar o pouco que eu tinha, e às vezes nem era coisa, às vezes era só espaço, só dignidade, só o direito de continuar ali sem ser chutada pra longe.
Eu cresci assim, no meio do caos, sem nome importante, sem história bonita, só mais uma menina suja andando de um canto pro outro, sobrevivendo como dava, até o dia em que tudo mudou, não de um jeito bonito, não com promessa ou carinho, mas com um olhar que não me atravessou como os outros, um olhar que parou em mim, que me enxergou de verdade, e foi a primeira vez que alguém não me tratou como se eu fosse descartável. Eu tinha dez anos quando ele apareceu. E foi nesse dia que a minha vida deixou de ser só sobrevivência… e começou a virar outra coisa. Não melhor, não mais fácil. Mas diferente o suficiente pra eu nunca mais ser a mesma.