Capítulo 2 – Conselhos Perigosos

1108 Words
Capítulo 2 – Conselhos Perigosos O restante do dia passou devagar para Elisa. Depois do encontro com Binho pela manhã, ela tentou se convencer de que aquilo não tinha sido tão r**m. Afinal, ele havia lembrado de seu aniversário. Tinha sorrido para ela. Tinha conversado com ela. Mas, no fundo, sabia que estava apenas se enganando. Binho continuava a enxergando como uma criança. E aquilo doía mais do que ela gostaria de admitir. Sentada na laje de casa, ela observava o pôr do sol tingir o céu de laranja enquanto mexia distraidamente no celular. Foi então que ouviu passos conhecidos atrás dela. — Tá com essa cara desde cedo? Elisa nem precisou olhar. — Oi, Mila. Mila surgiu carregando um refrigerante e um pacote de salgadinhos. Diferente de Elisa, ela parecia incapaz de ficar triste por muito tempo. Era impulsiva, engraçada e completamente sem filtros. As duas eram amigas desde pequenas. — Eu trouxe comida porque quando você fica sofrendo por macho, pelo menos sofre alimentada. Elisa revirou os olhos. — Você é impossível. — E você é dramática. Mila sentou ao seu lado. — Agora fala. O que aconteceu? — Nada. — Elisa... — Sério. — Mentira. Elisa suspirou. Sabia que não adiantava esconder. — Eu falei com ele. — E? — Ele me chamou de baixinha. Mila fechou os olhos. — Meu Deus. — Tá vendo? — Não. Estou tentando entender como você ainda não deu uma tijolada na cabeça desse homem. Elisa acabou rindo. — Mila! — É sério. — Ele não faz por m*l. — Faz sim. — Não faz. — Faz. As duas ficaram alguns segundos se encarando. — Você gosta mesmo dele, né? A pergunta saiu mais suave daquela vez. Elisa abaixou os olhos. — Muito. Mila suspirou. Aquilo ela já sabia. Nos últimos meses tinha visto a amiga mudar. O brilho espontâneo que Elisa sempre carregava parecia desaparecer um pouco mais a cada dia. Tudo por causa de um homem que sequer percebia o tamanho do sentimento dela. — Então para de esperar. — Como assim? — Se declara. Elisa arregalou os olhos. — Você ficou maluca. — Já sou. — Mila... — O quê? — Eu não vou me declarar. — Vai sim. — Não vou. — Vai. — Não vou. — Vai. Elisa pegou uma almofada e jogou nela. As duas começaram a rir. Mas Mila logo voltou ao assunto. — Estou falando sério. — E se ele me rejeitar? — Pelo menos você vai saber. Elisa ficou em silêncio. Aquilo era exatamente o que mais a assustava. Porque enquanto não falava nada, ainda existia esperança. Uma pequena esperança. Mas se ouvisse um não... Tudo acabaria. — Eu não tenho coragem. — Vai ter. — Não vou. — Vai sim. — Você é insistente. — E você é teimosa. As duas voltaram a rir. Mas, pela primeira vez, a ideia ficou plantada na cabeça de Elisa. Talvez Mila tivesse razão. Talvez estivesse na hora de fazer alguma coisa. Do outro lado do morro, a realidade era completamente diferente. No alto da comunidade, uma cobertura luxuosa dominava a paisagem. Ali morava Nando. O dono do Salgueiro. O homem que fazia políticos, empresários e criminosos respeitarem sua palavra. Sentado na varanda, ele observava a movimentação do morro abaixo. A noite começava a cair. As luzes das casas se acendiam uma a uma. Enquanto isso, Cebola, Geleia e Dinho permaneciam próximos. Os três eram homens de confiança. Soldados que estavam ao lado dele há anos. — O baile vai lotar hoje — comentou Geleia. — Como sempre — respondeu Dinho. Nando continuou em silêncio. — Tá pensando em quê? — perguntou Cebola. — Em nada. Os três trocaram olhares. Conheciam aquele homem há tempo suficiente para saber quando ele estava mentindo. Mas ninguém insistiu. Porque Nando não gostava de perguntas. Muito menos de curiosidade. Nesse momento, a porta da cobertura se abriu. Saltos altos ecoaram pelo ambiente. Fabi apareceu sorrindo. Linda. Produzida. Confiante. Como sempre. Ela caminhou diretamente até Nando e sentou em seu colo. Como se o lugar fosse dela. — Você sumiu o dia inteiro. Nando apenas deu um gole em sua bebida. — Estava trabalhando. — Sempre trabalhando. Fabi fez um biquinho. Os soldados trocaram olhares discretos. Eles conheciam aquela cena. Acontecia quase toda semana. O problema era que Fabi acreditava que era especial. Acreditava que era a mulher de Nando. Só que Nando nunca prometeu nada. Nunca assumiu ninguém. Nunca pertenceu a mulher alguma. E nem pretendia. — Hoje você vai comigo pro baile, né? — Talvez. Fabi sorriu. Interpretando aquilo como um sim. Mas não percebeu o olhar que Pri lançou na direção deles. Pri observava tudo do outro lado da varanda. O sorriso preso nos lábios escondia algo muito diferente. Inveja. Ela não suportava Fabi. Principalmente porque sabia que a amiga não tinha exclusividade nenhuma. A diferença era que Fabi ainda não tinha percebido. Pri também queria Nando. Talvez até mais do que Fabi. E faria qualquer coisa para conseguir sua atenção. Qualquer coisa. Naquela mesma noite, Roberta terminava de lavar a louça quando viu Elisa entrando em casa. A filha parecia distraída. Pensativa. Mais uma vez. — Filha. — Oi, mãe. — Vem cá. Elisa sentou à mesa. Roberta observou seu rosto. Ela conhecia aquela menina melhor do que qualquer pessoa. E estava ficando cada vez mais difícil ignorar a tristeza escondida atrás dos sorrisos. — Você anda sofrendo por causa daquele rapaz, não anda? Elisa desviou o olhar. Aquilo já era resposta suficiente. — Mãe... — Eu sou sua mãe. — Não é nada. — Elisa. Os olhos da jovem começaram a marejar. — Eu gosto dele. Roberta suspirou. — Eu sei. — E ele nem me vê. A mulher segurou a mão da filha. — Talvez você esteja olhando para a pessoa errada. — Não estou. — Tem certeza? — Tenho. Roberta acariciou seus cabelos. — Às vezes a vida surpreende a gente. — Não nesse caso. — Você não sabe. Elisa sorriu de forma triste. — Eu queria que ele me enxergasse. — E eu queria ver minha filha feliz. As duas permaneceram em silêncio. Enquanto isso, do lado de fora, o som distante dos primeiros preparativos para o baile começava a ecoar pelas vielas. A comunidade inteira parecia se preparar para a grande noite. E sem saber, Elisa também estava caminhando em direção ao momento que mudaria sua vida para sempre. Porque o baile daquela noite não seria apenas mais uma festa. Seria o início do fim da sua paixão por Binho. E o começo de algo muito mais intenso. Muito mais perigoso. E impossível de controlar. Continua... 🔥❤️
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