Capítulo 2 – Conselhos Perigosos
O restante do dia passou devagar para Elisa.
Depois do encontro com Binho pela manhã, ela tentou se convencer de que aquilo não tinha sido tão r**m. Afinal, ele havia lembrado de seu aniversário. Tinha sorrido para ela. Tinha conversado com ela.
Mas, no fundo, sabia que estava apenas se enganando.
Binho continuava a enxergando como uma criança.
E aquilo doía mais do que ela gostaria de admitir.
Sentada na laje de casa, ela observava o pôr do sol tingir o céu de laranja enquanto mexia distraidamente no celular.
Foi então que ouviu passos conhecidos atrás dela.
— Tá com essa cara desde cedo?
Elisa nem precisou olhar.
— Oi, Mila.
Mila surgiu carregando um refrigerante e um pacote de salgadinhos.
Diferente de Elisa, ela parecia incapaz de ficar triste por muito tempo.
Era impulsiva, engraçada e completamente sem filtros.
As duas eram amigas desde pequenas.
— Eu trouxe comida porque quando você fica sofrendo por macho, pelo menos sofre alimentada.
Elisa revirou os olhos.
— Você é impossível.
— E você é dramática.
Mila sentou ao seu lado.
— Agora fala. O que aconteceu?
— Nada.
— Elisa...
— Sério.
— Mentira.
Elisa suspirou.
Sabia que não adiantava esconder.
— Eu falei com ele.
— E?
— Ele me chamou de baixinha.
Mila fechou os olhos.
— Meu Deus.
— Tá vendo?
— Não. Estou tentando entender como você ainda não deu uma tijolada na cabeça desse homem.
Elisa acabou rindo.
— Mila!
— É sério.
— Ele não faz por m*l.
— Faz sim.
— Não faz.
— Faz.
As duas ficaram alguns segundos se encarando.
— Você gosta mesmo dele, né?
A pergunta saiu mais suave daquela vez.
Elisa abaixou os olhos.
— Muito.
Mila suspirou.
Aquilo ela já sabia.
Nos últimos meses tinha visto a amiga mudar.
O brilho espontâneo que Elisa sempre carregava parecia desaparecer um pouco mais a cada dia.
Tudo por causa de um homem que sequer percebia o tamanho do sentimento dela.
— Então para de esperar.
— Como assim?
— Se declara.
Elisa arregalou os olhos.
— Você ficou maluca.
— Já sou.
— Mila...
— O quê?
— Eu não vou me declarar.
— Vai sim.
— Não vou.
— Vai.
— Não vou.
— Vai.
Elisa pegou uma almofada e jogou nela.
As duas começaram a rir.
Mas Mila logo voltou ao assunto.
— Estou falando sério.
— E se ele me rejeitar?
— Pelo menos você vai saber.
Elisa ficou em silêncio.
Aquilo era exatamente o que mais a assustava.
Porque enquanto não falava nada, ainda existia esperança.
Uma pequena esperança.
Mas se ouvisse um não...
Tudo acabaria.
— Eu não tenho coragem.
— Vai ter.
— Não vou.
— Vai sim.
— Você é insistente.
— E você é teimosa.
As duas voltaram a rir.
Mas, pela primeira vez, a ideia ficou plantada na cabeça de Elisa.
Talvez Mila tivesse razão.
Talvez estivesse na hora de fazer alguma coisa.
Do outro lado do morro, a realidade era completamente diferente.
No alto da comunidade, uma cobertura luxuosa dominava a paisagem.
Ali morava Nando.
O dono do Salgueiro.
O homem que fazia políticos, empresários e criminosos respeitarem sua palavra.
Sentado na varanda, ele observava a movimentação do morro abaixo.
A noite começava a cair.
As luzes das casas se acendiam uma a uma.
Enquanto isso, Cebola, Geleia e Dinho permaneciam próximos.
Os três eram homens de confiança.
Soldados que estavam ao lado dele há anos.
— O baile vai lotar hoje — comentou Geleia.
— Como sempre — respondeu Dinho.
Nando continuou em silêncio.
— Tá pensando em quê? — perguntou Cebola.
— Em nada.
Os três trocaram olhares.
Conheciam aquele homem há tempo suficiente para saber quando ele estava mentindo.
Mas ninguém insistiu.
Porque Nando não gostava de perguntas.
Muito menos de curiosidade.
Nesse momento, a porta da cobertura se abriu.
Saltos altos ecoaram pelo ambiente.
Fabi apareceu sorrindo.
Linda.
Produzida.
Confiante.
Como sempre.
Ela caminhou diretamente até Nando e sentou em seu colo.
Como se o lugar fosse dela.
— Você sumiu o dia inteiro.
Nando apenas deu um gole em sua bebida.
— Estava trabalhando.
— Sempre trabalhando.
Fabi fez um biquinho.
Os soldados trocaram olhares discretos.
Eles conheciam aquela cena.
Acontecia quase toda semana.
O problema era que Fabi acreditava que era especial.
Acreditava que era a mulher de Nando.
Só que Nando nunca prometeu nada.
Nunca assumiu ninguém.
Nunca pertenceu a mulher alguma.
E nem pretendia.
— Hoje você vai comigo pro baile, né?
— Talvez.
Fabi sorriu.
Interpretando aquilo como um sim.
Mas não percebeu o olhar que Pri lançou na direção deles.
Pri observava tudo do outro lado da varanda.
O sorriso preso nos lábios escondia algo muito diferente.
Inveja.
Ela não suportava Fabi.
Principalmente porque sabia que a amiga não tinha exclusividade nenhuma.
A diferença era que Fabi ainda não tinha percebido.
Pri também queria Nando.
Talvez até mais do que Fabi.
E faria qualquer coisa para conseguir sua atenção.
Qualquer coisa.
Naquela mesma noite, Roberta terminava de lavar a louça quando viu Elisa entrando em casa.
A filha parecia distraída.
Pensativa.
Mais uma vez.
— Filha.
— Oi, mãe.
— Vem cá.
Elisa sentou à mesa.
Roberta observou seu rosto.
Ela conhecia aquela menina melhor do que qualquer pessoa.
E estava ficando cada vez mais difícil ignorar a tristeza escondida atrás dos sorrisos.
— Você anda sofrendo por causa daquele rapaz, não anda?
Elisa desviou o olhar.
Aquilo já era resposta suficiente.
— Mãe...
— Eu sou sua mãe.
— Não é nada.
— Elisa.
Os olhos da jovem começaram a marejar.
— Eu gosto dele.
Roberta suspirou.
— Eu sei.
— E ele nem me vê.
A mulher segurou a mão da filha.
— Talvez você esteja olhando para a pessoa errada.
— Não estou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Roberta acariciou seus cabelos.
— Às vezes a vida surpreende a gente.
— Não nesse caso.
— Você não sabe.
Elisa sorriu de forma triste.
— Eu queria que ele me enxergasse.
— E eu queria ver minha filha feliz.
As duas permaneceram em silêncio.
Enquanto isso, do lado de fora, o som distante dos primeiros preparativos para o baile começava a ecoar pelas vielas.
A comunidade inteira parecia se preparar para a grande noite.
E sem saber, Elisa também estava caminhando em direção ao momento que mudaria sua vida para sempre.
Porque o baile daquela noite não seria apenas mais uma festa.
Seria o início do fim da sua paixão por Binho.
E o começo de algo muito mais intenso.
Muito mais perigoso.
E impossível de controlar.
Continua... 🔥❤️