LOUISE BIANCHI
Não sei explicar o que estou sentindo: um misto de surpresa, decepção, confusão e indignação. Mas por que estou decepcionada? Ele tem razão, a proposta é ótima; por que não estou feliz com isso? Fico presa nos meus pensamentos até ele me chamar.
CAIO: Louise, você está me ouvindo?
— Sim, eu aceito a sua proposta. Agora, me diga onde estão as minhas roupas, preciso ir embora.
CAIO: Estão na secadora, vou buscar. Ah, a propósito: usar saia com calcinha deve ser muito mais confortável. Só para você saber.
Terei isso em mente, senhor Santoro. Troco de roupa e desço para ir para casa, mas antes me viro para ele e digo:
— Eu vou embora e espero te encontrar só na Itália.
Saio do apartamento e chamo um táxi. Chego em casa e vou direto para o meu quarto; não estou a fim de ouvir a mamãe reclamando por eu ter dormido fora, então prefiro evitá-la. Pelo menos por enquanto. Tomo um banho, arrumo-me e decido ir à academia; malhar vai ajudar a relaxar um pouco. Coloco uma calça legging preta, um top branco e um tênis da Nike. Pego meus fones de ouvido e vou até a cozinha encher minha garrafinha. Quando estou saindo, dou de cara com a minha mãe.
CECÍLIA: Bom dia, meu amor. Você já começou a arrumar as suas coisas?
— Bom dia, mamãe. Ainda temos tempo. Vou para a academia agora e volto para o almoço. Beijo.
Dou um beijo nela e saio. Achei bem estranho o fato de ela não ter falado nada sobre eu ter dormido fora. Chego à academia, que está bem vazia — ainda bem. Resolvo malhar pernas e braços; hoje preciso me distrair bastante, isso vai tirar a tensão do corpo, pelo menos por hora. Depois de três horas, volto para casa para almoçar.
CECÍLIA: Louise, sei que você não está animada para esse casamento. Sei também que eu e seu pai temos um pouco de culpa pela sua desmotivação, mas não leve o meu casamento como referência. Minha filha, eu desisti, mas você não precisa fazer isso. Eu aceitei viver como vivo, mas não cometa esse erro, meu amor. Não se condene a viver sem saber o que é ser amada de verdade. Se, por acaso, não der certo, pelo menos terá a certeza de que tentou tudo ao seu alcance. Mas, ao se negar a tentar por puro medo ou orgulho, você se condena a uma vida infeliz e com um fim programado.
— Não se preocupe, mamãe, farei o meu melhor. Agora vou deitar um pouco, estou bem cansada.
CECÍLIA: Imagino que sim, querida. Na próxima, seja mais discreta. Não é sempre que consigo te cobrir com seu pai; ele enfartaria só de saber que dormiu na casa do seu noivo. Acredito que você saiba bem o que acontece com quem casa impura...
Nada passa despercebido pela mamãe.
— Fica tranquila, mamãe, nada aconteceu. Sei bem das consequências.
Vou omitir o fato de que eu estava bêbada demais para lembrar de qualquer consequência. Subo e acabo dormindo um pouco, tentando ignorar que me casarei em cinco semanas. O sol está forte; coloco um biquíni rosa-claro e vou para a piscina ler. Nem sei por quanto tempo fiquei ali, até que saio do meu mundo literário com a mamãe me oferecendo um suco.
CECÍLIA: Vai pegar uma insolação se continuar nesse sol. Tentar se matar não vai te livrar do casamento, tenha isso em mente.
— Hahaha, está engraçadinha hoje, mamãe! Posso saber o que te deixou tão feliz a ponto de fazer piada com a minha desgraça?
Ela me olha e sai sorrindo. Levanto da espreguiçadeira, entro em casa e, nesse momento, meu celular apita.
NOTIFICAÇÃO
HELENA: Amiga, vai fazer o que amanhã à noite?
Louise: Nada, amiga. Por quê?
HELENA: Vamos na inauguração de uma galeria de artes comigo?
Louise: E desde quando você se interessa por artes, Helena?
HELENA: Desde que o dono da galeria é meu melhor amigo, dona Louise! Nem sempre quando me interesso por algo tem a ver com homem, querida.
Louise: Ai, tá, desculpa! Não precisa ficar ofendida, gata. Que horas é o evento?
HELENA: Às 20:00. Vou te buscar, esteja bem gata, pois o evento pede isso. Beijo, linda.
Logo hoje que eu pretendia dormir cedo... só Helena mesmo. O dia até que foi produtivo. Tomo um banho, lavo o cabelo, faço uma make básica para destacar o vestido e prendo o cabelo em um r**o de cavalo. Coloco um vestido longo de cetim vermelho com uma f***a na perna esquerda e um salto espiral preto brilhante. Pego minha bolsa prateada, celular, cartão e batom vermelho, e desço para encontrar a Helena.
HELENA: Uau, nossa, amiga, você está linda! Dá uma voltinha, gatinha! Hahaha.
— Olha quem fala, você está gatíssima! Agora vamos, antes que eu desista de sair.
HELENA: Então partiu, que a noite é longa, querida.
Saímos no carro da Helena. Obviamente, sei que há seguranças nos seguindo, mas nem me importo mais; já me acostumei. Chegamos ao local e fico encantada. De fato, o evento pedia uma mega produção. Logo encontramos o anfitrião.
HELENA: Ravi, você arrasou! Estou maravilhada com seu trabalho, parabéns, amigo. Ah, a propósito, esta é a Louise Bianchi.
— Helena tem razão, a sua exposição está incrível. Você tem um talento absurdo, Ravi. Com certeza preciso de um desses quadros.
RAVI: Muito obrigado, minha querida. E Helena não exagerou quando disse que você era linda; vendo você agora, acho que ela foi muito modesta. Fiquem à vontade, minhas queridas, e obrigado por comparecerem.
Um fotógrafo pede para tirar uma foto nossa e sinto um pequeno desconforto com as mãos de Ravi em minha cintura, mas deixo para lá. A exposição foi um sucesso, todos os quadros vendidos em menos de três horas.
HELENA: Prontinho, gata, está entregue.
— Obrigada, amiga, até mais.
Assim que desço do carro, ela arranca em alta velocidade. Ai, ai, essa Helena é louca. Antes de ir para o quarto, passo na cozinha para beber água e fico pensando em como será minha vida depois do casamento. É estranho passar a vida sabendo que esse momento chegaria e, agora, nunca ter me preocupado em como será viver em um país diferente, com costumes e comidas estranhas. Minha mente colide com a emoção e briga com a razão, pois sei que nada posso fazer. Sou só mais uma peça nesse jogo cujo objetivo é poder, e eu sou uma peça fraca nele...
MARINA: Precisa de ajuda com algo, senhorita Louise?
— Não, Marina. Pode se deitar e desculpe-me se te acordei. Tenha uma boa noite.