Eduarda narrando
Eu já estava quase chegando em casa, quando senti o celular vibrar no bolso. O som foi baixo, mas suficiente pra me fazer parar no meio da calçada. Meu corpo inteiro, já estava cansado, minhas pernas pesadas, os pés doendo tanto, que parecia que, eu estava pisando em vidro…
Mas, mesmo assim, eu parei, respirei fundo, antes de pegar o celular. Não sei por quê… mas naquele momento, qualquer notificação, parecia importante demais pra ignorar.
Tirei o aparelho do bolso e desbloqueei a tela. Uma notificação de Pix. Franzi a testa. Pix? Eu não estava esperando nada. Nenhum dinheiro. Muito menos naquele dia. Na verdade , o que era pra cair, eu não terminei o serviço. Abri. E, no segundo que meus olhos bateram no valor… meu coração simplesmente disparou. Cinco mil reais. R$ 5.000,00. Por um instante, eu achei que estava vendo errado. Pisquei. Olhei de novo. O valor continuava lá. Real. Na minha conta. Minhas mãos começaram a tremer levemente. Desci o olhar pra ver o nome de quem tinha enviado. E foi aí que minha respiração falhou de vez.
Rafael Montenegro.
Meu coração, começou a bater ainda mais rápido. Forte.
Descompassado.
Eu não estava esperando por aquilo. Não fazia sentido. Nada daquilo fazia sentido. Fiquei parada ali por alguns segundos, no meio da rua, completamente sem reação, tentando processar o que estava acontecendo. Cinco mil reais. Na minha conta. Dele. Por quê? Pra quê?
Engoli seco e, sem perder tempo, abri as mensagens. Meus dedos estavam rápidos, mas trêmulos.
— Senhor Rafael, sobre o Pix… acho que o senhor pode ter mandado errado, ou por engano. — Parei por um segundo, respirando fundo, tentando organizar as palavras. — Eu nem cumpri a carga horária completa. O senhor pode me mandar a chave pra eu devolver o valor?
Enviei. Fiquei olhando pra tela. Esperando. Meu coração ainda acelerado, como se estivesse correndo dentro do peito. Não demorou muito. Ele visualizou. Na mesma hora, mas não respondeu. Nada.
Nenhuma palavra. Nenhuma explicação. Senti uma pontada de irritação subir.
— Não faz sentido… — murmurei pra mim mesma.
Voltei a andar, agora mais devagar. Minha cabeça estava a mil. Por que ele me pagaria? E ainda mais esse valor? Aquilo não era pagamento. Era muito mais do que isso. Muito mais. Passei a mão no rosto, nervosa. Por um minuto… só um minuto… eu pensei.... Esse dinheiro resolveria tudo!
Tudo.
Meu aluguel atrasado. A comida que está faltando em casa. As contas que estão acumulando.
Tudo.
Seria como um respiro. Uma chance.
Mas logo em seguida, a consciência bateu forte. Não.
Eu não posso aceitar.
Esse dinheiro não é meu. Eu não trabalhei pra isso. Eu nem terminei o dia. E, pior… eu quase coloquei o filho dele em risco. Só de lembrar disso, meu peito apertou. A culpa veio como um soco. Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento.
Não.
Eu não vou ficar com esse dinheiro.
Não posso!
Voltei pro celular. Abri a conversa de novo. E mandei outra mensagem.
Curta.
Direta.
Pra ver se ele respondia. Pra ver se ele ao menos explicava. Mas dessa vez… Nada.
Nem visualizou.
Bufei, guardando o celular no bolso com mais força do que o necessário.
— Ótimo… — murmurei, irritada.
Continuei andando...
Cada passo mais pesado que o outro. Minha cabeça cheia, meu coração apertado… e aquele valor martelando na minha mente sem parar. Cinco mil reais.
Cheguei em frente de casa alguns minutos depois. Ou, pelo menos… o lugar que eu ainda chamava de casa. Subi os poucos degraus devagar, sentindo meus pés latejarem a cada movimento. Quando parei em frente à porta, percebi algo no chão. Um papel. Dobrado. Empurrado por debaixo da porta. Meu estômago gelou na mesma hora. Abaixei devagar, pegando. Só de olhar por fora… eu já sabia. Mas, mesmo assim, abri.
Notificação de despejo.
Respirei fundo. Passei a mão no rosto, nervosa, sentindo um peso ainda maior cair sobre mim.
— Não… — sussurrei, fechando os olhos por um segundo.
Aquilo era tudo que eu não precisava, mas era exatamente o que estava acontecendo. Olhei de novo pro papel. As palavras pareciam ainda mais pesadas agora. Prazo.
Desocupação.
Débito.
Tudo tão frio. Tão direto. Meu olhar caiu automaticamente pro bolso onde estava meu celular. E, junto com ele… o dinheiro. Cinco mil reais. Aquilo resolveria tudo. Literalmente tudo. Eu conseguiria pagar o aluguel. Evitar o despejo. Ir ao mercado. Comprar comida. Porque, sendo bem sincera… o que tinha em casa era o que a Rebeca tinha comprado pra mim. E já estava acabando. Mais alguns dias… e eu não teria nada. Absolutamente nada!
Respirei fundo, tentando controlar o turbilhão dentro de mim. Abri a porta e entrei. A casa estava silenciosa. Simples. Pequena. Mas era o que eu tinha. Fechei a porta atrás de mim e encostei nela por alguns segundos, sem forças pra fazer mais nada. Meu corpo doía. Cansado. Exausto. Mas minha mente… não parava.
Olhei ao redor. Tudo tão… vazio. Tão limitado. E aquele dinheiro… parecia gritar dentro da minha cabeça. “Resolve.” “Fica.” “Usa.” Fechei os olhos com força.
— Não é meu… — falei em voz baixa, como se precisasse ouvir isso de mim mesma.
Caminhei até o quarto, deixando o papel em cima da mesa. Tirei a roupa devagar, cada movimento denunciando o quanto meu corpo estava no limite. Fui direto pro banheiro. Assim que liguei o chuveiro e a água caiu sobre mim… foi como se tudo viesse junto. O cansaço. A dor. A culpa. O medo.
Olhei pros meus pés. Cheios de bolhas. Vermelhos. Machucados. Por causa da caminhada. Porque eu não tinha dinheiro pra voltar. Nem pra um ônibus. Nem pra um Uber. E não foi pouca coisa que eu andei. Passei a mão devagar por uma das bolhas, fazendo uma careta de dor, mas aquilo, não era nada perto do que eu estava sentindo por dentro.
Levantei o rosto, deixando a água cair diretamente sobre ele. E foi aí que eu não segurei. As lágrimas vieram. Misturadas com a água. Silenciosas. Pesadas.
— Me ajuda… — sussurrei, olhando pra cima. Minha voz saiu falha. — Por favor…
Fechei os olhos, respirando fundo, tentando não desmoronar completamente. Mas estava difícil. Muito difícil.
— Eu tô cansada… — murmurei, a voz quase sumindo.
Porque era verdade. Eu estava. Cansada de lutar. Cansada de tentar. Cansada de sempre estar correndo atrás e nunca conseguir alcançar. Por um minuto… só um minuto… a ideia passou pela minha cabeça. Desistir. Simples assim. Desistir de tudo.
Mas, na mesma hora… outra voz veio. Mais forte. Mais firme. As palavras dos meus pais. “Pessoas fracas desistem.” “As fortes enfrentam.” Abri os olhos devagar. Respirei fundo.
— Eu não sou fraca… — falei, mesmo que baixinho. — Eu não sou.
Passei as mãos pelo rosto, limpando as lágrimas. Deixei a água levar o resto. Fiquei ali mais alguns minutos. Tentando me recompor. Tentando juntar os pedaços de mim mesma. Porque, mesmo cansada… eu ainda precisava continuar.
Desliguei o chuveiro e saí. Peguei uma toalha, me secando devagar. Coloquei um pijama simples e voltei pro quarto. Meu olhar caiu automaticamente pro celular. Ainda sem resposta. Nada. Nem visualização. Suspirei.
Caminhei até a cama e me joguei nela sem pensar duas vezes. O colchão parecia um abraço depois de tudo. Mas meu estômago… doía. Roncava. Vazio. E mesmo assim… o cansaço venceu. Meu corpo simplesmente desligou. Minha mente não teve tempo de continuar pensando. Em menos de cinco minutos… eu dormi.
Cansada. Quebrada, mas de alguma forma… ainda resistindo.