capitulo.09

1247 Words
Rafael narrando Eu nunca gostei de estar longe. Não por causa da empresa. Não por causa dos negócios. Isso eu sei lidar, sei controlar, sei resolver. Sempre soube. Mas estar longe do meu filho… Isso é outra história. Desde que o Benjamim nasceu, alguma coisa em mim mudou. Não foi de uma vez, não foi bonito como as pessoas costumam dizer… foi bruto, foi intenso. Como tudo na minha vida. E agora, sentado naquela sala de reunião, cercado por acionistas e fornecedores que esperavam respostas, números, decisões… minha cabeça estava em outro lugar. Nele. No meu filho. No jeito que ele tinha ficado mais cedo, rindo, correndo pela sala… brincando. Brincando. Aquilo não saía da minha cabeça. Porque não era comum. O Benjamim não era uma criança de se soltar fácil. Muito pelo contrário. Sempre foi mais fechado, mais na dele… desconfiado com qualquer pessoa que não fosse eu. E mesmo comigo… levou tempo. Por isso, quando vi ele daquele jeito mais cedo, leve, sorrindo com a babá… aquilo me pegou de um jeito que eu não esperava. Talvez fosse um bom sinal. Talvez eu tivesse acertado, finalmente. Mas, ainda assim… alguma coisa dentro de mim não estava em paz. Acho que foi a falta de responsabilidade dela, com relação a alimentação dele. Ela poderia ter causado uma reação alérgica nele, que poderia ter feito ele ir parar no hospital. — Senhor Montenegro? A voz de um dos acionistas me puxou de volta. Olhei pra ele, mantendo a postura, mesmo com a mente longe. — Pode repetir? Ele assentiu, retomando a explicação sobre prazos, entregas, valores… coisas importantes. Coisas que, em qualquer outro dia, teriam toda a minha atenção. Mas não hoje. Hoje, cada minuto longe parecia errado. Eu precisava resolver aquilo logo. Encerrar. Voltar. Foi quando a porta da sala se abriu discretamente. Meu olhar foi direto pra ele. Roberto. Ele não interromperia uma reunião daquele nível à toa. E o que mais me chamou atenção… foi o celular na mão dele. Meu corpo inteiro ficou em alerta na mesma hora ja prevendo o pior. — Com licença — ele disse, se aproximando. Os outros homens na mesa se entreolharam, claramente incomodados com a interrupção, mas ninguém ousou questionar. Roberto parou ao meu lado e virou levemente o celular na minha direção. — O senhor precisa ver isso. Meu maxilar travou. Peguei o aparelho da mão dele sem dizer nada. Era a câmera da sala. Minha casa. Meu filho. A imagem mostrava a cozinha. E ela. A babá. De costas. Pela posição da câmera, não dava pra ver o rosto direito. Só o corpo, o cabelo… ela parecia estar perto da bancada. Talvez comendo, talvez mexendo em alguma coisa. A imagem não ajudava muito. Pela câmera da sala, eu via o ben dormindo, o que era muito bom. Porque meu filho estava bem, estava se sentindo seguro. Mas não era isso que me incomodava. Era a sensação. Aquilo ali não parecia certo. Fiquei alguns segundos observando, tentando entender o que exatamente estava acontecendo. Foi quando outra figura entrou no enquadramento. Isabela. Meu corpo inteiro enrijeceu na hora. Claro. Tinha que ser ela. Mesmo de longe, eu reconheceria aquela postura em qualquer lugar. Ela falou alguma coisa. Não dava pra ouvir, mas dava pra ver pelo movimento dos lábios… pelo jeito firme, direto. A babá ficou parada por um segundo. Depois se levantou. Pegou alguma coisa — provavelmente o celular — e saiu. Simples assim. Sem discussão. Sem resistência. Só… foi embora. Minha mandíbula travou com força. — Quando foi isso? — perguntei, sem tirar os olhos da tela. — Agora há pouco, senhor, a 5 minutos atrás — Roberto respondeu. Respirei fundo, tentando controlar a irritação que subia rápido demais. Mas não consegui. Um calor pesado tomou conta do meu corpo. Raiva. Raiva da situação. Raiva dela. Raiva de mim mesmo. Desde que soube que eu viajaria, Isabela se ofereceu pra cuidar do Benjamim. — Deixa ele comigo, Rafael. Você sabe que pode confiar. Eu disse não. Claro que disse. Eu conheço ela. Conheço o jeito controlador, invasivo… o tipo de pessoa que ultrapassa limites como se eles não existissem. — Eu já contratei alguém — eu tinha falado. E ela riu. Um riso baixo, cheio de ironia. — Você vai se arrepender de deixar seu filho com uma estranha. As palavras dela ecoaram na minha cabeça naquele exato momento. E agora… Agora ela estava dentro da minha casa. De novo. Fazendo exatamente o que queria. Como se eu tivesse dado alguma autoridade pra isso. Devolvi o celular pra Roberto, devagar, sentindo cada músculo do meu corpo tenso. Levantei da cadeira. — Vamos encerrar por aqui. A sala inteira ficou em silêncio. — Senhor Montenegro, ainda temos pontos importantes a tratar — um dos acionistas tentou intervir. Olhei pra ele. Frio. Direto. — E vamos tratar. Pelo celular. Ninguém discutiu depois disso. Eles me conhecem. Sabem que, quando eu decido, não tem volta. — Roberto — chamei, já pegando meu paletó. — Sim, senhor. — Prepara o avião. Estamos voltando agora. Ele assentiu sem hesitar. — Imediatamente. Roberto saiu da sala na mesma hora. Eu passei a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando organizar os pensamentos. Mas era difícil. Porque, junto com a raiva… vinha outra coisa. Preocupação. O Benjamim. Como ele estava? Como vai ser quando ele acordar e ver a Isabela ali? Minha cabeça girava com possibilidades que eu não queria considerar. E o que mais me irritava… Era lembrar da cena de mais cedo. Ele rindo. Brincando. Com a babá. Uma estranha. Algo que eu nunca tinha visto ele fazer antes. Nunca. E agora… Quando acordasse… Não ia ser ela que ele encontraria. Ia ser a Isabela. E ele não gosta dela. Nunca gostou. E eu também nunca forcei. Porque criança sente. E ele sempre sentiu alguma coisa nela que eu também sentia. Algo que não encaixava. Algo que não era confiável. Fechei os olhos por um segundo, tentando conter a tensão. Mas não dava. Eu precisava chegar logo. Precisava ver com meus próprios olhos. Precisava entender exatamente o que tinha acontecido ali. Saí da sala sem olhar pra trás. Meu passo era firme, rápido. Cada segundo agora parecia uma eternidade. Peguei o celular do bolso e abri as câmeras novamente. Procurei outra imagem. Outro ângulo. Mas nada que mostrasse mais do que aquilo. A casa parecia… quieta demais. Isso só piorava tudo. Entrei no elevador com o maxilar travado. Assim que as portas fecharam, apoiei a cabeça levemente na parede de aço frio. Respirei fundo. Uma. Duas. Três vezes. Mas não adiantava. Porque, no fundo, eu já sabia. Aquilo não ia terminar bem. Assim que o elevador abriu, Roberto já estava me esperando. — O avião estará pronto em vinte minutos, senhor. Assenti. — Quero tudo preparado. E mantém o celular comigo. — Sim, senhor. — Transfira o valor pra babá, pode pagar até a mais pelo constrangimento. Depois que eu garantir que o Ben está bem, eu entro em contato com ela. — Sim, senhor. Continuei andando sem parar. Minha mente já estava à frente. Na casa. Na porta. No momento em que eu entrasse e encontrasse ela lá dentro. Isabela. E, pela primeira vez em muito tempo… Eu sabia exatamente o que ia fazer. Porque uma coisa era certa: Ela pode ser minha secretária e organizar uma boa parte das minhas obrigações, mas na minha casa, e com o meu filho ela não tem autoridade nenhuma e nem sobre ninguém.
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