Eduarda narrando
Quando a gente terminou de organizar tudo… eu parei por um segundo. Só parei mesmo. No meio da sala. Olhando ao redor. As caixas separadas. As roupas dobradas. As poucas coisas que eu decidi levar. E, principalmente… o vazio.
Aquele apartamento que sempre teve tanta vida… agora parecia ecoar. Como se já soubesse que eu estava indo embora. Respirei fundo, sentindo aquele aperto no peito voltar. Mas, dessa vez… não era só tristeza. Era despedida. E recomeço.
— Amiga… — a voz da Rebeca me puxou de volta. — Seu pai ia ter orgulho de você.
Olhei pra ela na hora. Meu coração apertou. Mas eu sorri. Mesmo que pequeno.
— Eu espero que sim…
Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa… a campainha tocou. Olhei pra porta.
— Deve ser o senhor Roberto — falei.
Fui até lá e abri. E, como esperado, ele estava ali. Sério como sempre. Mas educado.
— Boa tarde — falou.
— Boa tarde…
Ele entrou, olhando ao redor, avaliando rapidamente as caixas.
— Já está tudo pronto?
— Sim…
Rebeca já foi pegando algumas coisas.
— Bora, então.
E a gente começou a descer com as caixas. Uma viagem. Duas. Três. Até tudo estar lá embaixo.
Quando terminamos, o senhor Roberto fechou o porta-malas do carro. Rebeca foi até ele e deu um beijo no rosto.
— Oi, pai.
Ele assentiu de leve.
— Quer carona?
Ela negou na hora.
— Não, tô com o meu carro.
Ele concordou.
— Certo.
Depois olhou pra mim.
— Já está pronta?
Meu coração acelerou de leve. Mas eu assenti.
— Tô sim.
Virei pra Rebeca. E, sem pensar muito… abracei ela. Forte.
— Obrigada por tudo…
Ela me apertou de volta.
— Para com isso… você merece.
Me afastei um pouco.
— Assim que eu me instalar e resolver tudo com o senhor Rafael… eu te aviso. A gente se encontra.
Ela sorriu.
— Com certeza.
— E eu vou voltar pra faculdade.
Os olhos dela brilharam na hora.
— EU SABIA!
Ri, sentindo um alívio leve.
— A gente vai se ver todo dia.
— Todo dia! — ela confirmou, animada.
Respirei fundo. Olhei mais uma vez pra ela. E então… entrei no carro.
O senhor Roberto deu a volta e entrou também. E, quando o carro começou a andar… eu olhei pela janela. Meu prédio ficando pra trás. Minha vida antiga… ficando pra trás.
Meu coração apertou. Mas eu não chorei. Dessa vez, não. Eu só… segui.
O caminho até a casa do senhor Rafael foi silencioso. Mas não desconfortável. Eu estava perdida nos meus próprios pensamentos. Tentando entender tudo que estava acontecendo. Tudo que estava mudando. E, ao mesmo tempo… tentando me preparar.
Quando o carro finalmente parou… meu coração acelerou. Olhei pela janela. A casa era enorme. Mais uma vez. Imponente. Luxuosa. Mas, dessa vez… eu não estava ali de passagem. Eu ia morar ali.
Desci do carro devagar. Ainda absorvendo tudo. E foi só dar alguns passos que ouvi:
— DUDAAA!
Levantei o olhar na hora. E lá vinha ele. Correndo. Com aquele sorriso que já estava começando a ser familiar.
Me abaixei instintivamente. E ele se jogou no meu colo.
— Você veio! — falou, todo animado.
Ri, segurando ele.
— Eu vim…
— Você vai ficar?
Meu coração aqueceu.
— Vou sim.
Ele abriu um sorriso enorme.
— Oba!
Levantei com ele no colo. E foi então que senti. O olhar.
Olhei de lado. E lá estava ele. Rafael. Observando. Em silêncio.
Aquilo me deixou completamente sem graça. Meu rosto esquentou na hora. Então, meio sem saber o que fazer… coloquei o Benjamim no chão.
— Vem — Rafael falou, simples. — Vou te mostrar o seu quarto.
Assenti.
— Tá bom…
Mas o Benjamim não soltou minha mão. Então eu acabei pegando ele no colo de novo. E fui seguindo.
Subimos as escadas. Andamos por um corredor enorme. Até que ele abriu uma porta.
— Aqui.
Entrei. E parei. Meu corpo inteiro travou.
— Meu Deus…
O quarto… era do tamanho do meu apartamento inteiro. Sem exagero. Cama enorme. Armário gigante. Uma varanda. Decoração impecável.
Eu fiquei parada, sem reação.
— Você pode ficar à vontade — ele disse, tranquilo.
Eu ainda estava olhando ao redor.
— Isso aqui é… surreal…
Ele ignorou meu comentário. Ou fingiu ignorar.
— Tem as moças da limpeza… cozinheira… tudo funcionando normalmente.
Aquilo me fez franzir levemente a testa. Porque, no dia que eu vim… não tinha ninguém. Mas eu não questionei. Não era meu lugar.
— Você só precisa se preocupar com o Benjamim — ele continuou.
Olhei pra ele e assenti.
— Tá bom… por mim, tudo certo.
— Vou pedir pro Roberto trazer suas coisas.
— Não precisa se incomodar, eu—
— Já está resolvido — ele cortou.
Assenti, sem insistir.
— Obrigada…
Ele apenas fez um gesto de cabeça. E saiu.
Me deixando ali. Com o Benjamim. E aquele quarto absurdo.
Fiquei alguns segundos em silêncio. Só olhando.
— É bonito, né? — ele falou.
Ri.
— Muito…
— Agora você mora aqui comigo!
Olhei pra ele. E sorri.
— É… agora eu moro.
Ele ficou todo animado.
— A gente vai poder assistir desenho! E brincar! E fazer um monte de coisa!
Ri, sentindo o coração leve.
— Vamos sim.
— Vem! — ele falou, me puxando.
— Pra onde?
— Meu quarto!
E saiu praticamente me arrastando. Fui atrás. Entramos no quarto dele. E ficamos ali. Brincando. Assistindo desenho. Conversando.
Ele falava sem parar. Sobre tudo. E eu só… acompanhava. Rindo. Respondendo. Participando.
E, quando percebi… o tempo passou.
— Hora do banho, mocinho — falei.
Ele fez careta.
— Ah não…
Ri.
— Ah sim.
Levei ele pro banheiro. Dei banho. Com cuidado. Com atenção. Tentando fazer tudo certo dessa vez.
Depois troquei ele. E descemos. A mesa já estava posta. Comida pronta. Tudo organizado. E aquilo me fez perceber… o nível de tudo ali.
Ele jantou tranquilo. Sem dificuldade. E, depois… subimos de novo. Levei ele pro quarto.
— Conta história? — ele pediu, já deitado.
Sorri.
— Claro.
Sentei ao lado dele. E comecei. Uma história simples. Mas ele ouviu como se fosse a coisa mais importante do mundo.
E, aos poucos… os olhos foram ficando pesados. Até fechar.
Fiquei ali por mais alguns segundos. Observando. E, quando tive certeza de que ele dormia… levantei. Apaguei a luz. E saí. Fechando a porta devagar.
Respirei fundo. Cansada. Mas… bem.
Voltei pro meu quarto. Minhas coisas já estavam lá. Organizadas. Nem sei quando trouxeram. Mas estavam. Sorri de leve.
Comecei a arrumar. Guardar. Organizar. E, quando terminei… fui pro banheiro. E, mais uma vez… fiquei sem reação.
— Isso não é um banheiro… — murmurei. — É um spa.
Tudo perfeito. Bonito. Impecável.
Peguei meu pijama. E entrei no chuveiro. A água quente caiu sobre mim. E eu fechei os olhos. Aproveitando. Sentindo. Como se aquele momento fosse meu. Só meu.
Demorei. Sem pressa.
Quando saí, me senti renovada. Mais leve. Coloquei o pijama. E fui pra cama. Aquela cama… era absurda de confortável.
Me joguei ali. E suspirei.
Peguei o celular. Abri a conversa com a Rebeca. E mandei uma foto do quarto.
Não demorou nem cinco segundos.
“QUE ISSO, EDUARDA?!?!”
Ri.
“Acho que tô sonhando.”
“AMIGA, VOCÊ VENCEU NA VIDA”
“Calma kkkkk ainda tô tentando entender”
Ficamos conversando. Sobre tudo. Sobre o quarto. Sobre o Benjamim. Sobre a casa. Sobre a vida.
E, aos poucos… meu corpo foi relaxando. O cansaço veio. Pesado. Mas bom.
— Boa noite, amiga — digitei.
“Boa noite, linda. Te amo.”
“Também te amo.”
Deixei o celular de lado. Me ajeitei na cama. E fechei os olhos.
E, pela primeira vez em muito tempo… eu dormi.
Em paz.