Capitulo 22

1144 Words
Rafael narrando Tem coisas que a gente não espera sentir. Principalmente quando você já se acostumou com um certo tipo de rotina… com um certo tipo de controle. E, mesmo assim… acontece. Desde que a Eduarda chegou… alguma coisa mudou. E eu percebi isso rápido. Muito rápido. O Benjamim. Ele sempre foi grudado em mim. Sempre. Depois que a mãe dele se foi, então… virou ainda mais. Eu virei tudo pra ele. Referência. Segurança. Presença. E, por muito tempo, isso foi necessário. Eu sabia. Mas também era pesado. Porque, ao mesmo tempo que eu fazia tudo por ele… eu também precisava manter o resto funcionando. Empresa. Negócios. O shopping. Tudo. E nem sempre era fácil equilibrar isso. Na verdade… quase nunca era. Mas agora… agora eu estava vendo uma coisa que eu nunca tinha visto antes. Meu filho… à vontade. Com outra pessoa. Desde a hora que ela chegou, ele não saiu de perto dela. Não me chamou. Não veio atrás. Não pediu colo. Nada. E isso… foi estranho. Muito estranho. Porque eu estava acostumado. Acostumado a sentir o peso dele no meu colo. A presença constante. A dependência. Então, ver aquilo… foi como tirar algo que sempre esteve ali. Mas, ao mesmo tempo… não foi r**m. Foi… bom. Estranhamente bom. Porque, pela primeira vez em muito tempo… eu senti que podia respirar. Que eu podia sair. Que eu podia resolver o que precisava resolver… sem ficar com aquela preocupação constante. Sem ficar pensando se ele estava bem. Se estava chorando. Se estava sozinho. Porque eu sabia. Eu tinha visto. Ele estava bem. Com ela. E isso… fez toda a diferença. Eu estava no escritório. Terminando de assinar algumas papeladas. Documentos importantes. Coisas que eu já vinha adiando há dias. Mas, agora, com ele tranquilo lá em cima… eu consegui focar. De verdade. A casa estava em silêncio. Organizada. Funcionando. Do jeito que deveria. Olhei rapidamente o relógio na parede. Quase de madrugada. E eu nem tinha percebido o tempo passar. Passei a mão pelo rosto, soltando um suspiro baixo. Peguei a última folha, assinei e deixei de lado. Foi quando o celular tocou. Olhei a tela. Isabela. Minha expressão fechou automaticamente. Atendi. — Fala. — Rafael… — a voz da isabela veio tensa do outro lado. — Deu um problema. Fiquei em silêncio, esperando. — Teve um incêndio em uma das áreas do shopping. Meu corpo enrijeceu na hora. — O quê? — Foi controlado, mas os danos foram grandes. E os acionistas estão furiosos. Você precisa ir pra lá. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo. Claro. Tinha que acontecer. Sempre tem alguma coisa. — Eu vou resolver — falei, direto. — Precisa ser agora. — Eu sei. Desliguei. Sem mais. Fiquei alguns segundos parado. Pensando. Organizando. E então levantei. Saí do escritório e subi as escadas. Passei primeiro pelo quarto do Benjamim. Abri a porta devagar. Ele estava dormindo. Tranquilo. Do mesmo jeito que eu deixei. Entrei. Me aproximei da cama. E me abaixei levemente, dando um beijo na testa dele. — Cuida de tudo aí, campeão… — murmurei baixo. Ele nem se mexeu. Só respirava, leve. E aquilo me deu uma pequena paz. Saí do quarto e fui direto pro meu. Abri o armário e comecei a arrumar uma mala. Rápido. Prático. Não sabia quanto tempo ia ficar fora. Um dia. Dois. Talvez mais. Mas não precisava de muito. Separei algumas roupas. Documentos. Itens básicos. Fechei a mala e parei por um segundo. Pensando. Eu precisava avisar ela. A Eduarda. Não podia simplesmente sair. Mudei de direção. E fui até o quarto dela. Parei em frente à porta. E bati. Uma vez. Duas. Três. Nada. Olhei o relógio no corredor. Tarde demais. Ou melhor… cedo demais. Ela provavelmente já estava dormindo. Passei a mão pela nuca, pensativo. Mas eu precisava avisar. Segurei a maçaneta. E abri. Devagar. A luz do abajur estava acesa. O quarto silencioso. E ela… estava dormindo. Na cama. Segurando o celular. Como se tivesse apagado ali mesmo. Fiquei parado na porta por um segundo. Só observando. E então me aproximei. Sem fazer barulho. O rosto dela estava tranquilo. Sem aquela tensão que eu vi no restaurante. Sem aquele nervosismo. Ali… ela parecia leve. Mais jovem até. Diferente. Muito diferente. Meu olhar desceu por um instante. O celular ainda na mão dela. A respiração calma. E, sem perceber… eu senti. Uma coisa estranha. Difícil de explicar. Não era só curiosidade. Não era só análise. Era… algo a mais. Algo que eu não identifiquei na hora. E, sinceramente… nem quis. Afastei o olhar. Respirei fundo. E tomei uma decisão. Não ia acordar ela. Não naquele momento. Ela precisava descansar. Principalmente depois de tudo que aconteceu hoje. Então eu apenas virei. E saí. Fechando a porta com cuidado. Desci as escadas com a mala na mão. E fui até a garagem. O carro já estava lá. E, como sempre… Roberto também. Encostado. Esperando. Como se soubesse. Como se sempre soubesse. — Vai precisar ir — ele disse, antes mesmo de eu falar qualquer coisa. Assenti. — Vou. Coloquei a mala no porta-malas. E então olhei pra ele. — Dessa vez você não vai comigo. Ele franziu levemente a testa. — Tem certeza? — Tenho. Fechei o porta-malas. — Aproveita esses dias. Vai pra casa. Descansa. Ele me observou por um segundo. — E aqui? — Fica atento ao celular — falei. — Se a Eduarda precisar de qualquer coisa… Ele assentiu. — Eu resolvo. — Exato. Silêncio. — Pode deixar. Assenti. Entrei no carro. E dei partida. Saí da garagem. E segui. Direto pro aeroporto. Mas, durante todo o caminho… minha mente não estava no incêndio. Nem no shopping. Nem nos acionistas. Estava nela. Na imagem dela dormindo. Do jeito que eu deixei. Tranquila. Vulnerável. Real. Soltei um ar baixo, passando a mão no volante. No começo… eu julguei. Achei que ela era irresponsável. Imatura. Principalmente pela foto do w******p. Aquela maquiagem… aquela aparência. Parecia uma menina. s*******o. Sem preparo. E eu me baseei nisso. Errado. Muito errado. Porque, agora… depois de ver ela com o Benjamim… depois de ver a forma como ele reagiu… como ele se abriu… eu percebi. Que eu estava completamente enganado. Ela pode não ter experiência. Pode não saber tudo ainda. Mas tem alguma coisa ali. Alguma coisa que não se aprende. Que não se ensina. E isso… faz toda a diferença. Apertei levemente o banco do carro, Pensativo. Só espero… que nesses dias que eu estiver fora… tudo fique bem. Que ela consiga lidar. Que o Benjamim fique tranquilo. E que, quando eu voltar… eu encontre tudo do mesmo jeito. Ou melhor. Porque, agora… além do problema no shopping… eu tinha outras coisas pra resolver. Aqui. Dentro da minha própria casa. E, de alguma forma… eu sabia. Que aquela mudança… ainda ia trazer muito mais do que eu estava preparado pra lidar.
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