Drako
UM ANO DEPOIS
Eu permanecia diante da janela do meu escritório em São Pedro, Califórnia, observando um mar de contêineres de carga e, logo além deles, o vasto Oceano Pacífico. Para a maioria das pessoas, o visual industrial da região, com seu cheiro forte de óleo diesel e o som constante de motores e guindastes, provavelmente não teria nenhum charme. Mas, para mim, era uma paisagem linda. Quase sagrada.
Desde pequeno, quando eu ficava ao lado do meu pai e ouvia ele me dizer que a nossa pequena empresa de transporte marítimo um dia se tornaria algo grandioso, eu aprendi a amar este lugar. Não eram só os contêineres coloridos, os navios imensos ou os guindastes que pareciam tocar o céu que me fascinavam. Era o sonho. Era o brilho nos olhos do meu pai enquanto me descrevia o futuro que ele queria construir. E, naturalmente, aquele sonho também passou a ser meu.
Ele fundou e ergueu esta empresa com as próprias mãos. E, quando eu fiquei velho o suficiente, me juntei a ele no negócio. Como ele, eu sonhava grande. Queria que fôssemos mais do que uma transportadora — queria que possuíssemos nossa própria frota de navios superdimensionados. Meu maior objetivo era ter um navio que levasse o nome do meu pai e cruzasse oceanos levando nossa carga para terras distantes.
Meu pai tinha o sonho. Eu, o tino comercial. E juntos, construímos a Transportadora Sullivan.
Compramos nosso primeiro grande navio porta-contêineres há pouco mais de um ano. Nunca vou esquecer a expressão de orgulho no rosto dele ao ver aquele gigante de aço zarpar, carregado até o limite, em direção ao oeste. Pouco tempo depois, recebemos uma proposta da Strong Incorporated — uma empresa nacional de calçados em plena expansão internacional. Eles queriam que cuidássemos da exportação dos seus produtos. Foi uma conquista enorme. A Strong vinha trabalhando com algumas das maiores empresas de transporte do mundo, mas decidiu mudar de estratégia. Queria algo mais pessoal. Empresas geridas por famílias, como eles próprios faziam.
O dia em que assinamos o contrato com a Strong foi um marco. Eu e meu pai estávamos radiantes. Naquele momento, não éramos apenas sócios — fazíamos parte da família Strong. Ryan Strong, o CEO, nos convidou para uma festa de comemoração pela aquisição de uma empresa de distribuição em Hong Kong. Meu pai, no último minuto, disse que não estava se sentindo bem. Ainda assim, insistiu que eu fosse. Disse que fortalecer a aliança com a Strong era importante para o nosso futuro.
Sorri de leve ao lembrar daquela noite. Conheci todos os irmãos Strong, suas esposas, e participei de uma noite que deveria ter sido apenas sobre negócios — mas que, para mim, se tornou algo bem diferente. Eu tinha aproveitado cada minuto da festa, mas foi nos momentos finais, já no hotel, que vivi algo inesquecível. Uma mulher. Uma morena de olhos escuros, sorriso misterioso e presença magnética. Seu nome era Hyle.
Passei algumas horas com ela naquela noite, e foram, sem dúvida, as últimas horas verdadeiramente felizes de que me lembro. Ao nos despedirmos, ela disse que era do Centro-Oeste e que estava em viagem a negócios. Nunca soube se isso era verdade ou uma desculpa para não me dar o número. Se ela fosse daqui, eu certamente teria ligado de novo.
Mas não tive a chance.
Uma semana depois, meu pai morreu. Uma perda devastadora. Eu caí de joelhos. Me afundei. A dor me paralisou. A única coisa que me puxou de volta à superfície foi o apoio constante da senhora Hathaway, sua fiel assistente administrativa, e de Patrícia, nossa então nova vice-presidente. Foram elas que me lembraram dos sonhos do meu pai, de tudo que ele construiu, e do que ele esperava de mim. Que eu fosse o responsável por manter o legado vivo.
E, durante o último ano, foi exatamente isso que eu fiz.
Com um único propósito — deixá-lo orgulhoso — ergui a Transportadora Sullivan até termos não apenas um, mas quase uma frota inteira de cargueiros. Expandimos por todo o Pacífico. E, recentemente, comecei a planejar rotas para outros continentes. Sim, eu acho que ele ficaria orgulhoso. Pelo menos, orgulhoso do quanto sua empresa cresceu.
Um bater leve na porta me arrancou dos pensamentos.
— Pode entrar — chamei, virando-me para ver quem era.
A porta se abriu e Patrícia entrou, equilibrando uma pilha volumosa de papéis nos braços.
— Aqui está toda a papelada da nossa nova aquisição. E também os planos para equipá-la com as tecnologias e acessórios mais recentes.
Franzi a testa.
— Acessórios?
Ela deu de ombros, com um sorriso leve.
— Eu sou do setor de aquisições, não de tecnologia.
Fui até a geladeira, peguei uma garrafa de água e ofereci outra a ela. Patrícia recusou com um aceno de cabeça.
— Coloque os papéis na minha mesa. Eu vou dar uma olhada.
Abri a garrafa e tomei um gole longo, tentando me concentrar.
— Preciso que você revise isso agora, Drako — ela insistiu, usando o tom firme que aprendeu a dominar com perfeição. — Essas decisões precisam ser finalizadas hoje. E eu tenho uma longa lista de outras pendências. Quero tirar isso da minha cabeça o quanto antes.
Suspirei, derrotado, e me sentei à mesa. Houve um tempo em que esse tipo de tarefa me empolgava. Adquirir um novo navio e transformá-lo em mais um símbolo do crescimento da Transportadora Sullivan era emocionante. Era como adicionar mais uma peça ao legado que construímos.
Mas agora, mesmo com tudo que havíamos alcançado, eu me sentia... cansado. Como se algo essencial tivesse desaparecido comigo no dia em que perdi meu pai. A chama ainda existia, mas estava fraca. Quase não queimava mais.
— Certo — murmurei, endireitando os ombros. — O que temos aqui?
Revisamos os papéis juntos. Assinei os que me deixavam confortável e pedi esclarecimentos sobre os demais. Quando terminamos, Patrícia organizou os documentos e ficou parada diante da minha mesa, com os braços cruzados, me observando com um olhar que misturava preocupação e familiaridade. Parecia uma mãe, embora tivesse minha idade.
Ela não disse nada. Mas eu sabia o que aquele silêncio queria dizer.
Algo dentro de mim precisava despertar de novo.
— O quê? — perguntei.
— Você sabe que adoro trabalhar com você, Drako, mas não consigo continuar fazendo dois trabalhos. Desde que a senhora Hathaway se aposentou, muitas das tarefas dela estão recaindo sobre mim.
Suspirei, já sabendo que ela tinha razão.
— Desculpe. Sei que demorei demais para procurar alguém para substituí-la. Só... não sei como vamos fazer isso. Ela esteve aqui por trinta anos. Foi a primeira contratação do meu pai. Conhecia esta empresa melhor do que qualquer outra pessoa.
Talvez isso já não fosse mais verdade, mas mesmo assim, ela fazia parte da base sobre a qual a Transportadora Sullivan foi construída. A alma da empresa parecia ter partido um pouco com ela.
— Bem, por sorte você me tem, e eu sou proativa. Já anunciei a vaga e entrevistei vários candidatos. Na verdade, tem uma pessoa em especial que me chamou atenção. Tudo o que você precisa fazer é se reunir com ela, sentir o clima. Se você achar que ela combina com a empresa, podemos contratá-la.
— Se você gostou dela e acredita que ela pode se adaptar ao nosso ritmo, então vá em frente e contrate. Confio no seu julgamento, Patrícia. Você conhece essa empresa quase tão bem quanto meu pai conhecia.
Ela sorriu com aquele ar determinado que sempre teve.
— Contratarei por um período de experiência. Se, por algum motivo, você sentir que ela não se encaixa, podemos dispensá-la sem problemas. Mas, sinceramente? Acho que isso não vai ser necessário. Ela tem um currículo sólido, uma atitude excelente, e me parece alguém que encara o trabalho com seriedade. Acho que ela vai se encaixar perfeitamente.
Quando Patrícia saiu da sala, peguei minha garrafa de água e voltei para junto da janela. Estar naquele escritório, sentado à mesa do meu pai, não me fazia sentir mais próximo dele como estar ali, parado, olhando pela janela. Dali, eu via tudo o que ele construiu com esforço, com coragem e visão.
A empresa estava crescendo, se expandindo como ele sempre sonhou, e mesmo assim, algo em mim permanecia ausente. A perda do meu pai — e agora a aposentadoria da senhora Hathaway — deixaram um vazio. Talvez não na empresa em si, mas dentro de mim. Um buraco que o sucesso, por si só, não preenchia.
As pessoas mais importantes da minha vida tinham ido embora, e levaram com elas boa parte da alegria que eu sentia em trabalhar. Eu sabia que estava honrando meu pai. Sabia que ele ficaria orgulhoso de ver tudo o que conquistamos. Mas, quando eu voltava para casa, para o silêncio dos meus próprios pensamentos, não conseguia deixar de me perguntar: para quem eu estava fazendo tudo isso?
O sonho era dele, mas ele o construiu comigo em mente. E agora que ele se foi... quem continuaria esse legado depois de mim? Com quem eu dividiria tudo isso? A quem eu deixaria esse império?
Patrícia sempre dizia que minha nostalgia e melancolia tinham uma explicação simples: falta de férias, ou falta de sexo, ou ambos. E, bem... talvez ela tivesse razão sobre as férias. Desde que meu pai morreu, não tirei um único dia para mim. E quanto ao sexo, sim, eu saí com algumas mulheres. Mas sexo não preenchia esse tipo de vazio.
A verdade era que eu não sabia a resposta. Então, fazia o que me restava: continuava trabalhando. Me dedicava a transformar a Transportadora Sullivan em algo que fizesse jus ao nome do meu pai. Talvez esse fosse meu destino. Talvez eu estivesse mesmo destinado a me casar com o trabalho. E talvez... talvez eu só estivesse esperando algo — ou alguém — que mudasse isso.