02

2391 Words
Dulce  Ao longo dos dias, recebi inúmeras ligações de Alex, logicamente ignorando a todas. Ele teve até mesmo a cara de p*u de implorar aos meus amigos que conversassem comigo sobre eu pensar em falar com ele. O quão sínico Alex poderia ser? E por que diabos eu passei tanto tempo me iludindo?  Por mais que eu tivesse criado uma onda de ódio por ele, ainda sentia o meu peito doer toda vez que eu pensava em Alex. Ele foi de fato o homem que mais amei em toda a minha vida e eu cheguei até a pensar que nos casaríamos e ficaríamos juntos até o fim dos nossos dias. Triste conto de fadas, o príncipe encantado na verdade era um sapo.  Todos os domingos, Christian e Anahi dormiam em meu apartamento e sempre traziam, pizza, sorvete, hambúrguer e todo tipo de besteira para comermos. Era uma forma de me apoiarem num momento tão delicado como o de agora e a presença deles estava sendo extremamente importante para a minha recuperação.  Depois de mais uma noite de filmes, adormecemos em colchões postos no chão da sala.  — Mas que p***a! — acordei com o berro dado por Christian. Ele caminhava de um lado para o outro olhando a tela de seu celular.  — Algum problema? — sentei me espreguiçando.  — Desculpe por ter te acordado, Dulce. A Lola ficou doente e não pode ir até a loja hoje, fiquei de ir no lugar dela, mas acabaram de me mandar uma mensagem dizendo que uma das minhas cargas de produtos foi extraviada e eu preciso ir até a transportadora resolver. — colocou as mãos na cabeça. — Parece que vou ter que fechar as portas hoje. — Christian era dono de uma loja de produtos naturais no centro.  — Eu posso ir até a loja se quiser. — me ofereci.  — Não vai trabalhar hoje?  — Na verdade, não. Só tenho que editar algumas fotos, mas não é grande coisa, posso fazer isso enquanto cuido da loja.  — Já disse que eu te amo? — dei risada. — Aqui estão as chaves. — jogou o chaveiro para mim. — Abrimos das oito até as onze e meia e depois, das uma até as quatro. Mas pode fechar antes se quiser, sem compromisso.  — Pode deixar, Christian e boa sorte com a carga.  — Obrigado! — ele beijou o topo da minha cabeça e saiu quase correndo pela porta da frente.  Levantei, preparei um café da manhã para mim e Annie e depois de deixar tudo pronto, tomei um banho e me vesti. Quando cheguei até a cozinha, ela já estava comendo uma das panquecas no balcão.  — Bom dia, Barbie! — eu disse.  — Bom dia! Onde vai assim? Tem que ficar em casa pra editar aquelas fotos.  — Vou fazer isso na loja do Chris. Nem ele e nem a Lola podem ir hoje, então eu prometi ir pra que ele não tenha nenhum prejuízo.  — Ótimo, eu vou com você! — animou-se.  — Tudo bem. — sorri.  Terminamos o café e depois de aguardar que Anahi estivesse pronta, nós saímos direto para o centro. Abrimos a loja e colocamos os aventais que estavam sobre um cabide na entrada.  — Eu adoro essas coisinhas! — Anahi disse enquanto corria seus dedos pelos cristais das prateleiras.  — Realmente funcionam? — perguntei.  — Claro, algo de incrível sempre acontece quando uso meu colar de quartzo. — segurou o pingente brilhante em seu pescoço.  Fui para trás do balcão e peguei meu notebook da mochila, o abrindo direto no meu álbum de fotos. Anahi cantarolava pela loja, varrendo o chão enquanto dançava alegremente. No decorrer do dia, algumas pessoas apareceram, sendo atendidas de modo intercalado por mim e por Annie.  — O Christian deveria nos contratar, somos ótimas! — ela disse sentando no banco ao meu lado. — Adorei essa iluminação. — apontou para a tela do notebook.  — Bom dia! — alguém entrou na loja e eu não pude acreditar quando o vi.  — p**a merda. — Anahi resmungou com cara de tédio. — Deixa que eu mando ele cascar fora daqui. — ela ia levantar, mas eu segurei o seu braço.  — Não, eu vou! Preciso dar um fim nisso de uma vez! — levantei e fui até ele com toda a fúria que eu guardava. Parei em sua frente e cruzei os braços o encarando.  — Então, eu preciso de algumas velas aromatizantes para uma missa particular de sete dias. Qual destas me recomenda? — ele estava brincando com a minha cara? E que droga de colarinho clerical era aquele?  — O que está fazendo? — franzi a testa.  — Perdão? — olhou-me confuso. — Já não basta ficar me ligando todos os dias e incomodando os meus amigos? Ainda vem até aqui com a maior cara de p*u nessa fantasia de padre? — dei um peteleco em seu colarinho. — Vergonha na cara é de graça, meu filho!  — Eu... — o interrompi.  — Quem te disse que eu estaria aqui hoje? Tá me seguindo? — o olhei com desconfiança.  — Deve haver algum engano. — ele deu um passo para trás, no seu rosto, uma expressão de quem está diante de uma pessoa louca.  — O único enganado aqui é você que acha que pode me meter um par de chifres e ser perdoado depois! Alex, eu fui burra por muito tempo ao seu lado, mas tudo tem limite!  — Ah! — ele começou a rir.  — Ainda ri da minha cara? — fiquei indignada. — Eu deveria chutar a sua b***a!  — Isso seria doloroso e inapropriado. — ele parecia se divertir com a situação. — Senhorita, queira deixar que eu me explique. Muito prazer, Christopher Uckermann. — estendeu sua mão para me cumprimentar, mas eu não iria cair nessa tão fácil. — Ok... — afastou sua mão. — Alexander é meu irmão, nós somos gêmeos. Eu entendo que ele possa ter agido de má fé com a senhorita e possa ter feito coisas das quais um homem não deveria se orgulhar. Não sei se ele pediu desculpas, mas em nome dele eu peço perdão.  — Que p***a de joguinho é esse?  — Dulce... — Anahi me chamou e eu me virei para observá-la. — Acabei de procurar por "Christopher Uckermann" no i********: e... — ela virou o notebook para mim, mostrando um perfil com várias fotos de missas, viagens religiosas e afins. — O perfil existe a cinco anos e tem uma foto em família onde vemos o Alex com o irmão gêmeo. — ela abriu a foto e me mostrou.  — Além disso... — o padre chamou minha atenção. — Meu irmão possui tatuagens em seus dedos, algo com uma simbologia arcaica. — estendeu suas mãos para que eu observasse que não havia nada. — Não sou o Alex.  — Meu Deus... — fiquei boquiaberta, me sentindo totalmente envergonhada por ter agido com tanto desrespeito com um padre. — Eu sinto muito, eu realmente sinto muito! — juntei minhas mãos em súplica. — Eu acabei de dar um peteleco no colarinho clerical de um padre! — coloquei a mão sobre a testa.  — Está tudo bem. — ele riu. — Não é a primeira vez que alguém me desfere palavras tão grosseiras por me confundir com o Alex. Ele nunca tem boas intenções com as mulheres. — deu de ombros.  — Por que ele nunca me falou que tinha um irmão gêmeo? Nós namoramos por três anos!  — Três anos? — arqueou as sobrancelhas. — Desculpe ser o responsável por lhe contar, mas não foi a única que ele namorou nos últimos três anos.  — O que? — fiquei séria.  — Deve ter sido por isso que ele nunca falou de mim. Bom, primeiro que ele me detesta, segundo, eu nunca concordo com as tramoias dele e sempre que puder livrar mulheres inocentes dos falsos encantos do Alex, eu o farei.  — Mas acho que eu acabaria descobrindo em algum momento. Ele também não me disse que tinha a Maitê como irmã e nós acabamos nos encontrando por acaso.  — Creio que não nos conhecemos antes porque eu acabei de me mudar de volta para a cidade. Vou servir na paróquia de Santa Cecília.  — É a que o meu pai frequenta.  — Mesmo? Que coisa incrível! Por que não vai no domingo? Tenho certeza que irá gostar do sermão e talvez você esteja precisando se livrar das más energias que o caráter duvidoso do meu irmão deixou em você. — Confesso que eu não sou uma pessoa muito religiosa, mas isso pode ser interessante. — cocei a nuca. — Enfim, velas.  O ajudei a escolher as velas e depois fomos ao caixa para o pagamento. Coloquei as velas dentro de uma sacola e entreguei para ele.  — Dulce, não é? — ele perguntou.  — Isso. — confirmei.  — Foi um prazer conhecê-la, espero vê-la na missa de domingo. E a senhorita também está convidada. — ele estendeu a mão para Annie que o cumprimentou.  — Claro! — Anahi sorriu.  — Tenham um bom dia de trabalho, senhoritas! — despediu-se.  — Obrigada, um bom dia pra você também, padre! — respondi com um aceno. Depois que ele saiu, eu e Annie ficamos em silêncio por longos segundos, até que a loira soltou uma gargalhada.  — Você ameaçou chutar a b***a de um padre! — exclamou ainda entre risos.  — Em minha defesa, foi um engano e ele entendeu isso! — revirei os olhos.  — O Christian vai morrer de rir quando eu contar!  — Mas você também achou que ele fosse o Alex. — sorri de lado.  — Sim, mas eu não olhei pra ele como se fosse soca-lo a qualquer momento. — deu dois tapinhas em meu ombro. — Ganhou seu passe de primeira classe para o inferno.  — Ai, credo! — balancei a cabeça negativamente. — O que achou do padre?  — Gentil, como todos os padres são. — deu de ombros. — E você?  — É estranho ver alguém com o rosto igual ao do Alex, mas que não é o Alex.  — E que certamente tem muito mais decência do que ele. — Annie completou e eu assenti. — Vai à missa?  — Talvez, eu não sei. Faz anos que não entro em uma igreja.  — É melhor voltar a frequentar agora que você cometeu o pecado de ameaçar um padre. — tornou a rir.  — Você não vai me deixar em paz com isso, não é? — ri junto.  — Não mesmo!  No horário de almoço, eu e Annie resolvemos comer num restaurante do shopping. Escolhemos uma mesa perto da janela e fizemos nossos pedidos. Enquanto aguardávamos, eu avistei uma morena familiar toda atrapalhada com as inúmeras sacolas que carregava.  — Será que eu verei todos os Uckermann's hoje? — resmunguei mais para mim.  — O que? — Annie virou para trás. — May! — a chamou.  — Não, não chama ela! — sussurrei, mas já era tarde.  — Amigas! — ela sentou numa cadeira ao meu lado. — Que bom que estão aqui, assim não tenho que almoçar sozinha. — sorriu. — Ai, querida, tá precisando refazer essas mechas, hein? — falou tocando o meu cabelo.  — Claro. — forcei um sorriso.  — Estourando muito os cartões do seu pai, Maitê? — Anahi perguntou.  — Ai que engraçadinha! — Maitê riu. — Na verdade, o papai resolveu me empregar para que eu mesma pague por minhas coisas. Serei a assistente pessoal dele. — Coitadinha, vai ter que trabalhar! — fiz bico, debochando dela.  — Os dias de luta chegam para todos! — falou com orgulho. — Quais são as novas?  — Conhecemos o seu outro irmão, o padre Christopher. — Anahi disse.  — Ah, ele é um amor de pessoa, não acham?  — Quando você ia me contar que tinha outro irmão? Namorei o Alex por anos! — reclamei.  — O Christopher não morava aqui, não achei que a informação fosse relevante.  — Eu era namorada do seu irmão! — exclamei.  — Ai, calma. — ela riu. — Você não era a única namorada dele de qualquer forma.  — Isso é sério? — Anahi a olhou desacreditada. — Como você ainda se diz amiga da Dulce?  — Não me levem a m*l, Dulce você é maravilhosa e eu te amo, foi minha cunhada preferida. — segurou minha mão. — Mas o Alex é meu irmão.  — Não interessa se ele é seu irmão, ele é um i****a! — eu disse.  — Querida, não o protegi por fraternidade. Por ser meu irmão, Alex sabe coisas de mim das quais papai não iria gostar muito de saber. Não falo sobre o que ele faz e ele não fala sobre o que eu faço. — deu de ombros.  — Pessoas ricas e suas picuinhas familiares. — Anahi disse. — O padre Christopher é normal, pelo menos?  — Se ser casado com a igreja é ser normal, então sim. — sorriu. — Imagina só escolher ter uma vida de castidade?  — Eu acho admirável. — comentei. — Jamais conseguiria fazer isso, tem que ter muita força de vontade.  — E o Christopher tem. Enfim, mudando de assunto, agora que não está mais com o babaca do Alex, eu posso te contar tudo o que quiser saber. — Maitê me olhou com animação.  — Não quero saber mais nada sobre o seu irmão, pra mim ele está morto.  — Que coisa horrível de se dizer. — negou com a cabeça. — O que vão pedir? — ela pegou a ficha com nossos pedidos. — Por isso estão com essas gordurinhas a mais, e olha essa pele, Annie, tão ressecada! — tocou o rosto de Anahi. — Precisam se reeducar. — ela pegou o cardápio e deu uma rápida lida. — Garçom! — estalou os dedos para cima.  Fuzilei Anahi com o olhar enquanto Maitê pedia um prato com um nome bem complicado, mas que eu apostava que não teria gosto de nada. Anahi deu de ombros e revirou os olhos.  Aquele seria um longo almoço com Maitê deferindo críticas de uma forma suave, como se só estivesse nos ajudando a ser "melhor como ela". Era fácil estar sempre bonita e com a pele macia sendo uma patricinha mimada que nunca precisou trabalhar para se manter.
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