III. O Amor Também Mata Pela Perda

2108 Words
Descansei bastante e organizei a viagem à Palestina. Na mala, coloquei roupas de frio — afinal, se o ciclo solar estabilizasse em meio a viagem, eu não queria sofrer com a tortura de ter meu corpo banhado pelo sol. Cedo, Vitor já me aguardava. Sempre sóbrio, ele vestia um terno, tinha uma grande mala — possivelmente pela necessidade de carregar seus muitos equipamentos médicos. — Pronto para partir? — Ele perguntou. — Sim. As moças recolheram-se? — perguntei, estranhando o silêncio. — Estão lidando com a manutenção das embarcações. Não sofreram avarias enquanto velejando, mas é sempre bom mantê-las em dia… Aproximei-me e o beijei no canto da boca. — Pode comunicar nossa saída? Ele assentiu e saiu. — Sabe que, agora, eu posso, não!? — Sorri, olhando-o, quando ele voltou para perto de mim. Ele corou, mas não teceu nenhum comentário. Eu o abracei e concentrei-me para os pequenos nos levarem à base onde nossos cultistas estavam instalados na Palestina. Foi muito mais fácil viajar, enquanto cobríamos tudo! *** Al-Bireh, Cisjordânia, Palestina, 09/02/2000 Chegamos a uma construção simples, a frente de um altar recém-erguido. Uma jovem sacerdotisa estava prostrada no altar. Ela trajava uma túnica ɴᴇɢʀᴀ e mantinha a cabeça coberta por um capuz. Sorri, quando ouvi suas íntimas preces em nome da proteção de seus irmãos, porém sabendo da comoção que causaria, não a interrompi. Deixamos o cômodo, chegando ao interior de um galpão. Muitas esteiras cobriam grande parte do chão. Alguns homens dormiam e os despertos, faziam guarda. Todos cessaram a ronda para me reverenciar, em silêncio. Retribuí com um sorriso e eles retomaram sua atividade. Passeei com o olhar pelo galpão, em um dos cantos, encontrei o local que seria o suposto “centro de comando” — nada além de uma mesa com um quadro ɴᴇɢʀᴏ às costas. Um homem alto, muito sério, estava sentado à mesa. Ele levantou e cumprimentou-me, formal, mas fui breve: — Onde estão? — Há cerca de um quilômetro daqui, Sade. — Ele me respondeu. — Pode ver. Ele estendeu os braços e abaixou a cabeça. Aproximei-me para tocar seu rosto. Concentrei-me para passear por seus pensamentos e encontrei a grande casa onde Zayn estava com a família. Pensando em não ser exorcizado ao chegar, busquei por Ali, meu irmão adotivo, e falei em seu íntimo: “Ali, sou eu, Noah. Posso chegar?” “Noah!?”, ele perguntou, atabalhoado, “Claro que pode vir. Estou no quarto. Olha!” Aproveitando-me de já estar próximo, observei e ele estava em um quarto luxuoso. Levantei a cabeça do homem e beijei sua testa. — Obrigado. — Sorri. — Parabéns pelo exímio trabalho! Ele ficou lisonjeado com o elogio. Voltei até Vitor e nos envolvi para seguirmos para frente de Ali. *** O quarto era grande. A cama, com um grande colchão de areia, estava no centro e um mosqueteiro cinza a cobria. O armário de armas era parecido com o da América, logo, não foi difícil distingui-lo, apesar do mogno. Uma escrivaninha, também em mogno, no canto do quarto tinha alguns papéis e ele estava sentado à mesa. Ali vestia-se tradicionalmente. Estava mais musculoso, talvez o trabalho na Palestina fosse mais exigente. O cabelo estava cortado e ele usava um cavanhaque — caiu bem. — Mano!? — Ele riu e aproximou-se para me abraçar. Retribuí com um abraço apertado. — Como está? — perguntei, olhando-o. — Bem, na medida do possível. O mundo escureceu. O povo está louco. Nada que não possamos lidar. Seus olhos assumiram um tom âmbar por um instante, enquanto ele me observava. — Sim, bebi vitae — falei, antes de ele perguntar. — Já sabíamos que aconteceria… mas, não controlo, desculpa! — Ele riu. — Bebe algo? — Daqui a pouco. Como está noss- seu irmão? Zayn? Isa? — Hashim está bem. Já anda e começa a balbuciar. — Ele riu. — Infelizmente, com tudo que rolou, o pai precisou voltar a trabalhar… até a mãe tem ajudado. — Perdão. Não pude conter. — Justifiquei, com pesar. — Relaxa. A mãe era a mais preparada e pareceu feliz… disse que apesar dos impactos, as coisas pareciam saudáveis. Não que eu consiga imaginar como piora! Gargalhamos. — Bem-vindo a minha casa, Vitor! — Ele sorriu, olhando-o. — Fico feliz que esteja bem. — Amém, Ali. Não tardou para Zayn entrar apressadamente no quarto, apontando a pistola. Levantei as mãos e o olhei. — Ai, garoto! — Ele reclamou, em negativa, guardando a pistola. — Salaam Aleikum, como está? — Ele suspirou, aproximando-se e me abraçando. — Aleikum Essalam, senhor. Estou bem. — Sorri, cumprimentando-o. — Perdoe-me assustá-lo. — Não me é um problema. Por que não vieram para a sala? — Ele perguntou, olhando para Ali. — Ele acabou de chegar, meu pai! — Ali justificou. — Como está, garoto? — Zayn perguntou, medindo-me de cima a baixo. — Ficamos preocupados. — Apesar de parecer nefasto, imagino. Não me sinto ᴍᴀʟ, não tive problemas. Vitor pode atestar! — Olhei para Vitor. Zayn olhou para ele, cumprimentando com um gesto. — Não tivemos mesmo. — Vitor assentiu. — Os dias de noite logo cessarão, ou, esta é a expectativa. — Salah! — Zayn bem-disse, virando-se para seguir para fora do quarto, num óbvio convite para seguirmos. Acompanhamos e seguimos à sala. — Isa, temos visita! — Ele chamou, sentando-se no sofá. — Sentem-se! Isa deve pedir que nos sirvam algo. — Não esperava encontrar tanto luxo… — Ri, olhando-o. — Sabia que o senhor tinha um império na América, fruto do trabalho no Submundo, mas não esperava o mesmo aqui. — Nem eu, garoto! Nem eu. — Ele riu. Ali acabou gargalhando também. Quando Isa chegou, ela correu para me abraçar. Emocionada, pouco pude falar, tocado por sua emoção. Ela estava ainda mais linda, mais radiante, do que esteve durante a gestação. Perguntou como eu estava, repetidas vezes. Paciente, zeloso, respondi cada uma delas. — Pedirei que sirvam algo. Sentem fome? Sede? — Isa perguntou, com um grande sorriso no rosto. — Não comemos ao sair. — Vitor disse. — É importante ele comer, não tem o feito com a constância que gostaríamos. — Não tem sentido fome? — Isa preocupou-se. — Estou tentando lidar sem impactar nos hábitos… mas, é complexo. A saciedade através de comida não é tão prazerosa, me fazendo preferir o sangue ou sexo. — Sua médica enlouquecerá. — Isa riu, deixando a sala. — Como ela está? — perguntei, olhando para Zayn. Ele levantou uma sobrancelha, suspirou, mas respondeu: — Trabalhando algumas vezes mais, deve chegar de noite. Os turnos têm se prolongado por dois dias… — Se incomodam se eu ficar para aguardá-la? — perguntei, um pouco sem jeito. — Você é parte da família, garoto. Claro que pode ficar! — Zayn disse, dando de ombros, em negativa. — Tem um quarto para você, ao lado do quarto de Ali. Corei, constrangido com a falta de tato. Zayn ainda ficou me olhando, sério, para me deixar ainda mais constrangido. O retorno de Isa, com Hashim no colo, foi o que quebrou o momento envergonhado. Hashim era lindo. Já tinha pouco mais de cinco anos. Tinha os olhos de Isa, apesar de uma tonalidade como mel, bem clara. O cabelo era escuro como o de Zayn. A pele amarela, um pouco escura, a mistura perfeita de ambos. — Ele é lindo, Isa. — Sorri, sentindo os olhos marejarem. Ela aproximou-se de mim e ele me fitou, vidrado. Os pelos da mão arrepiaram quando acariciei seu rosto, mera resposta a intensa luz que já o habitava. Entristeci-me, pensando no quanto era trágico um destino tão ᴄʀᴜᴇʟ a uma forma de vida tão pequena. — Será lastimável, meu irmão… lastimável! — lamentei. Isa respirou fundo, com lágrimas nos olhos. — Que tal não pensarmos nisso? — Ela sugeriu. — Os servos trarão uma refeição. Terminem de comer e vão ao quarto, tomem um banho… imagino que a viagem tenha sido pouco ortodoxa, mas ainda é bom manter os costumes. — Sim, senhora! — Eu e Vitor assentimos. — Há um aposento para Vitor, ou ele pode estar instalado no meu quarto? — perguntei, olhando para ambos. — Se me permitem, quero acompanhá-lo… — Vitor sugeriu. — É necessária rigidez no monitoramento… — Imagino que a sede seja uma dificuldade… — Zayn disse, levando a mão ao queixo e me analisando. — Mostrou-se mais uma ajuda do que um obstáculo. — Vitor disse. — Apesar de estar mais intenso, os impactos não foram tão drásticos quanto o esperado por nós. — Era de se esperar. — Isa disse, solene. — Vampiros são uma existência amaldiçoada por Ahura, similares a tudo que há de “infernal” nos folclores. Aproximar-se deles, inevitavelmente, aproximará Noah de si… de suas origens. — Tememos, principalmente devido a nossas complexas experiências com a fome. — Vitor franziu o cenho. — Estamos apreensivos. — Imagino o quanto seja difícil para um servo ver seu senhor numa situação tão vulnerável. Não julgo. — Isa riu. Os empregados serviram-nos uma refeição leve. Terminada a refeição, Isa nos guiou ao quarto, nos dizendo: — Tem roupas no armário. Ali trouxe suas armas. As janelas estão fechadas e mantivemos o cômodo o mais escuro possível, pensando no seu conforto. Espero que goste! — Obrigado, Isa. Vocês são fantásticos! — Sorri. Ela assentiu, abriu a porta do quarto e escusou-se. O quarto realmente estava escuro. Tinha uma pesada cortina nas janelas. Não diferia do quarto de Ali, apesar de as únicas cores serem: o preto, nos tecidos e móveis, e o prateado, em acessórios e armações metálicas. — Sofisticado. — Vitor riu. Sorri de canto de boca. Descansei a mala no chão, ao lado do armário. Um espelho de corpo inteiro estava entre o armário de armas e de roupas. Parei a frente do espelho para tirar o terno enquanto observava o reflexo de Vitor. Ele estava tirando sua prancheta, com papéis e canetas, e pondo à escrivaninha. Tirei o terno e a blusa social, passei pela porta e a tranquei. Vitor estava distraído, tomando algumas notas. Aproximei-me, observando o que escrevia. Pareciam notas sobre a viagem e todo o meu estado. — Me sinto bem. Não tenho fome. A emoção me deixou ansioso, mas estou acalmando. — Sorri, tentando ajudá-lo. Ele assustou-se, suspirou e voltou a escrever. — Isto é você tentando fugir de mim? — perguntei, rindo e ajoelhando-me a sua frente. O som da caneta riscando o papel cessou. — Creio ser inadequado, Sade. — Quando vai ser adequado, Vitor? Acariciei seu rosto. Sorri, vendo sua pele arrepiar. — Medo? — perguntei. Ele não me respondeu. Suspirou e voltou a escrever. — Tudo bem. — Levantei. — Tomarei meu banho. Hm! Outra boa observação: eu não senti o ímpeto da adicção desde a última vez que comi. — Isto é positivo. Não creio podermos dar a adicção em endorfina como resolvida, afinal o vício do sangue a atenuará… mas, se não a busca tão avidamente, podemos chamar avanço! — Ele finalmente respondeu, solene. — Talvez eu busque endorfina, agora, no banho, só para suprir a sede que tenho de você. — Ri, talvez galanteador. Ele virou o rosto, constrangido. Diferente na casa da América, o quarto era uma suíte, logo segui ao meu banho. Vaidoso, ainda cuidei de mim. A necessidade de buscar ᴍᴀꜱᴛᴜʀʙᴀçãᴏ realmente não era tanta. Apesar de que eu o faria, meramente por luxúria, não porque me sentia morrendo de fome ou coisa do tipo… e a ᴍᴀꜱᴛᴜʀʙᴀçãᴏ nunca me ajudou a comer, apenas estimulava a falta de controle, o excesso. Quando deixei o banho, Vitor ainda escrevia. Abri o mosquiteiro da cama para me sentar. Não tardou para ele se levantar e seguir ao banheiro. Tão próximo de Hashim, pude me concentrar para observar sua condição. Apesar do leve incômodo do toque, pude entender que ainda estava longe de realmente ter uma manifestação consciente do meu irmão. Fiquei triste, porém feliz. — Quem causou este sorriso? — Vitor despertou-me, saindo do banho. Olhei para o espelho e realmente tinha um sorriso estampado em meu rosto. Os olhos, gradualmente, retornavam a sua coloração natural. — Ele está saudável. Ainda dorme profundamente… — respondi, medindo-o de cima a baixo. — Está ótimo. — Sem galanteios, Sade. — Ele aproximou-se e me estendeu a mão. — Podemos descer? Creio que tenha muito para conversar com todos… — Sem dúvida. Tenho saudade. — Anotarei este como um de seus sorrisos mais belos. Digno de residir em minhas memórias pela eternidade. Como ele tinha o hábito de fazer quando estava constrangido, virei o rosto e segui, ignorando-o.
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