Shawn: Nate. – Chamou, acariciando o cabelo do filho – Você ainda não precisa acordar, mas está pensando nisso. – Brincou, e Nate fez uma careta.
Nate: Mamãe voltou? – Perguntou, sonolento.
Shawn: Não, filho. – Respondeu, acariciando o menino – Mas você precisa ir pra escola.
Nate: Não tô pensando nisso. – Dispensou.
Shawn não caíra tanto quanto Camila. A vida o havia ensinado a lidar com a dor. Ele se levantava todos os dias, seguindo sua rotina normal, cuidando pra que os filhos seguissem a deles também. A única evidencia de seu sofrimento era que a cor sumira de seu rosto. Estava pálido, e com olheiras que pareciam ser permanentes. Falava muito pouco: Dava ordens com olhares, erguidas de sobrancelhas e gestos com a mão.
Camila deixou a casa de Edward naquele dia. Estava um caco, mas dirigiu de volta ao apartamento de Louis. Chegando lá, descobriu todos os moveis. O duplex de Louis tinha paredes brancas, os sofás e poltronas da sala eram azul marinho, e o resto dos moveis eram baseados em vidro e metal. Ela olhou a cozinha superficialmente (branca, com um balcão de mármore claro, tudo muito asséptico), e apanhou as malas, subindo. A escada era de mármore claro, começando na sala, dando pra uma pequena varanda no primeiro andar. O corrimão era de metal. Lá em cima ficavam os quartos.
Os padrões eram os mesmos: Vidro e metal. Era bem a cara de Louis. Ela se alojou no quarto principal, desarrumando as malas. O closet de Louis não era um cômodo separado, mas sim uma parede do quarto com portas de vidro embaçado de correr. Ela pendurou as roupas nos cabides que haviam lá, arrumando tudo. No fundo da primeira mala encontrou a montagem que fizera anos atrás, com as fotos da revista. Ela estava sorridente com Shawn e Nate por toda a parte. Pendurou a montagem na cabeceira da cama, olhando-a, saudosa e pensando que precisava colocar fotos de Blair ali. Terminou de guardar as malas (e os infinitos lençóis brancos), colocou o celular pra carregar e foi pro banheiro. No caminho pra casa comprara o que precisava pra higiene pessoal. Tomou um longo banho e se aprontou. Queria ver os filhos logo, mas sabia que a essa hora já estavam no colégio. Saiu de casa pensando que precisaria abastecê-la ainda hoje e aprender a cozinhar algo que prestasse. Era fim de semana, e ela esperava levar os filhos pra ficar com ela.
Funcionário: Bom dia, senhora Mendes. – Se apressou, abrindo a porta do ateliê.
Ela assentiu com a cabeça, tirando os óculos escuros. Não tinha vontade de falar também.
Camila: Café e o relatório dos últimos dois dias. Na minha mesa. – Ordenou, passando em direção ao elevador.
Logo estava lá. Ela dedicou o dia a trabalhar. A semana de moda logo viria, e ela queria seu nome naquele catalogo. Nem almoçou; o dia passou voando. Quando se deu conta, já era o fim da tarde. Encerrou o expediente e saiu as pressas. Ficou parada na porta da escola, até que as crianças começaram a sair. Ela usava uma blusa de manga cumprida, preta, jeans escuros e salto alto, os cabelos soltos nas costas. As pessoas estavam olhando, ela sabia, mas tivera a precaução de se certificar de que ninguém teria pena da mulher no espelho antes de sair. Por dentro ela era migalhas, mas por fora estava impecável. Como sempre.
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Viu Nate assim que ele saiu. Cabisbaixo, arrastando a mochila dele. Partiu o coração dela. Ela tentou chamá-lo, acenar, mas o menino olhava pra baixo. Então ela lembrou do assovio "secreto" deles. Nunca havia prestado atenção em como fazer aquilo direito, mas levou dois dedos a boca e tentou. O som não pareceu certo, mas o menino olhou, o rostinho se iluminando ao vê-la ali. Ele largou a mochila, correndo na direção dela que o esperava de braços abertos. Pulou no pescoço da mãe, agarrando-a como se nunca mais fosse largar.
Camila: Oi, meu amor. – Disse, saudosa, abraçando-o forte.
Nate: Você voltou. – Murmurou, abafado no ombro dela.
Camila: Eu prometi que voltaria. Desculpe a demora. – Ele assentiu, abraçando-a – Senti sua falta.
Nate: Eu também, mamãe. – Disse, se afastando pra olhar o rosto dela.
Camila: Precisei de um tempo pra arrumar as coisas na casa nova. – Justificou, e ele assentiu – E sua irmã, não veio?
Nate: Sim, mas a turma dela só sai com o responsável. Ela é pequenininha. – Camila assentiu, entendendo.
Como se fosse combinado, um carro preto parou no portão e Shawn saiu. Nate ia acenar mas Camila o segurou. Ele estava disperso. Passou a mão no cabelo no caminho, antes de sumir dentro do colégio.
Camila: Ele está vindo buscar vocês? – Nate assentiu.
Nate: Esses dois dias, sim. Vem trazer também. – Explicou, ainda abraçado a ela – Eu posso ficar com você um pouco? – Perguntou, atropelando-a.
Camila: Vamos ver. – Ela não queria prometer nada. – Você tem se comportado direito? – Nate hesitou.
Nate: Eu estava triste. Desculpe. – Disse, após algum tempo, e ela o abraçou de novo, demoradamente.
Camila: Tudo bem. Foi culpa minha. – O menino sorriu de canto – Como seu pai está?
Shawn: Porque você não pergunta isso a ele? – Perguntou, e ela se virou, vendo-o de pé ao seu lado com Blair no colo.
Blair: MAMÃE! – Disse, com um sorriso lindo, e Camila se levantou, sorrindo e apanhando a menina. Ela quase podia sentir os olhos dos outros pais colados neles, mas não ligava.
Camila: Oi, minha princesa. – Disse, dando um beijo estralado na menina – Onde estão suas asas? – Perguntou, achando graça.
Blair: Eu esqueci. – Admitiu, com um bico.
Nate: Ela estava triste também. – Defendeu, e Camila assentiu, beijando a menina de novo.
Camila: Posso falar com você um instante? – Shawn assentiu, os olhos verdes estudando-a – Nate, fique aqui com sua irmã um pouco.
Nate apanhou sua mochila abandonada no meio do caminho e se sentou com Blair, obediente, em um dos bancos do pátio. A menina queria ir atrás dos pais, mas ele a segurou pela mão, a imagem do irmão mais velho. Camila caminhou com Shawn, se afastando dos filhos. Ele tinha, como de costume, a mão na base das costas dela. Quando achou estar fora do alcance dos ouvidos dos filhos, ela parou. Estavam quase no canto do pátio, perto de uma arvore. Se virou e o olhou. Estava elegante em sua armadura de CEO-dono-do-mundo, mas ela podia ver o homem por trás daquilo.
Camila: Como você está? – Perguntou, se abraçando.
Shawn: O que você acha? – Perguntou, erguendo a mão e brincando com o cordão da blusa dela. A blusa era em algodão e o decote, curto e em V, tinha um cordãozinho em X ligando os lados. – Como você está? – Retribuiu.
Camila: Não é minha melhor época. – Ele sorriu de canto – Eu sinto sua falta. – Ele riu de leve, erguendo os olhos pra ela. Ela ergueu a mão, tocando as olheiras dele com a ponta dos dedos. Ele apenas a encarou, os olhos verdes parecendo líquidos de tão intensos.
Shawn: Pode-se dizer que eu também. – Ela sorriu – Você chegou a alguma conclusão? – Perguntou, e ela negou.
Camila: Não. – Ele assentiu – Escute, quero te pedir algo.
Shawn: As crianças. – Disse, neutro. Ela o observou um instante, então assentiu.
Camila: Sim. Eu quero que eles passem o fim de semana comigo. – Pediu, sabendo que pela briga aquilo não daria em lugar algum – Eu me ausentei esses dias, eles não estão acostumados, e eu pensei que... – Interrompida.
Ele se inclinou, dando um passo na direção dela e a beijou. Camila arfou, surpresa, mas o correspondeu, pousando a mão no rosto dele, que a abraçou pela cintura, apertando-a contra si. Foi algo instantâneo, inesperado, impulsivo... Irresistível.
Parecia que haviam vidas desde a ultima vez que se beijaram. Fazia falta o gosto, o toque, a respiração um do outro por perto... Ele apertou o braço em volta da cintura dela, pressionando-a contra o seu peito, aprofundando o beijo e ela suspirou, satisfeita, acariciando o rosto dele.
Madison vinha conversando com Sophia. Fora buscar Chuck na escola, e Sophia fora com ela pra resolver uma questão sobre Juliet. A ocasião não podia ser melhor. Ainda no pátio a morena recuou, agarrando a outra. Sophia protestou, confusa, e Madison apontou com o rosto. As duas pararam e olharam a cena: Nate e Blair sentados, de mãos dadas, esperando, de costas pra Camila e Shawn, que se beijavam apaixonadamente em um canto.
Madison: Você. – Disse, se virando pra Sophia, que olhava a cena como se tivesse levado uma bolacha – Você olhou no meu olho ontem e disse "Não devemos interferir. Nós nos metemos por anos, e olhe só no que deu, mimimi" – Imitou, e Sophia ergueu a sobrancelha pra ela – Olhe só pra isso!
Sophia: Inesperado, devido aos fatos recentes. – Disse, irônica. – Você vai interferir. – Disse, olhando a outra, e Madison riu, retomando o caminho dela.
Madison: É claro que eu vou interferir. - Respondeu, obvia - Nos momentos certos. – Disse, parecendo ter o humor renovado – E você vai me ajudar.