Episódio 3

1937 Words
​​Meu sogro agarrou meu braço com força, tentando me arrastar para fora do restaurante, mas cada célula do meu corpo resistia. Meus pés pareciam colados ao chão, e apenas uma pergunta ecoava na minha mente: esta é mesmo a minha vida, ou apenas um sonho estúpi*do? — Eva, vamos embora. Disse Peter gentilmente, com a voz carregada de arrependimento. — Não. Respondi firmemente, me soltando bruscamente de seu aperto. — Denis! Virei-me para o palco, onde Liza ainda estava, enxugando as lágrimas. Denis estava ao lado dela, sussurrando algo. Eu conhecia bem aquela expressão em seu rosto: pétrea e fria. Ele nunca demonstrava emoção em público e agora, embora fervendo de raiva, estava se contendo. A loira, ao que parecia, não tinha medo dele, e todas aquelas lágrimas não passavam de uma encenação. Quando nossos olhares se encontraram, ela sorriu triunfante. — Você realmente acha que pode se safar dessa me mandando para casa? Perguntei a Denis, olhando-o diretamente nos olhos: você acha que pode me dar ordens e que eu vou obedecer? O rosto de Denis escureceu como o céu antes de uma tempestade, e lampejos de fúria começaram a brilhar em seus olhos cinzentos. Antes que eu percebesse, Denis estava ao meu lado, agarrou meu braço e me arrastou silenciosamente para fora do salão. — Não me envergonhe. Ele sussurrou entre dentes cerrados. — Você acabou de se envergonhar. Junto com a sua amante. Sim, a amante dele. Não foi uma brincadeira nem um engano, por mais que eu desejasse que fosse. Me libertei de seu aperto predatório. De repente, me lembrei de como não consegui encontrar Denis antes do bolo ser servido, e então esbarrei em Lisa no banheiro. Enquanto todos comemoravam seu aniversário, meu marido tinha a sua própria comemoração particular. Um presente quente e muito animado estava sendo desembrulhado no banheiro masculino. Talvez eu seja to*la por não ter descoberto sua traição antes, mas não tão estúp*ida a ponto de não conseguir juntar as peças. — Eva, não cause problemas. Os músculos de sua mandíbula se tensionaram. Dentro de mim, um único desejo queimava: arranhar o seu rosto bonito. Mas quando me lancei sobre Denis, ele me imobilizou facilmente, me prendendo contra seu abdômen. — O quê? Queria provar carne jovem? Você sentiu uma coceira aí embaixo e começou a coçar? Gritei furiosamente. Estava tudo vermelho, eu não percebia as pessoas, não me importava com quem nos ouvisse ou visse. — Ou eu não era suficiente para você? — Cala a boca, Eva. Não aqui. — Onde então? — Vá para casa. Conversamos lá. Disse ele firmemente. — E se eu não quiser ir para casa? E se eu quiser ficar aqui e agora? — Você vai mudar de ideia. Resmungou Denis. — Não seja infantil, Eva. — Infantil? Você é quem está dormindo com alguém que é praticamente uma garota, não eu! Quantos anos ela tem? Dezoito, pelo menos? — Vinte e um. Ela gritou do palco. Hoje, Denis completa trinta e cinco anos. Será que ele ainda não viu que cresceu? — Nossa! Uma mulher adulta agora. Ela pode brincar não com bonecas, mas com homens mais velhos. Ele te trata bem? — Por favor, pare. Disse ele com desgosto. — Esse tipo de vulgaridade não combina com você, Eva. — Você me arrastou para essa confusão, Denis. De repente, senti um enjoo só de estar perto dele, quanto mais tocá-lo. Acontece que ele a tocou com aquelas mãos, a acariciou e agora... Meu Deus! — Me solta! — Só quando você se acalmar. — Me solta ou vou fazer um escândalo tão grande que vão ter que chamar a polícia! — Você? Perguntou Denis, surpreso. Naquele breve "você", percebi uma completa falta de fé nas minhas habilidades, e não consegui ignorar. — Quer ver do que sou capaz? Me solta, Denis. — Tudo bem. Ele relutantemente me soltou e eu pude respirar. Não completamente, eu sentia um peso enorme sobre mim, mas sem a proximidade dele, era mais suportável. Eu estava prestes a abrir a boca para dizer tudo o que pensava sobre ele, mas ele me interrompeu. — Não faça um escândalo, Eva. Somos adultos, vamos resolver isso civilizadamente. Em casa. — Adultos não tran*sam com uma amante no banheiro de um restaurante enquanto comemoram o próprio aniversário, Denis. Ele nem tentou ne*gar. Não me deu uma resposta, mas eu não precisava de uma. Vi em seus olhos. A verdade que vi ali estava me matando lentamente. Depois da humilhação que sofri, eu ansiava por vingança. Não tinha mais medo de causar um escândalo, mas não tive a chance. Liza ainda estava no restaurante. — Denis, querido! Ela gritou, com as mãos no ar, os olhos cheios de tristeza, inocência e necessidade de proteção masculina. — Não posso ficar sem você por muito tempo. Não, não era qualquer ombro que ela precisava. Era o ombro do meu marido. Denis se virou ao ouvi-la. — Diga isso para a sua filhinha. Murmurei. — Porque ela parece não saber o que significa ser civilizada e adulta. A conversa não havia terminado. Eu sabia que esse pesadelo continuaria em casa. Mas na presença de Liza, de repente, não queria mais esclarecer nada. Senti repulsa. E a dor não passava. — Eva! Denis me chamou. Congelei ao ouvir sua voz, parei, mas nem me virei para olhá-lo. — Não dirija. Meu pai vai te levar. — É outra ordem? — Um pedido. Eu tinha o direito de não obedecê-lo: eu poderia assumir o volante, dirigir para longe, escapar desse horror por um momento, mas... Minhas mãos tremiam, minha visão embaçou e meu coração parecia que ia explodir do peito. E mesmo que qualquer palavra que saísse da boca do Denis agora me afetasse como um sinal vermelho para um touro, eu não ia deixar meus filhos órfãos de livre e espontânea vontade. Por que órfãos? Porque um pai nunca pode substituir uma mãe, especialmente não com alguém como Liza ao seu lado... Meu Deus! O que estou pensando? — Você perdeu o direito de me pedir qualquer coisa, Denis. Eu disse, sem me virar para olhá-lo. Senti um nó na garganta que me dificultava respirar. — Tudo bem. Ele concordou de repente. — Então eu farei isso. O homem me alcançou facilmente e, com a mesma facilidade, arrancou a bolsa das minhas mãos. ‌​— Ei! O que você está fazendo? — Salvando sua vida, sua idi*ota. Denis jogou minha bolsa de volta depois de pegar as chaves do carro. Eu não tinha bebido uma gota de álcool hoje. Tínhamos combinado que era minha vez de ser a motorista da vez. — Pai, tira ela daqui. — Você sabe o quanto eu te odeio, Denis? — E esta manhã você estava dizendo algo completamente diferente. Ele riu, as suas palavras me atingindo em cheio. Tínhamos feito amor naquela manhã. Eu me sentia uma mulher feliz, fazendo planos para o fim de semana, preparando uma surpresa especial para esta noite... e agora... O mundo virou de cabeça para baixo, e eu ainda não sei o que fazer a respeito. — Você vai me agradecer depois. Concluiu Denis, e, pegando Liza pelo braço, a levou embora. — Vamos, precisamos conversar. A loira não ofereceu muita resistência. Ela apenas me olhou com um sorriso satisfeito, como se tivesse ganhado uma competição. Jovem, linda, ousada. Uma predadora disposta a colocar a mão não só no bolso de outro homem, mas também nas calças dele. Quem diria que Liza conseguiria conciliar o trabalho de enfermeira com o de amante do cirurgião? Com ​​certeza, eu não. Será que eu tinha sido tão cega para o meu próprio marido? E será que ele gostava de mulheres assim? E ele me disse que o que o atraía era a minha inteligência, que corria nas minhas veias. Será que ele estava mentindo para mim? Sobre o que mais Denis tinha mentido para mim? Será que Liza era a única, ou havia outras? Quantas vezes ele me traiu? Quando tudo isso começou? Como pude ser tão ingênua? Meus pensamentos corriam sem parar, um após o outro, sem me dar sossego. Naquele momento, eu sabia que se não saísse dali rápido, ia enlouquecer. Ou matar alguém. E eu sabia exatamente quem. Só a lembrança de ter que me manter firme pelos meus filhos me deu forças para não fazer nada por impulso. Saí do restaurante em silêncio, meus passos ecoando abafados pelas paredes. Petro caminhava ao meu lado, o que parecia me arrastar ainda mais para baixo. Eu tremia de tensão, mas me forcei a continuar, sem olhar para trás. Aquela noite tinha que ser inesquecível. E foi. Um infe*rno inesquecível. Chegamos ao carro e Petro abriu a porta. Entrei, me abraçando para tentar me aquecer, embora o frio que eu sentia viesse mais da minha alma despedaçada do que da janela aberta. Meu sogro sentou-se ao volante e ligou o carro. Dirigimos em silêncio por alguns minutos. Olhei para minhas mãos, tremendo de emoção, e então olhei para o homem. Denis se parecia com o pai: tão alto, atraente com sua masculinidade, ombros largos, queixo firme e olhos cinza-azulados que encantavam à primeira vista. Os anos não haviam diminuído a beleza de Petro. Na verdade, haviam lhe conferido uma autoridade madura, como um bom licor. Seus cabelos já estavam grisalhos, mas ele não parecia um velho frágil. Eu até notava com frequência como as jovens ainda lançavam olhares para o meu sogro. Seria ser um prêmio cobiçado até a morte uma característica da família Boyko? Agora, enquanto observava seu perfil e suas mãos fortes, achei difícil iniciar uma conversa. Ainda sentia que deveria falar com Denis. Com a versão mais velha dele. — Onde está Marina? — Mandei-a para casa de táxi. Você sabe que o coração dela é frágil. Não deveriam testá-lo. — E o meu? Ninguém se importou com o meu coração? Se um coração pode se partir no peito com a traição, é isso que vai acontecer comigo. — Você sabia disso? Perguntei ao meu sogro, m*al conseguindo conter as lágrimas. Petro suspirou profundamente. — Eu suspeitava. Ele disse finalmente. — Mas não queria acreditar. — E você decidiu ignorar? Respondi bruscamente. — Você justificou as ações dele? — Eva, Denis é nosso filho. Sempre tentamos e continuaremos tentando apoiá-lo. Disse ele sem me olhar. E eu? Tive vontade de gritar. Quem vai me apoiar? Há quase dez anos, os meus pais viajaram para a Caxemira. Eles faziam parte de uma organização internacional de caridade. O meu pai era dedicado ao seu trabalho científico e minha mãe sempre tentava acompanhá-lo, principalmente depois que deixou o emprego. Eles prometeram voltar em uma semana, mas não cumpriram a promessa. Morreram durante o terremoto. Naquele momento, Denis se tornou meu apoio, e os seus pais tentaram me tratar como uma filha. "Tentaram" é a palavra-chave aqui. E então eu senti toda a diferença entre como eles tratam a própria filha e como tratam uma estranha. — Pensavamos que ele resolveria esse probleminha sozinho. — Problema? Exclamei, incapaz de conter a tensão. — Não é só um problema! É uma traição! Ele me traiu e traiu as crianças! Vocês não entendem? Petro permaneceu em silêncio, e senti as lágrimas começarem a escorrer pelo meu rosto. Eu não aguentava mais. Desabei.‌​​‌​​‌​​​​​​​​​‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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