Episódio 5

1777 Words
Entrei no prédio e o elevador me levou rapidamente até o décimo oitavo andar. Lembro-me de quando Denis e eu escolhemos este apartamento. Naquela época, eu estava nas nuvens: um apartamento de três quartos no coração de Kiev, em um prédio novo, em um bairro nobre, era simplesmente um sonho realizado. Assim que abri a porta, fui recebida por um aroma familiar: uma mistura de perfume de flores frescas e leveza, e comida deliciosa. O corredor era espaçoso e a luz das luminárias acima da entrada se difundia suavemente pelas paredes. De lá, eu podia ver a sala de estar, onde costumávamos relaxar em família. Tinha pé-direito alto, grandes janelas panorâmicas que ofereciam uma vista deslumbrante da cidade à noite e do rio Dnipro, móveis confortáveis ​​em tons quentes, muitas plantas verdes e alguns quadros nas paredes que havíamos escolhido juntos. Fui até a cozinha, relembrando como Denis e eu havíamos planejado o interior de cada cômodo. A cozinha era simples, porém elegante: acabamentos brancos brilhantes, bancadas de mármore e eletrodomésticos modernos. Costumávamos passar tanto tempo juntos aqui, cozinhando e conversando sobre a vida. Era aqui que eu esperava Denis chegar do trabalho. Aqui eu lhe contava as últimas notícias sobre as crianças. Aqui fazíamos amor... Provavelmente não havia um único canto do apartamento que não tivéssemos explorado em algum momento. Então, o que meu marido estava perdendo? Onde eu errei? Hoje tudo parecia diferente. As paredes, que antes me transmitiam tanta segurança e aconchego, agora pareciam me oprimir, lembrando-me de que minha família não era mais a mesma. Senti um peso inf*ernal sobre meus ombros, mas sabia que não podia me deixar abater. Não agora. Eu precisava ver como estavam as crianças. O quarto da minha filha mais velha estava silencioso. Apenas a respiração suave de Irina podia ser ouvida enquanto ela dormia em sua cama. Caminhei cuidadosamente em direção ao quarto das crianças. Elas sorriam enquanto dormiam, alheias à tempestade que se abateu sobre o coração da mãe. Tatiana, nossa babá, uma mulher na casa dos quarenta, entrou pela varanda. Ela era alta, loira, tinha expressivos olhos azuis e uma figura esbelta. Embora Tatiana sempre tivesse cuidado muito bem dos meus filhos, eu a olhava de uma maneira bem diferente agora. E se Denis também estivesse com ela? Mesmo sendo mais velha do que eu, Tatiana ainda era atraente. Com quantas outras mulheres Denis já tinha me traído? — Eva? Já voltou? Ela perguntou, surpresa, em voz baixa para não acordar as crianças. — Está tudo bem, Eva? Você parece cansada. — Sim, foi um dia um pouco longo. Às vezes, as distrações cansam. Tentei sorrir, mas não consegui. —Como estão as crianças? — Elas estão bem, dormindo como anjinhos. Irina dormiu um pouco mais tarde porque estava mexendo no celular, mas os meninos foram mais fáceis de colocar na cama. Para minha surpresa, os gêmeos tinham um temperamento mais calmo do que a irmã mais velha. Embora eu achasse que os meninos seriam os mais travessos, ninguém conseguiu superar a nossa pequena faísca. — Obrigada, Tatiana. Senti lágrimas brotarem nos meus olhos, mas as contive. — Pode ir agora, eu fico com as crianças. Percebi que ela queria perguntar por que eu tinha voltado sozinha do restaurante, mas não perguntou. Era melhor assim, porque eu não estava preparada para dar explicações. A mulher se arrumou rapidamente e saiu, me deixando sozinha com meus pensamentos. Fui ao banheiro para tirar a maquiagem e me vestir confortavelmente, fechei a porta e... finalmente deixei minhas emoções fluírem. As lágrimas escorreram, misturando-se com a água morna da torneira. Desabei no azulejo frio, sentindo a dor me dilacerar por dentro. Me senti quebrada, humilhada, suja. Os eventos recentes se repetiam incessantemente diante dos meus olhos, e meu coração parecia que ia explodir do peito. Tudo que eu havia construído com Denis ao longo de tantos anos pareceu desmoronar diante dos meus olhos. Uma onda de desespero e raiva me invadiu. Como ele pôde fazer uma coisa dessas comigo? O que eu fiz de errado? Por que ele se deixou seduzir por outra pessoa? Tentei ser a melhor esposa, a melhor mãe para nossos filhos, o apoiei em tudo. Mas agora, nada disso importava. A dor que eu sentia era insuportável. Não consegui conter as lágrimas, mas elas não aliviaram a dor. Depois de um tempo, as lágrimas começaram a secar, restando apenas o cansaço. Me recompus, tirei a maquiagem, lavei o rosto com água fria e troquei de roupa, tentando reunir as forças que me restavam. Eu precisava me acalmar e decidir o que fazer a seguir. Esperei por Denis na cozinha. Tomei chá de camomila com mel, que não acalmou meus nervos, e fiquei pensando, pensando... A porta da frente se abriu quando o relógio bateu duas da manhã. Denis havia voltado. Ele entrou na cozinha, parecendo cansado e, talvez, um pouco nervoso. Quando me viu, hesitou por um instante, mas depois se aproximou. — Eva. Disse ele, como se estivesse surpreso. — Você não está dormindo? Olhei para ele, sentindo uma nova onda de raiva me invadir. — Você demorou tanto? Não conseguia se despedir da sua Lisa? Denis suspirou. — Não comece com isso. Ele claramente não esperava que eu estivesse acordada a essa hora, muito menos nesse estado. — Você está confuso, Denis. Eu definitivamente não fui quem começou tudo isso. Então, o que há de errado com você? Perguntei, cheia de frustração. — Eva, pensei que você estivesse dormindo. Disse ele, evitando meu olhar. — Precisamos conversar, mas não agora. Vamos deixar essa conversa para amanhã. Minha raiva só aumentou. Como ele podia levar tudo isso tão na brincadeira? Levantei-me, sentindo minhas mãos tremerem de excitação. — Deixar para amanhã? Explodi. — Fale mais baixo. Você vai acordar as crianças. — Você está falando sério? Depois de descobrir tudo o que você faz pelas minhas costas, quer que a gente simplesmente adie essa conversa? ‍​‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌Denis tentou me acalmar, erguendo as mãos num gesto conciliatório. — Eva, eu imploro. Disse ele suavemente. — Estou muito cansado agora e nós dois precisamos de tempo para pensar. Vamos tentar descansar e conversar amanhã. Tenho que ir trabalhar de manhã. — Você tem que ir trabalhar de manhã. Vai voltar cansado à noite. Depois de amanhã, você vai ficar de plantão e vai ficar me enrolando com promessas de conversa. Eu não entendo, Denis, você acha que se prolongar isso, eu vou esquecer tudo? A raiva brilhou nos olhos de Denis. Claramente, minha franqueza o incomodava, embora ele antes admirasse essa mesma qualidade em mim. — Se você fosse esperta, faria isso. — O quê? Quase me engasguei. — Esperta? Quer dizer cega? O homem franziu a testa. — Você não vai gostar desta conversa. — Não gosto nada desta situação, então acho que não pode piorar. Ele deu de ombros e sentou-se à mesa. — Eu avisei. Disse ele, aparentemente tentando me intimidar. E, para ser honesta, estava conseguindo. Por dentro, eu já tremia com um mau pressentimento. Sentei-me à sua frente e, por alguns minutos, ficamos nos encarando, nossos olhares intensos, irreconciliáveis ​​e tensos. — E então? Perguntei a Denis quando a pausa se prolongou. — Então Liza, sua enfermeira, também é sua amante, não é? — Sim. Eu já sabia. A resposta afirmativa não deveria ter me surpreendido, mas ainda assim doeu. Não sei o que eu esperava, um milagre comum? Que alguém fizesse um passe de mágica e meu mundo voltasse a ser como era antes? Que eu acordaria na minha cama e descobriria que tudo aquilo era um pesadelo, e que o homem que amo estaria ao meu lado? — Você não vai sugerir agora que tudo foi uma brincadeira ou que eu entendi errado, vai? — Você acreditaria em mim? Denis ergueu uma sobrancelha. — Não. — Pronto. Por que se dar ao trabalho de tentar em vão? Ele agiu com calma, até mesmo com descaramento, como se fosse dono do mundo. O choque inicial que sentira no restaurante já havia passado, e agora não havia nenhum traço de culpa em seus olhos. Denis recuperara sua compostura e confiança habituais. Quem me traria de volta à realidade? Porque naquele momento eu me sentia como se estivesse à beira de um abismo, onde mais um passo e a escuridão voraz me devoraria. — Quer dizer que não foi um erro isolado? Você estava me enganando de propósito? — Eu pareço ser alguém que age inconscientemente? O jeito como Denis me olhou me fez tremer. Pelo frio e pelo medo de que aquele precipício destruísse não só o nosso casamento, mas também a mim. — Faz muito tempo? Consegui sussurrar. Uma mão invisível pareceu apertar minha garganta. — Dois anos. — Dois anos? Eu não conseguia acreditar. Tanto tempo assim? E durante todo esse tempo eu acreditei sinceramente que tudo estava bem na minha família? Deus, como fui to*la... — Ela vai ter um filho, Eva. Meu filho. Eu não precisava dessa última explicação. Então ela vai ter um filho... E nossos filhos agora estão em segundo plano? — E os nossos filhos? — E os nossos filhos? Nada vai mudar para eles. Eu continuo sendo o pai deles e seu marido. Eu amo minha família. Eu amo você, Eva. — O quê? Você me ama? Eu ri. Era uma risada entre lágrimas, uma risada nervosa, uma risada à beira do colapso. — E a sua Liza...? — Nossa, Eva. Onde você aprendeu isso? No começo, só existia se*xo entre a Liza e eu, mas agora... — Agora? Prendi a respiração. — Há sentimentos envolvidos. Acho que também a amo. Pensei que fosse impossível piorar essa situação horrível com palavras, mas estava enganada. Denis estava despedaçando meu coração, pisoteando minha alma e destruindo tudo de bom entre nós, sem nem perceber. Ele estava me matando. Com sua verdade, sua filosofia, sua traição e sua calma. Por dentro, tudo gritava de dor, enquanto ele agia como se estivéssemos conversando sobre o tempo, o que fazer para o café da manhã ou as conquistas da Irina na escola. Aquele que prometeu me proteger, me amar e me apoiar agora havia se tornado meu algoz. Quando foi que eu errei? Como não percebi quando um príncipe se transformou em um verdadeiro monstro? — Então, você a ama?
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