O campus estava incomumente silencioso para uma tarde de sexta-feira. A maioria dos alunos já havia encerrado as aulas e se preparava para o final de semana, mas a sala reservada para o grupo do projeto estava à espera, cadeiras organizadas em círculo, janelas abertas para deixar entrar o vento morno de outubro.
Ethan chegou antes de todos. Não era seu hábito. Gostava de chegar exatamente no horário, nunca cedo nem tarde. Mas naquele dia, simplesmente não conseguiu ficar parado em casa ou no escritório. Estava ali desde 15h20, andando de um lado para o outro com o tablet na mão sem ler nada de fato. Sentou-se. Levantou. Organizou o material. Desorganizou. Respirou fundo. Nada ajudava. Tentava parecer natural e falhava. Os primeiros alunos do grupo chegaram, preenchendo o ambiente com conversas animadas. Ethan colocou a típica expressão neutra, assumiu a postura profissional de sempre. E funcionou… até Elena entrar. Ela apoiava o peso do corpo em uma bota ortopédica na perna direita, se apoiando no braço de Daniel. O cabelo estava preso de forma simples e prática; os olhos carregavam cansaço, mas também determinação. Zero maquiagem. Zero intenção de impressionar. E ainda assim completamente bonita. Daniel a apoiava e abria caminho entre as cadeiras para que ela pudesse se sentar com conforto. Elena agradeceu com um sorriso tranquilo e natural, um sorriso que nunca foi direcionado a Ethan. Uma sensação incômoda atravessou o professor antes mesmo que percebesse. Mas nenhum músculo de seu rosto denunciou.
- A lesão já está quase curada, foi mais séria do que parecia - comentou Elena com o grupo, quando perguntaram. - Nada grave, mas o médico achou melhor imobilizar por algumas semanas. Eu consigo andar, só preciso evitar esforços.
Todos reagiram com empatia. Ethan apenas assentiu formal demais, distante demais. Ele queria perguntar se a dor havia diminuído, mas isso não era apropriado. Perguntar como ela estava, tudo bem. Mas sobre a dor era pessoal demais. Próximo demais. Então respirou fundo e controlou o impulso.
— Se precisar de um intervalo, ou ajustar o tempo das reuniões, avise — disse, com a voz impecavelmente neutra. Elena sorriu educada, grata, e nada além disso.
— Obrigada, professor Hayes.
Só isso. Nenhum tremor. Nenhuma tensão. Nenhum segundo olhar. Para ela, ele era apenas o professor responsável pelo projeto. Uma figura respeitada, distante e profissional. E assim a reunião começou.
O grupo discutiu ideias, delimitou temas, distribuiu responsabilidades. Para qualquer observador, Ethan estava participando perfeitamente anotando pontos, concordando, mediando conflitos, dando direção. Por dentro, não estava ouvindo direito. Cada vez que Elena falava, ele se concentrava demais. Cada vez que ela ria de algum comentário do grupo, algo nele reagia. E quando Daniel ajudou segurando o notebook dela para ajustar o ângulo da tela, o maxilar de Ethan travou por um único segundo despercebido por todos, exceto talvez por ele mesmo. Ao final da tarde, a dinâmica estava definida para a semana seguinte. Os alunos se levantaram, guardaram seus materiais e se despediram uns dos outros como uma equipe que começava a se encaixar. Elena também se levantou com cuidado, tentando equilibrar-se com a bota ortopédica. Antes que pudesse alcançar a bolsa , Daniel a pegou primeiro.
— Deixa que eu levo, Morisson. — disse com naturalidade.
— Não precisa, eu dou conta — ela riu - Pode ir para o seu treino, sei que não gosta de chegar atrasado, eu preciso ver alguns detalhes com o professor Hayes.
Daniel se despediu dela e saiu.
Ethan permaneceu em silêncio, recolhendo o tablet e fingindo conferir arquivos quando ouviu a porta bater ele parou diante da mesa por longos segundos, sentindo algo pesado no fundo do peito, uma mistura irritante de frustração… e de algo que ele não deveria estar sentindo por ninguém, muito menos por ela.
Ele se virou para ir embora e encontrou Elena parada diante dele segurando uma pasta azul. O olhar era firme, mas havia uma ansiedade silenciosa em algum lugar mais fundo.
— Professor… posso tomar só um minuto? — perguntou.
Ele apenas assentiu.
Ela abriu a pasta, tirou duas folhas grampeadas e o coração dele afundou antes mesmo de entender o que estava olhando.
No topo da página, em letras grandes e burocráticas:
SOLICITAÇÃO DE TRANSFERÊNCIA PARA OUTRA DISCIPLINA — PROJETO PRÁTICO
A respiração de Ethan falhou por um instante, pequena o suficiente para ninguém notar, devastadora o suficiente para ele sentir.
— Eu… estou pedindo para me retirar do projeto e de suas aulas — disse Elena, mantendo o tom respeitoso, professoral, irretocável. — Já conversei com a coordenação. Eles disseram que, com sua assinatura, eu posso passar para o grupo do professor Avery na segunda-feira.
Ethan olhou para ela. Só olhou.
E entendeu tudo.
Ela estava dando a ele a chance de facilitar o afastamento.
A chance de provar autocontrole.
A chance de fazer o que era certo.
E, ao mesmo tempo, a chance de desaparecer da vida dele.
Ele olhou para o documento por alguns segundos longos demais. Pegou a caneta. Destampou. Mas não escreveu.
— Isso vai atrasar seu cronograma — disse finalmente, com a voz baixa. — Você está semanas adiantada em pesquisa e estrutura. Sair agora significa jogar fora todo o desenvolvimento. E você sabe disso tão bem quanto eu.
Elena engoliu em seco.
— Eu sei. Mas… acho que é melhor assim.
Melhor assim.
A frase atingiu como um golpe.
Ele apoiou a caneta na folha, pronto para assinar. Só faltavam três segundos de coragem para restaurar a própria sanidade ou oque restou dela.
Mas a mão não se moveu.
Ethan fechou a caneta com um clique seco e colocou-a sobre a mesa.
— Não vou assinar.
Elena ficou imóvel.
— Professor Hayes, eu realmente…
— Não vou autorizar — interrompeu, sem elevar a voz, mas com firmeza absoluta. — Não porque tenho qualquer direito de interferir… mas porque você é brilhante. E sair agora seria um erro. Acadêmica e profissionalmente.
Ela piscou, sentindo o golpe inesperado da sinceridade.
— Não estou… fugindo do projeto — tentou se justificar, mesmo sabendo que estava mentindo para si. — Só acho que…
— Eu sei — disse ele, mais suave. — Eu sei exatamente o que você acha.
Por um segundo, os dois ficaram presos naquele silêncio.
Ela por querer ir.
Ele por querer impedir.
— Eu não sou seu inimigo — completou Ethan, com os olhos presos nos dela. — Você tem todo o direito de me odiar, de me evitar e de não querer estar perto de mim. Eu entendo. Mas não vou permitir que você sacrifique o seu futuro por causa de um erro meu.
As palavras tremiam por dentro, mas não por fora.
Elena respirou fundo, tentando controlar algo que ele não podia nomear.
— E se eu disser que vai ser difícil para mim continuar aqui? — perguntou com honestidade dolorida.
Ethan fechou os olhos por um instante.
Quando falou, a voz dele estava quebrada onde ninguém exceto ela podia ouvir.
— Vai ser difícil para mim também.
O eco daquilo pairou no ar. Pesado. Sincero. Proibido.
Mas ele continuou:
— E mesmo assim… você vai ficar. Porque você merece essa oportunidade. E porque não importa o quanto doa agora o seu futuro é maior do que qualquer coisa que aconteceu entre nós.
- Esse é bom problema - Elena mordeu o lábio, não para provocar, mas para evitar que a voz falhasse. - Não aconteceu nada entre nós.
Ela recolheu os papéis devagar. Não insistiu.
Porque não havia nada a agradecer e nada a lamentar sem se machucar.
Quando virou para sair, Ethan chamou:
— Senhorita Morrison
Ela parou, mas não olhou para trás.
— Eu prometo… que vou fazer dessa sala um lugar seguro para você. Mesmo que não seja para mim.
Ela fechou os olhos. Só isso.
E saiu.
Quando a porta se fechou dessa vez, Ethan sentiu como se tivesse vencido e perdido ao mesmo tempo, segurou a pessoa certa e perdeu a paz para sempre.
Ele apoiou as duas mãos na mesa, deixou a cabeça baixar e expirou, quebrado e silencioso.
Não assiná-la foi correto.
Mas doeu como se tivesse arrancado o próprio coração para fazê-lo.
E o mais c***l era saber:
A partir daquela sexta-feira cada reunião, cada aula, cada olhar seria um tormento.
Porque ela ficaria.
E ele teria que vê-la, sem nunca tocá-la,
sem nunca quere-lá, mas querendo assim mesmo.