Capítulo 10 — Quem vai ceder?

1397 Words
O campus estava cinzento, úmido, com o odor metálico que antecede uma tempestade. Mas para Elena nada disso importava. Hoje não era sobre clima. Era sobre controle Ela atravessou o corredor do prédio de Marketing com passos firmes. Não havia hesitação, não havia fuga. O salto médio batia no chão em um ritmo determinado livre da bota ortopédica, livre da desculpa, livre da fragilidade. Quando entrou no auditório, não procurou ninguém. Apenas caminhou até a terceira fileira, lado direito, e sentou o exato lugar de antes. Não era conforto. Era estratégia. Próxima o suficiente para que ele a visse, longe o suficiente para que ele não a tivesse. A escolha do território era a primeira declaração de guerra. Ela abriu o notebook, cruzou as pernas, respirou fundo. O coração acelerava, mas a postura era irretocável. E então Ethan entrou. Perfeito. Impecável. Perigoso. Paletó escuro. Postura altiva. A expressão controlada que ele usava como escudo mas os olhos traíam. O olhar dele varreu a sala com rapidez profissional… até encontrá-la. E quando encontrou, tudo congelou por meio segundo. Ela não sorriu. Não desviou. Simplesmente o ignorou como se nada da noite, do toque, do corpo dele, existisse. Esse foi o ataque real. Ethan respirou fundo, reposicionou papéis, pegou o controle da apresentação, tentando vestir a armadura. Mas a armadura já tinha rachaduras. Ele sentiu. Ele começou a aula. — Hoje vamos discutir fidelização emocional e relações de marca… A voz dele estava firme, técnica, precisa. Mas a tensão era audível para quem sabia onde ouvir. E Elena sabia. Ela digitava com calma, como se realmente estivesse focada, mas cada gesto era calculado: o movimento lento do braço ao alcançar a caneta, o pescoço exposto quando afastava o cabelo, o perfume que atravessava o ar até ele como uma lembrança física da pele sob suas mãos. Ele tentava olhar para os slides. Olhar para os alunos. Olhar para qualquer lugar, menos para ela. Mas ela estava lá. Ocupando todos os sentidos dele. Quando levantou a mão pela primeira vez, a sala ficou em silêncio. — Professor Hayes, o senhor acredita que uma marca consegue construir lealdade emocional quando o consumidor percebe que está sendo… manipulado? A pergunta era sobre marketing. Mas o subtexto era sobre eles. Ethan engoliu seco imperceptível para todos, brutalmente claro para ela. — A fidelização só é real quando existe reciprocidade — respondeu, profissionalmente. — Quando uma das partes se sente usada ou controlada… a relação é destruída. Elena inclinou levemente a cabeça, aceitando a resposta com um sorriso que ninguém além dele entendeu. Ponto para ela. A aula continuou e cada intervenção dela era um golpe. Ela falava de expectativa do consumidor, ele lembrava da respiração dela tremendo contra o peito dele. Ela falava de confiança, ele lembrava da forma como as mãos dele a seguraram no dia da chuva. Ela falava de consequência, ele lembrava do olhar assustado quando ele quase a beijou. A tensão era uma corrente elétrica. Por fim, perto do fim da aula, ela fechou o notebook devagar, guardando as coisas com calma ensaiada criando um silêncio visual que só ele sentia. E então veio o golpe final. Quando todos estavam recolhendo mochilas, Elena parou ao lado dele. Não perto o bastante para tocá-lo, mas perto o bastante para feri-lo. — Professor Hayes — disse com uma voz baixa, firme, perigosamente controlada — o senhor entende mesmo o que significa perder o controle? Ela não piscou. Não sorriu. Jogou a chama e esperou. O choque foi físico. Ethan demorou segundos demais para responder. A batalha interna era visível nos olhos, raiva, desejo, culpa, fome. Quando falou, a voz estava baixa e carregada de ameaça contida: — Senhorita Morrison… não faça isso. Ela deu um passo para trás, como quem aprecia a resposta que esperava obter. — Assine a transferência. E saiu. Ele ficou parado. O auditório vazio, ecoando os passos dela. O perfume dela ainda no ar. O corpo dele queimando com o toque que não podia ter, o beijo que não podia dar, a lembrança que não conseguia apagar. Ela era uma provocação viva. Ele era um controle estilhaçado. E o jogo estava longe de acabar. A porta do auditório mau havia se fechado atrás de Elena quando Ethan decidiu que não conseguiria simplesmente deixá-la ir. Ele precisava de distância. Ele sabia disso. O que fez foi o oposto. Largou o controle da apresentação sobre a mesa, ignorou os papéis espalhados, e saiu atrás dela com passos longos, controlados. Controlados demais, exatamente o tipo de controle que existe quando se tenta segurar um terremoto. O corredor estava limpo, silencioso, com o eco seco dos saltos de Elena cada vez mais distante. Ethan acelerou. — Senhorita Morrison. Não houve resposta. Mais um passo. Ele chamou novamente, mais firme: — Elena. Ela parou. Mas não se virou de imediato. Respirou primeiro um gesto discreto, tenso, calculado antes de finalmente olhar por cima do ombro. — O professor precisa de algo? — perguntou com frieza impecável. O uso da palavra *professor* soou como um golpe. Ele engoliu isso. Caminhou até ela, mas parou a uma distância segura ou tão segura quanto era possível para alguém que ardia por ela. — O que você fez hoje — disse, voz baixa, sem respiro — foi deliberado. Ela ergueu uma sobrancelha, inocência forçada. — Participar da aula? Ele deu um passo à frente. Ela deu um passo para trás. Era instinto e atração. — Senhorita Morrison — ele repetiu, e dessa vez havia aviso. Ela cruzou os braços, como quem arma escudos. — Estou apenas exercendo meu direito de estudar. Se não me quer na sua aluna, assine minha transferência. Ele respirou fundo. Ela estava destruindo o controle dele aos poucos e sabia. — O que aconteceu entre nós — Ethan começou — não pode interferir nas aulas. Elena riu, sem humor, seca como lâmina. — É o que exatamente aos teceu entre nós? Ethan piscou, atingido com precisão. — Você sabe do que eu estou falando. — Do que? Do beijo que você me insinuou e depois negou? O golpe entrou fundo. Ethan recuou meio passo não no corpo, mas nos olhos. — Eu estava tentando fazer o que era certo — disse. Elena sorriu, devagar, perigosa: - Ocerto seria não ter começado aquilo que você não pode sustentar. Ele sentiu o corpo inteiro reagir. Não havia tremor, não havia raiva explícita havia desejo, culpa e fome demais misturados. E então ela disse, baixinho, certeira: — Você não tem direito de me querer e me rejeitar na mesma medida, Ethan Hayes. O nome dele dito daquela forma desmontou qualquer tentativa de defesa. Ele não percebeu quando deu o segundo passo. Mas percebeu quando ela recuou até encostar na parede. A distância entre eles era pouca demais. — Não sou eu quem está jogando — ele murmurou. Ela sustentou o olhar. — Não. Você é quem começou. Eu só estou continuando. Boa sorte! O silêncio que seguiu era vivo, denso, eletrizado. Ele levantou a mão não para tocá-la, mas para apoiar ao lado da cabeça dela, contra a parede. Ela não recuou. Ele não avançou. Ficaram ali, a centímetros completamente conscientes do perigo. — Não provoque algo que você não está pronta para enfrentar — ele disse, rouco. — Eu enfrento você inteira — ela respondeu — o problema é você não enfrentar a si mesmo. Ethan fechou os olhos por um segundo. Só um. Mas foi o bastante para revelar tudo: o desejo, o medo, o instinto, a necessidade. Quando abriu, Elena viu tudo. Ele estava prestes, muito prestes a beijá-la. Mas ela foi mais rápida. Colocou a mão no peito dele, bem onde o coração batia acelerado não para puxá-lo, mas para impedi-lo. O toque queimou. — Não — disse ela, firme. — Não vai me beijar pra satisfazer o seu desejo e depois me afastar para satisfazer seu senso de honra e ética. E saiu. Sem olhar para trás. Sem tremer. Sem se desculpar. Ethan ficou ali, com a palma da mão ainda na parede e o corpo inteiro em combustão. O perfume dela preso na pele dele. A pulsação no peito onde ela o tocou. A certeza devastadora de que ele estava em guerra com o único inimigo que poderia destruí-lo: Ele mesmo. E só naquele momentos percebeu que estavam completamente expostos no corredor para quem quisesse ver, mas ninguém viu.
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