Capítulo 18 – Quarta-feira: Ausência

1579 Words
Na quarta-feira de manhã sempre tinha a mesma rotina: Ethan chegava antes do início da aula, passava rapidamente os olhos pelo auditório, conferia mentalmente os alunos presentes e começava sem atraso. Organização. Disciplina. Controle. Mas naquele dia, o controle foi a primeira coisa a falhar. Ele entrou no auditório no horário de sempre, pastas de trabalho e laptop em mãos, expressão neutra, profissional. Mas antes mesmo de colocar o material sobre a mesa, o olhar procurou por ela. O reflexo foi tão automático que ele só percebeu depois. O lugar de Elena estava vazio. Um incômodo instantâneo atingiu o estômago dele rápido, agudo. Ethan tentou ignorar, mas os olhos voltaram para a fileira dela. Vazia. Ele fingiu não se importar, e insistiu em olhar para o resto do auditório, como se fosse rotina, mas os olhos continuavam escaneando, procurando por um rastro dela entre os alunos um aceno, um sorriso, uma distração, qualquer coisa. Nada. Ele encontrou Daniel. O aluno estava lá, rindo de alguma coisa com os colegas, mas Elena não estava com ele. Um músculo no maxilar de Ethan se contraiu. Ele respirou fundo, abriu o laptop conectou o sistema de projeção e disse: — Bom dia. Abram os materiais. Vamos começar. A voz saiu firme, mas seca demais. A aula corre pelo menos para quem estava assistindo. Para Ethan, cada segundo era um teste de resistência. Ele falava sobre o tema do dia, fazia perguntas, respondia dúvidas, mas o olhar fugia constantemente para a porta esperando que ela entrasse atrasada, silenciosa, com o cabelo caindo nos ombros e o olhar tímido tentando se esconder. Ele esperou nos primeiros dez minutos. Nos primeiros vinte. Nos quarenta. A porta nunca se abriu. E ela não veio. Ao final da aula, Ethan fechou o laptop com mais força do que pretendia o som seco ecoou pelo auditório. Ele respirou fundo. Os alunos começaram a guardar as coisas e se levantar. Ele esperou até Daniel passar perto. — Stevenson — chamou, com a formalidade de sempre. Daniel parou. — Sim, professor? O olhar de Ethan parecia casual, neutro mas estava longe disso — Morrison apresentou alguma justificativa para a ausência? Daniel franziu o cenho, sem perceber o impacto que suas palavras provocariam: — Eu não a vi, quando passei no dormitório hoje de manhã ela não estava — Ele respirou fundo, tentando encontrar lógica. — É estranho, Morisson nunca falta, ela é extremamente organizada com horários O coração de Ethan disparou um soco invisível no peito, curto e violento. Algo pode ter acontecido. Mas seu rosto permaneceu frio, impenetrável, como se nada estivesse fora do lugar. — Entendo. — disse, como se a informação fosse irrelevante. — A falta será registrada. Ausências sem justificativa formal não serão aceitas. Daniel assentiu, um pouco desconfortável com o tom austero. — Certo. Eu aviso ela. — respondeu antes de se afastar. Ethan observou o aluno sair. Ficou ali parado, sozinho no auditório vazio, com as mãos enfiadas no bolso e uma tempestade silenciosa crescendo no peito. Ele disse que lançaria a falta. Disse que não aceitaria justificativas tardias. Disse tudo com absoluta indiferença profissional. Mas dentro dele algo estava queimando. Ethan passou uma mão pelo rosto como se quisesse apagar aqueles pensamentos. Preocupação não combinava com ele. Saudade não combinava com ele. Vazio não combinava com ele. Mas estava lá. E não estava indo embora. Pegou o celular e ligou oara ela, caiu direto na caixa postal. Ele saiu da sala e fechou a porta com calma muito mais calma do que sentia por dentro A quarta-feira estava apenas começando. E o único lugar onde ele queria que ela estivesse continuava vazio. A tarde tinha tudo para ser importante. Estratégica. Determinante. Daquelas que marcam o ano inteiro de uma empresa. E justamente por isso parecia irônica porque Ethan deveria estar com a mente afiada, impecável, preparado para apresentar o projeto mais ousado da Hayes Global Innovation nos últimos dois anos. Era o tipo de situação em que ele normalmente brilhava. Mas naquele dia, a única coisa que importava era saber onde ela estava. Ethan chegou à empresa com passos firmes, como se a raiva por não saber onde e como encontrá-la pudesse servir de combustível. O elevador espelhado devolveu a imagem dele: impecável, frio, inatingível. Ele suspirou fundo, ajustou a gravata e entrou na sala de reuniões. O time inteiro já o esperava. — Boa tarde, senhor Hayes. Estão todos conectados na videoconferência — anunciou a assistente. Ethan assentiu, pegou o tablet e ocupou seu lugar na ponta da mesa. A voz dele saiu firme. Profissional. — Vamos começar. A apresentação começou com dados estratégicos, projeções de mercado, expansão internacional. Os investidores grandes os que ditavam tendências no setor estavam reunidos ali. Qualquer CEO sangraria para ter aquela oportunidade. Um sonho para qualquer empresário. Mas Ethan, ao invés de pensar no crescimento de 42%, pensava em como Elena teria saído da sala de aula. Pensava nos lábios dela ainda inchados. Nos olhos dela suplicando para ele não parar. Na forma como ela tremia só de ficar perto dele. — Senhor Hayes? — alguém chamou da tela. — Qual seria o impacto orçamentário estimado no terceiro trimestre? Ethan piscou. A mente voltou à sala. Ele respirou fundo, retomou o controle. — Projeções conservadoras indicam 3,7 milhões. — A resposta saiu impecável. — Mas com a campanha adequada e adaptação escalável, falamos de 5,2 milhões em apenas nove meses. Silêncio na call. Depois, surpresa. Depois, aprovação. A reunião prosseguiu. Perguntas duras. Negociações. Estratégias. E Ethan respondeu todas com precisão cirúrgica. Frio. Confiante. Indiscutível. Era o líder que o mercado temia. Era o empresário que nunca errava. Mas por baixo disso havia o homem que estava à beira do colapso. Quando a reunião se encaminhou para o fechamento do contrato, o diretor-chefe de investimentos recostou-se na cadeira e disse: — Senhor Hayes… muito poucos executivos conseguem entregar crescimento exponencial com risco calculado. Você acaba de garantir a parceria para os próximos três anos. A sala estourou em aplausos. A equipe respirou aliviada. A assistente sorriu, orgulhosa. Ethan não sorriu. Ele agradeceu, apertou mãos, formalizou assinaturas, tirou uma foto que iria para a imprensa econômica. Estava no topo. No auge. No momento de vitória. Mas quando voltou para o escritório dele, sozinho, a verdade caiu sobre ele como peso. Ele fechou a porta, tirou a gravata como se ela sufocasse e apoiou as mãos na mesa. Conquistou o contrato do ano. Mas sentia que estava perdendo a única coisa que importava. Ele olhou para o celular e sem pensar discou o número dela, a ligação caiu na caixa postal novamente, a mensagem que enviou também não foi entregue. Onde você se meteu??? A frase ecoou na cabeça dele como tortura deliciosa. Ethan jogou o corpo na cadeira, tentando recuperar o controle. Era ridículo, um homem que acabara de fechar um acordo milionário… incapaz de controlar o próprio coração, obcecado por uma aluna. A tela do celular acendeu com notificações: — parabéns pelo contrato — artigo da imprensa econômica — convite para entrevista Mas nada disso importava naquele momento. Porque entre todas as vozes do mundo, a única que ele queria ouvir era a dela. E ele não podia simplesmente ir até o campus, bater na porta do dormitório e exigir vê-la, confirmar que estava bem, que nada havia acontecido… Mas naquela noite, sem nenhuma notícia dela, nenhuma mensagem, nenhuma explicação nada disso importava. A escuridão já tomava o campus quando Elena finalmente cruzou o portão da universidade. Exausta, frustrada consigo mesma, com o coração apertado pelo dia inteiro sem conseguir avisar ninguém. Ela só queria um banho quente, silêncio e sono. Mas não deu nem cinco passos antes de congelar. Ele estava ali. Ethan. Parado à sombra da escadaria do prédio principal, mãos nos bolsos do casaco, o corpo rígido, o olhar voltado para o vazio até o instante em que seus olhos encontraram os dela. O ar ficou pesado. Elena parou, como se o mundo tivesse sido arrancado debaixo de seus pés. Ethan começou a caminhar em direção a ela… devagar, decidido… até que o ruído de uma porta se abrindo o fez interromper o passo. — Elena! — uma voz feminina chamou. Luna correu até ela, ofegante de preocupação, jogando-se em um abraço para confirmar que a amiga estava mesmo ali, inteira. Daniel vinha logo atrás. Ethan deu um passo para trás, se recolhendo novamente para as sombras, não porque queria, mas porque precisava. Qualquer aproximação naquele momento seria um desastre imperdoável. — Onde você estava? — Luna perguntou, ainda segurando Elena pelos braços, como se tivesse medo de soltá-la. — Você sumiu o dia todo! A gente surtou! — Eu sei… eu sei… — Elena tentou responder, mas a voz saiu fraca. — Você parece destruída — Luna avaliou, agora tentando aliviar o clima com humor. — Vamos, tem pizza fria e cerveja quente esperando por você. É o máximo que conseguimos. Daniel riu, colocando a mão no ombro dela num gesto espontâneo, íntimo demais para os olhos de quem observava à distância. E, por apenas um segundo, o olhar de Ethan queimou. Não era raiva. Era alívio, ciúmes e desejo misturados em uma intensidade que doía. Elena virou discretamente para olhar onde o viu um minuto antes. Mas ele já não estava lá. Só o vazio. E a certeza sufocante de que ele esteve. Ela engoliu em seco, o coração disparado pelo que não foi dito e pelo que não podia ser dito.
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