O sol começou a insinuar-se pelas cortinas, e Ethan foi o primeiro a acordar. Não porque estivesse descansado, mas porque o corpo simplesmente se recusava a desligar. O sono vinha, interrompido por lapsos com a lembrança do terraço, do vapor do chuveiro, das mãos de Elena, da entrega absoluta.
Elena dormia encostada em seu peito, respirando devagar, havia nela uma mistura de força e fragilidade que o desarmava por completo. Não era apenas atração. Era algo muito mais profundo, muito mais assustador.
Ele passou o polegar pela bochecha dela — e Elena abriu os olhos lentamente, como se o toque fosse chamado e resposta, e ainda sonolenta, e se aconchegou mais um pouco nele, como se aquela cama, aquele corpo e aquele instante fossem o único lugar seguro do mundo.
Mas então a realidade bateu à porta, sutilmente.
— Ethan… eu preciso voltar ao campus — ela sussurrou — Preciso trocar de roupa e pegar outras para o fim de semana.
— Você não precisa ir, é arriscado alguém nos ver começar algum boato. - falou com aquela seriedade que misturava autoridade e cuidado:
Elena riu leve, levantando a cabeça para olhar para ele
- Eu vou sozinha - disse ela simplesmente
- Não vai mesmo - respondeu ele tenso lembrando do assalto.
Ele pegou o celular na mesa de cabeceira, discou um número e falou com a calma de quem esta acostumado a dar ordens
— Preciso de uma entrega. Agora. Sem erro.
Elena o observava, confusa sentada na cama. Em menos de três minutos, ele tinha especificado tamanhos, providenciado pagamento, exigido prazos, higienizacao das peças à sua maneira eficiente e direta. Ethan se aproximou devagar e a beijou no topo da cabeça.
— Problema resolvido!
— Por que você ce fez isso? — perguntou confusa. — Eu posso ir buscar minhas próprias roupas.
— Você pode. — Ele inclinou o rosto, bem perto do dela. — Mas esse fim de semana é nosso e não quero ficar longe de você.
Elena sentiu o rosto esquentar. Orgulho. Era exatamente isso que ela tinha sentido vontade de não parecer dependente, de não parecer pequena, de não parecer… dele.
Ele ergueu o queixo dela com dois dedos, fazendo-a olhar para ele.
— São apenas roupas, não me olhe como se você me devesse algo, você não deve. Nem agora. Nem nunca.
Ela engoliu em seco.
— Eu não estou aqui para tirar proveito de você, ou do seu dinheiro. Por favor, não me confunda com sua ex. — sua voz saiu pequena, mais sincera do que ela esperava.
E foi aí que algo mudou nos olhos dele. A intensidade desapareceu por um segundo, substituída por um cuidado profundo, devastador.
— Você é tudo, menos interesseira — Ethan disse, encostando a testa na dela. — E se eu pudesse te dar o mundo… eu daria. Nunca mais se compare a ela.
Ela respirou fundo, piscando rápido para conter as emoções. Ethan a puxou para mais perto, envolvendo-a com os braços como se aquilo resolvesse tudo, e talvez resolvesse.
— Agora — ele murmurou — começa o nosso fim de semana. Não de fuga, não de segredos, não de medo. Você me ouviu?
— Ouvi — ela sussurrou.
— Não será um fim de s**o — ele disse, firme, decidido — será sobre nós.
Mas quando ele disse aquilo, Elena se sentiu estremecer. Porque sabia, e ele também, que não conseguiriam evitar a atração que queimava entre eles.
E era isso que tornava tudo tão perigoso.
Pouco tempo depois, o interfone tocou. Ethan desceu para receber tudo. Quando ele voltou, trazia duas caixas grandes e duas pequenas, embaladas com seda e papel rígido.
Ele colocou tudo sobre a cama, como quem faz uma oferta devota.
Elena arregalou os olhos novamente.
— Ethan… isso é… exagero.
— Talvez — ele admitiu com um meio sorriso — mas nunca fui muito bom em medidas moderadas quando se trata de você.
Ela abriu uma das caixas uma fileira impecavelmente dobrada de blusas de frio, casacos, calças confortáveis porém elegantes. Na outra vestidos casuais, pijamas de inverno, meias felpudas. A menor caixa com lingerie macia, delicada, rendas discretas e luxuosas.
— É demais — Elena insistiu, a voz embargada. — Por quê?
Ethan respirou fundo.
— Porque você merece cuidado. E porque eu quero você aqui sabendo que o mundo lá fora não pode te tirar nada.
Ela não tinha resposta. Nem argumentos.
E então Ethan estendeu a mão.
— Vamos. Vista o que você quiser. Depois eu te levo para o melhor fim de semana da sua vida. Onde ninguém nós te conhece. Onde você pode rir alto, reclamar de mim, e andar de mãos dadas sem medo.
Ela escolheu calça confortável, blusa quente, e botas e então saíram juntos, pela porta não às escondidas, mas de mãos dadas na mente, se não fisicamente.
Ali começava o fim de semana que nenhum dos dois estava preparado para encarar.
Amor era a promessa.
Mas desejo… não sabia obedecer promessas.
Ao chegarem a uma casa de campo após duas horas de viagem Ethan mostrou a casa sem pressa, como se cada cômodo revelasse um pedaço dele que quase ninguém conhecia. Havia livros por todos os lados, plantas bem cuidadas, uma escrivaninha com rascunhos de ideias, e uma lareira pronta para acender. Era um lar, não um troféu — e isso mexeu com Elena de um jeito inesperado.
— Você vem muito pra cá? — ela perguntou, deslizando os dedos pela lombada de um livro.
— Não com frequência — ele respondeu. — Só quando eu preciso me lembrar de que a vida é maior do que reuniões e números.
— E você trouxe alguém aqui antes de mim?
Ele ergueu os olhos devagar. Não desviou. Não fugiu.
— Nunca.
Havia um peso no nunca. Um universo inteiro dentro da palavra.
Elena sentiu o coração acelerar.
Ele quebrou a tensão com um meio sorriso, puxando-a para a cozinha.
— Vem, vamos preparar algonpara comer - ele a olhou com desejo provocativo - estou morrendo de fome.
Ela riu, e riu de verdade. Era impressionante como ele conseguia arrancar risadas até nos momentos mais carregados.
O almoço foi simples, massa fresca, molho aromático, música baixa saindo de uma caixa de som, taças de vinho na bancada, ela não gosta de beber, preferia estar sempre em alerta, mas ao lado de Ethan se sentia segura. A cozinha se encheu de cheiros deliciosos e de uma i********e quase perigosa.
Eles se esbarravam o tempo todo, as vezes de propósito, outras por acidente, o clima de provocação e sedução no ar.
Em certo momento, ao pegar um utensílio no armário, Elena ficou na ponta dos pés e quase perdeu o equilíbrio. Ethan segurou sua cintura antes que ela tropeçasse.
Eles congelaram ali.
As mãos dele em sua cintura. O corpo dela tão perto que bastava inclinar a cabeça para que os lábios se encontrassem.
O ar ficou pesado — denso, elétrico.
— Se a gente continuar nesse ritmo… — ele murmurou, a voz baixa demais, rouca demais — o jantar vai queimar.
— Então é melhor se concentrar, professor — ela provocou, com um sorriso torto.
Ele soltou um suspiro como se estivesse sendo torturado de propósito.
— Você vai acabar comigo.
— Já? — ela ergueu a sobrancelha. — Uau, pensei que seu auto controle fosse durar mais.
Ethan riu, balançando a cabeça e se afastando para salvar o molho antes que derramasse. Mas os olhos dele… os olhos continuavam nela. Sempre nela.
Quando finalmente sentaram para almocar, a comida estava incrível. Mas nenhum dos dois realmente prestou atenção ao prato. A conversa variava entre risos, histórias, provocações e olhares demorados demais.
A conexão entre eles era tão intensa que parecia física como se o ar vibrasse.
Depois do almoço , Ethan serviu sobremesa: sorvete com calda quente de chocolate. Elena deu a primeira colherada e fechou os olhos com prazer.
Quando abriu, Ethan estava olhando para ela como se aquilo fosse um convite.
— Nunca faça isso em público — ele disse, encostando-se na cadeira. — Nunca.
— Por quê?
— Porque eu não sei se conseguiria me comportar.
Ela mordeu o canto do lábio, e ele soltou um suspiro derrotado.
— Isso é uma tortura — ele confessou. — E você nem percebe.
Elena percebeu. Percebeu cada centímetro.
E mesmo assim, ela foi gentil.
— Você disse que esse fim de semana não seria sobre s**o.
— Eu disse — ele respondeu. — E eu pretendo honrar isso.
Ela inclinou a cabeça, estudando-o. Havia uma força e uma fraqueza ali, ambas nascidas do mesmo lugar: amor.
— Então o que é esse fim de semana, Ethan?
Ele não respondeu imediatamente. Se levantou devagar, foi até ela e estendeu a mão. Ela colocou a mão na dele sem hesitar.
— Esse fim de semana é para te conhecer — ele respondeu, olhando dentro dos olhos dela. — Não o corpo. Você.
O coração dela doeu — doeu bonito.
E, mesmo assim, mesmo tentando resistir, a física entre eles era inevitável.
Foram para a sala. Se sentaram no sofá, lado a lado, mas não colados. Ele colocou uma manta sobre as pernas dela. Ligou a TV procurando um filme, qualquer filme, apenas para manter o ambiente leve.
O filme começou. E ficou completamente esquecido.
Elena virou a cabeça para comentar uma cena e encontrou Ethan olhando para ela, não para a tela.
O silêncio explodiu.
Ele levou a mão ao rosto dela devagar, como se tivesse medo de estragar alguma coisa. O polegar acariciou sua bochecha. Ela fechou os olhos e depois abriu, porque não queria perder nada do que via nele.
— Você está com medo de mim? — ele perguntou, baixo.
— Não — ela respondeu em um sussurro. — Estou com medo do que eu sinto.
A respiração dele se alterou.
— Eu também.
E então, não havia mais motivo nenhum para segurar nada.
Os lábios se encontraram não com brutalidade, mas com reverência. Um beijo profundo, lento, cheio de significado e de fome ao mesmo tempo. As mãos deslizaram para a nuca, para a cintura, para as costas, mas sem pressa.
Não era s**o.
Era desejo falando a língua do amor.
Elena o puxou mais perto. Ele a segurou com cuidado, mas o corpo inteiro traía o quanto ele a queria. Cada toque era uma pergunta. Cada suspiro, uma resposta.
O beijo foi crescendo, e crescendo, e crescendo, até ficar quase impossível respirar.
Mas Ethan interrompeu — não por falta de vontade, mas por excesso.
Ele encostou a testa na dela, respirando descompassado.
— Se eu continuar agora… eu não paro mais.
Ela sussurrou:
— E se eu não quiser que você pare?
Ele prendeu a respiração, os olhos fechando por um instante de verdadeira dor prazerosa.
— Elena… você merece cada parte do amor antes da paixão. Eu não quero que você passe esse fim de semana lembrando de desejo. Eu quero que você lembre de segurança. De pertencimento. De cuidado.
Ela engoliu seco.
— E você?
Ele sorriu com tristeza e fogo ao mesmo tempo.
— Eu quero você de todas as maneiras possíveis. Mas o amor vem primeiro.
Ela se aninhou no peito dele, e ele envolveu os braços ao redor dela, como se aquele abraço fosse o único lugar onde existia alguma paz.
A lareira estalava. A TV continuava ligada, esquecida. Lá fora o sol começa a se esconder, o vento cortava a noite. Mas ali… nada machucava, nada ameaçava, nada faltava.
E depois de tudo o que os dois já tinham vivido, dores diferentes, traumas diferentes, batalhas silenciosas surpreender-se sentindo paz parecia quase milagroso.
O fim de semana só estava começando.
E, pela primeira vez em muito tempo, Elena adormeceu nos braços de alguém… sentindo-se segura.
E Ethan adormeceu com uma certeza ardendo dentro dele:
Ele faria tudo, absolutamente tudo para ser o porto seguro dela.
Mesmo que o mundo inteiro tentasse destruí-los.