Zara
Estou no banco do passageiro, as mãos firmemente cruzadas no colo, os dedos frios apesar do calor que explode no carro esportivo pequeno da Becca.
Becca dirige como imagino que ela vive: rápido, imprudente, sem nenhum arrependimento. Uma mão no volante, a outra batucando na coxa fina ao ritmo de uma música que só ela consegue ouvir.
— Você está bem quieta — diz ela, olhando de lado para mim enquanto saímos dos limites da cidade. — Está se arrependendo de ter insistido em ver o Knox esta noite?
Não olho para ela.
— Não.
— Mentirosa.
— Você não me conhece o suficiente para me chamar disso.
Becca ri com desprezo.
— Ah, eu sei tudo sobre você ser uma estranha à verdade. Você ficou num casamento em que seu marido nunca te tocou, certo? Quartos separados, vidas separadas?
Meu maxilar se aperta, e eu fico olhando pela janela para os campos escuros.
— Me diga — continua Becca, a voz baixando, quase provocando. — Você já se perguntou como é ter ele realmente te querendo? Como é ter ele te fodendo sem piedade contra uma parede? O p*u dele é perfeito, eu te digo… não que você tenha visto alguma vez. E nunca vai ver.
Fecho os olhos contra as palavras dela, lembrando a mim mesma o que diabos estou fazendo neste carro, com essa mulher vingativa e maldosa:
Só ver o Knox mais uma vez. É só isso, ok? Sem declarações de amor da minha parte, sem desculpas da parte dele.
Tudo o que eu quero é um final que eu possa escolher.
— Depois de hoje à noite — continua Becca, o tom casual, quase de conversa. — Você vai estar completamente fora da vida dele, e tudo vai voltar a ser como deveria ser.
Deixo aquilo pairar por um momento.
— E como é isso?
Ela sorri, lenta e certa.
— O Knox foi meu primeiro amor, lembra, lá no colégio, e eu sempre soube que éramos feitos um para o outro. Você foi um obstáculo, mas no final ia ser eu e ele. Nunca tive nenhuma dúvida.
— Se você diz.
— Pode largar essa p***a de atitude, v***a — ela rosna, como se eu a tivesse contradito. — Estamos quase lá, e ele mesmo vai te contar.
A estrada curva à nossa frente, faróis piscando de repente na vista, fortes demais, perto demais, e Becca franze a testa, o aperto se fechando no volante.
— Que p***a é…
O buzinaço vem primeiro. Depois todo o resto.
O impacto é violento, o som de metal se esmagando para dentro é ensurdecedor. O mundo sai do lugar, meu corpo é lançado para frente enquanto o cinto corta agudo em mim. O vidro estilhaça, espalhando-se como fragmentos de luz, e o carro gira, o movimento desorientador, nauseante e sem fim até…
… tudo para.
Por um momento, não há nada. Nenhum som, nenhum movimento. Só uma quietude pesada e sufocante que pressiona de todos os lados.
Então a dor começa. Não aguda no começo, mas profunda e avassaladora, se espalhando lentamente pelo meu corpo enquanto a consciência volta em pedaços quebrados, meu peito apertando enquanto tento puxar um ar que não chega direito.
— Becca — tento dizer, mas o nome m*l se forma. Fumaça preta enche o ar, densa e ondulante, e eu tosse e engasgo. — Becca!
Não há resposta, e não consigo ver nada. Tudo o que ouço é que, em algum lugar, algo está crepitando, e me vem num jorro de horror paralisante que o carro está pegando fogo.
E então… meus ouvidos se aguçam.
O rugido de motocicletas, se aproximando.
Em segundos, os motores cortam de súbito, botas batem no chão, rápidas e urgentes, e então a voz dele corta o caos, rouca e autoritária de um jeito que sempre carregou autoridade, sempre exigiu atenção.
— Cain! Pega aquele lado! Precisamos arrancar essa p***a de porta!
Knox.
Meu coração falha fraco, algo frágil piscando através de mim apesar de todo o resto, apesar da dor, apesar da forma como meu corpo parece já estar desistindo.
Vozes profundas se levantam ao meu redor agora, sobrepostas e urgentes. Há o som de movimento, de mãos puxando metal, de algo sendo feito, algo sendo consertado.
— Onde ela está? — grita Knox.
Meu peito aperta, e eu tento responder.
Mas…
— Becca! — Knox soa frenético. — Você está bem?
Por só um segundo, a fumaça se abre e eu vejo Knox se esticar para dentro da lataria. A mão grande e forte dele – com a aliança de casamento espelhada no dedo – está puxando a Becca, salvando a Becca.
— Segura firme — diz ele, a voz rouca de urgência, de algo que poderia ter sido medo. — Eu te tenho.
Assisto meu marido puxar Becca para fora, protegendo-a, segurando-a perto, a atenção dele inteiramente fixa nela como se mais nada existisse.
Como se eu não estivesse sentada num veículo em chamas, presa e impotente.
E é aí que eu finalmente, de verdade, entendo tudo sobre o meu casamento, sobre o homem que eu amo.
Knox não está aqui por mim; ele nunca esteve aqui por mim. Becca estava certa: no final, sempre ia ser ela e ele.
Algo dentro de mim se solta agora, não quebrando, não estilhaçando, mas simplesmente… liberando.
Então é assim que termina para mim. Não com fechamento ou vitória. Só com… a verdade. E está tudo bem.
A aceitação chega quieta, sem amargura, sem raiva, e meus olhos se fecham.
Pelo menos eu te vi uma última vez. Eu te amo, Knox.
E então, tudo fica preto.