Knox
Eu não olhei para o lado do passageiro do carro.
Essa é a parte que vai ficar comigo, o detalhe que não muda por mais vezes que eu repasse na cabeça, porque eu estava bem ali.
Enquanto puxava a Becca para fora, estava perto o bastante para sentir as chamas, para cheirar o combustível, e ainda assim, de alguma forma, nunca me passou pela cabeça checar o banco do passageiro.
Becca está nos meus braços, abalada mas consciente, os dedos agarrados na minha colete como se eu fosse a única coisa sólida que restou no mundo.
— Eu te tenho — digo a ela agora, já acompanhando o movimento dos paramédicos, já calculando o quão rápido essa p***a de bagunça vai ser limpa para mim e os meninos voltarmos para o nosso ponto de encontro.
Eles tiram Becca de mim, acomodando ela numa maca, e eu fico perto o suficiente para que ela ainda possa me ver, porque é isso que ela espera.
Não sou bom nessa m***a piegas, mas sei o que fazer para mantê-la feliz. Se ficar por perto a faz calar a boca, significa que as coisas ficam mais simples para mim.
Olho de relance, vejo que o fogo já está praticamente controlado, as chamas apagadas, os primeiros socorristas se movendo com aquele tipo de eficiência em que eu confio. O que sobrou da lataria amassada não me interessa nem um pouco.
Afinal, tudo o que importa para mim está contabilizado e no lugar certo: a minha esposa tímida em casa morrendo de saudade de um pouco da minha atenção, a minha amante inteira e não muito machucada, então a aparência dela ainda está intacta.
Então as vozes ao redor da lataria fumegante mudam… não ficam mais altas. Ficam mais afiadas, de alguma forma.
— Ei, cuidado, cara. Ela está bem presa aí dentro –
Ela.
A palavra prende, só o bastante para puxar a minha atenção.
— As pernas dela estão presas – não mexam nela ainda.
Uma pausa, depois:
— O pulso dela está quase inexistente… estamos perdendo ela!
Inclino a cabeça num pouco de confusão sobre de quem eles estão falando, e então percebo que deve ser o motorista do caminhão que bateu na Becca.
A v***a morrendo não tem nada a ver comigo, e a minha atenção se desvia para meus irmãos do MC, que estão bem ao lado dos bombeiros trabalhando freneticamente na mulher no monte de metal retorcido…. e os meus caras estão encarando bem para c*****o.
— Qual é a parada? — levanto a voz e digo para Cain, meu Vice-Presidente. — Por que vocês estão assistindo uma p***a de uma completa desconhecida bater as botas?
Um olhar passa entre Cain e Bones, rápido e deliberado, e então eles olham para mim.
Nenhum dos dois parece ansioso para falar, e eu sinto o meu temperamento subir.
— O quê? — digo, caminhando até eles. — Qual é o p***a do problema?
— Knox — geme Becca da ambulância. — Knox, eu preciso de você.
— Espera um segundo — digo a ela.
— Knox…
— Cala a p***a da boca! — eu rosno. — Para de ficar –
Um bombeiro se afasta para um lado do carro da Becca agora, e eu consigo ver o bastante da cena lá dentro para congelar o meu sangue e m***r as minhas próximas palavras.
Cabelo longo, cacheado e escuro. Um robe de seda familiar, normalmente rosa-claro e creme, agora encharcado de vermelho vivo.
E um dedo delicado com uma aliança de ouro igual à minha.
Por um segundo, o meu cérebro rejeita de cara toda essa informação, se recusando a conectar o que estou vendo a qualquer coisa real, porque não encaixa.
Simplesmente não pertence a nenhum lugar da versão desta noite que eu entendo. Então as palavras dos paramédicos cortam o zumbido nos meus ouvidos:
— Ela está crítica! Sem sons respiratórios, pulso fraco!
— Tirem ela agora!
Algo frio desliza por mim, cortando o meu transe.
— Quem é essa? — pergunto ao meu Veep. Eu sei que já sei a resposta, mas pareço precisar das palavras ditas em voz alta para mim. — Me diga.
Cain hesita, olha em volta para os irmãos do MC em busca de apoio, mas ninguém encontra o olhar dele. Então ele diz:
— É a Zara, cara.
E tudo aperta pra c*****o. Só se comprime em algo afiado e sufocante enquanto as palavras se acomodam no lugar, conectando pedaços que eu ainda não quero encarar de frente.
— Não — digo imediatamente, porque é muito mais fácil do que ajustar, mais fácil do que deixar a verdade pousar. — Ela não está... por que a Zara estaria...
Mas eles estão puxando ela para fora, e não tem como errar agora. O formato fino das curvas dela. O jeito que o corpo dela não está se sustentando. O sangue cobrindo o estômago.
— Perdemos ela… peguem as pás!
Perdemos ela.
As palavras acertam, mas não do jeito que os homens costumam sentir quando veem a esposa morta na frente deles.
Elas acertam por causa do que ela é, do que ela representa.
A minha esposa é a conexão que mantém as coisas estáveis entre dois clubes de motociclistas: o meu e o da família da Zara. Os nossos clubes não confiam um no outro, mas o Grinning Skulls MC me tolera por causa da Zara, por causa do casamento.
Zara nunca foi difícil, nunca foi barulhenta. Ela só esteve ali. Útil e conveniente e sem exigências.
Mas agora...
— Afastem!
O corpo dela se contorce violentamente com o choque, mas o zumbido constante da linha reta grita no ar da noite.
— De novo! Afastem!
Outro jolt. Ainda nada.
Isso não era para acontecer, não desse jeito. Não de um jeito que tira todo o controle das minhas mãos.
Dou um passo à frente sem pensar, o foco travado na cena, incapaz de ignorar, incapaz de voltar para a distância. Eu entendo completamente agora que essa v***a está escorregando pelos meus dedos, levando tudo com ela enquanto deita no chão frio, o estômago jorrando sangue, em linha reta.
Zara. A minha p***a de alavanca.
De repente há uma pausa no grito monótono, depois um bipe. Outro. E outro.
— Recuperamos o ritmo.
— Coloquem ela na ambulância, agora!
— Temos cerca de dez minutos para levá-la ao hospital –
Eles se movem rápido, levantando ela, prendendo ela, as vozes apertando naquela urgência cortante que significa que as coisas com certeza vão dar errado de novo, e provavelmente mais rápido do que eles conseguem consertar.
Enquanto assisto a ambulância disparar para longe com minha esposa no fundo, eu entendo, com uma certeza fria que se acomoda fundo…
Eu deveria ter olhado para o lado do passageiro do carro.