Capítulo 3

1133 Words
Knox Eu não olhei para o lado do passageiro do carro. Essa é a parte que vai ficar comigo, o detalhe que não muda por mais vezes que eu repasse na cabeça, porque eu estava bem ali. Enquanto puxava a Becca para fora, estava perto o bastante para sentir as chamas, para cheirar o combustível, e ainda assim, de alguma forma, nunca me passou pela cabeça checar o banco do passageiro. Becca está nos meus braços, abalada mas consciente, os dedos agarrados na minha colete como se eu fosse a única coisa sólida que restou no mundo. — Eu te tenho — digo a ela agora, já acompanhando o movimento dos paramédicos, já calculando o quão rápido essa p***a de bagunça vai ser limpa para mim e os meninos voltarmos para o nosso ponto de encontro. Eles tiram Becca de mim, acomodando ela numa maca, e eu fico perto o suficiente para que ela ainda possa me ver, porque é isso que ela espera. Não sou bom nessa m***a piegas, mas sei o que fazer para mantê-la feliz. Se ficar por perto a faz calar a boca, significa que as coisas ficam mais simples para mim. Olho de relance, vejo que o fogo já está praticamente controlado, as chamas apagadas, os primeiros socorristas se movendo com aquele tipo de eficiência em que eu confio. O que sobrou da lataria amassada não me interessa nem um pouco. Afinal, tudo o que importa para mim está contabilizado e no lugar certo: a minha esposa tímida em casa morrendo de saudade de um pouco da minha atenção, a minha amante inteira e não muito machucada, então a aparência dela ainda está intacta. Então as vozes ao redor da lataria fumegante mudam… não ficam mais altas. Ficam mais afiadas, de alguma forma. — Ei, cuidado, cara. Ela está bem presa aí dentro – Ela. A palavra prende, só o bastante para puxar a minha atenção. — As pernas dela estão presas – não mexam nela ainda. Uma pausa, depois: — O pulso dela está quase inexistente… estamos perdendo ela! Inclino a cabeça num pouco de confusão sobre de quem eles estão falando, e então percebo que deve ser o motorista do caminhão que bateu na Becca. A v***a morrendo não tem nada a ver comigo, e a minha atenção se desvia para meus irmãos do MC, que estão bem ao lado dos bombeiros trabalhando freneticamente na mulher no monte de metal retorcido…. e os meus caras estão encarando bem para c*****o. — Qual é a parada? — levanto a voz e digo para Cain, meu Vice-Presidente. — Por que vocês estão assistindo uma p***a de uma completa desconhecida bater as botas? Um olhar passa entre Cain e Bones, rápido e deliberado, e então eles olham para mim. Nenhum dos dois parece ansioso para falar, e eu sinto o meu temperamento subir. — O quê? — digo, caminhando até eles. — Qual é o p***a do problema? — Knox — geme Becca da ambulância. — Knox, eu preciso de você. — Espera um segundo — digo a ela. — Knox… — Cala a p***a da boca! — eu rosno. — Para de ficar – Um bombeiro se afasta para um lado do carro da Becca agora, e eu consigo ver o bastante da cena lá dentro para congelar o meu sangue e m***r as minhas próximas palavras. Cabelo longo, cacheado e escuro. Um robe de seda familiar, normalmente rosa-claro e creme, agora encharcado de vermelho vivo. E um dedo delicado com uma aliança de ouro igual à minha. Por um segundo, o meu cérebro rejeita de cara toda essa informação, se recusando a conectar o que estou vendo a qualquer coisa real, porque não encaixa. Simplesmente não pertence a nenhum lugar da versão desta noite que eu entendo. Então as palavras dos paramédicos cortam o zumbido nos meus ouvidos: — Ela está crítica! Sem sons respiratórios, pulso fraco! — Tirem ela agora! Algo frio desliza por mim, cortando o meu transe. — Quem é essa? — pergunto ao meu Veep. Eu sei que já sei a resposta, mas pareço precisar das palavras ditas em voz alta para mim. — Me diga. Cain hesita, olha em volta para os irmãos do MC em busca de apoio, mas ninguém encontra o olhar dele. Então ele diz: — É a Zara, cara. E tudo aperta pra c*****o. Só se comprime em algo afiado e sufocante enquanto as palavras se acomodam no lugar, conectando pedaços que eu ainda não quero encarar de frente. — Não — digo imediatamente, porque é muito mais fácil do que ajustar, mais fácil do que deixar a verdade pousar. — Ela não está... por que a Zara estaria... Mas eles estão puxando ela para fora, e não tem como errar agora. O formato fino das curvas dela. O jeito que o corpo dela não está se sustentando. O sangue cobrindo o estômago. — Perdemos ela… peguem as pás! Perdemos ela. As palavras acertam, mas não do jeito que os homens costumam sentir quando veem a esposa morta na frente deles. Elas acertam por causa do que ela é, do que ela representa. A minha esposa é a conexão que mantém as coisas estáveis entre dois clubes de motociclistas: o meu e o da família da Zara. Os nossos clubes não confiam um no outro, mas o Grinning Skulls MC me tolera por causa da Zara, por causa do casamento. Zara nunca foi difícil, nunca foi barulhenta. Ela só esteve ali. Útil e conveniente e sem exigências. Mas agora... — Afastem! O corpo dela se contorce violentamente com o choque, mas o zumbido constante da linha reta grita no ar da noite. — De novo! Afastem! Outro jolt. Ainda nada. Isso não era para acontecer, não desse jeito. Não de um jeito que tira todo o controle das minhas mãos. Dou um passo à frente sem pensar, o foco travado na cena, incapaz de ignorar, incapaz de voltar para a distância. Eu entendo completamente agora que essa v***a está escorregando pelos meus dedos, levando tudo com ela enquanto deita no chão frio, o estômago jorrando sangue, em linha reta. Zara. A minha p***a de alavanca. De repente há uma pausa no grito monótono, depois um bipe. Outro. E outro. — Recuperamos o ritmo. — Coloquem ela na ambulância, agora! — Temos cerca de dez minutos para levá-la ao hospital – Eles se movem rápido, levantando ela, prendendo ela, as vozes apertando naquela urgência cortante que significa que as coisas com certeza vão dar errado de novo, e provavelmente mais rápido do que eles conseguem consertar. Enquanto assisto a ambulância disparar para longe com minha esposa no fundo, eu entendo, com uma certeza fria que se acomoda fundo… Eu deveria ter olhado para o lado do passageiro do carro.
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