Capítulo 4

866 Words
Zara Água gelada bate no meu rosto e nos ombros com força suficiente para me arrastar para cima do lugar escuro e quieto em que eu estava à deriva. Por um segundo, não sei onde estou. Só conheço a sensação: água grudada na pele, encharcando o tecido, escorrendo pela garganta em linhas finas e geladas. O meu corpo treme como se lembrasse de algo que eu ainda não alcancei, e percebo que estou espalhada num sofá. Um copo bate com força contra o vidro. — Está acordada agora? — A voz dele corta o zumbido nos meus ouvidos. — Se não, vai pular na p***a da piscina. Knox. Ainda não como o homem que eu mais tarde entenderia que ele era. Não completamente formado na versão dele que não deixa nada intocado pela distância, mas já – já – carregando aquela mesma quietude, aquela mesma ausência, aquela mesma recusa silenciosa em encontrar qualquer coisa que se estenda até ele. A minha respiração prende. Não por causa do frio, mas porque outra coisa está se acomodando no lugar. Isso não está acontecendo. Não agora. Eu já vivi isso. A percepção chega devagar, e quando finalmente olho em volta, realmente olho, a sala se encaixa com uma familiaridade que parece quase c***l: o vaso quebrado espalhado pelo chão, flores esmagadas sob passos descuidados. Almofadas puxadas e encharcadas como se a própria sala tivesse sido pega no meio de algo que nenhum de nós sabia como parar. Eu me lembro deste dia, dois anos atrás. Eu me lembro dele me batendo com força suficiente para me derrubar no sofá. Por quê, porém? Ah. O relógio. Eu quebrei o relógio dele. Foi um erro simples… até o jeito que ele me olhou deixar claro que não era. Não para ele. Na época, eu não entendia por que algo tão pequeno o tinha enfurecido, por que a reação dele parecia desproporcional. Eu soube depois, claro, que tinha sido um presente dela. Becca. Deus, eu lutei no dia em que descobri isso. Levantei a voz, joguei coisas, quebrei o que consegui alcançar, como se barulho e caos pudessem puxar algo dele que o silêncio nunca fez. E ele me bateu com força suficiente para eu desmaiar, e jogou água gelada no meu corpo estendido. Na memória, Knox passa por mim sem me tocar, nem perto o bastante para roçar em mim. Ele se acomoda numa poltrona com aquela mesma facilidade controlada, como se nada naquele momento exigisse mais do que o mínimo da atenção dele. — Para com essa p***a de histeria — diz ele. — O que quer que você ache que isso é – o que quer que esteja tentando transformar nisso – não é real. — Você é meu marido — me ouço dizer. — Estou errada em esperar honestidade de você? E ainda dói ouvir o jeito que eu me agarrava àquela palavra. Como se significasse algo mais do que um título, como se pudesse forçar sentido em algo que não tinha nenhum. — Se você espera qualquer coisa, espera pra c*****o demais — diz ele. — Isso foi um acordo de negócios. Nada mais. Um acordo. A palavra se acomoda mais fundo do que qualquer outra coisa… porque é verdade. Tudo era sobre paz e cooperação entre o clube dele e o do meu pai, então era um arranjo construído sobre necessidade. — Você sabia disso quando concordou — continua ele, o tom inalterado, impassível. — Então para de agir como se fosse outra coisa. — Um ano — digo baixinho, as palavras saindo de mim de um jeito que parece quase distante. — Estamos casados há um ano inteiro. Ele não diz nada; não precisa. — Não dividimos um quarto — continuo. — Você nunca sequer... — Isso não vai mudar — diz ele, simplesmente. — Eu nunca vou te tocar, te beijar. Te f***r. Nunca. E aí está. A verdade que eu me recusei a encarar na época. Mas no agora, consigo sentir a diferença entre quem eu era então e quem sou neste momento. Consigo sentir o jeito que algo dentro de mim não se estende mais até ele na memória, não tenta mais se dobrar em algo que ele pudesse aceitar. Porque eu já sei para onde isso leva. Eu já vivi. De repente, o chão cede sob mim. Não quebrando, não desabando, mas se dissolvendo em algo fluido, algo que sobe para me encontrar enquanto a sala some, enquanto a memória libera o aperto. Mais água. Ela se fecha completamente ao meu redor, quente e sem fim, me segurando de um jeito que não tem nada a ver com a violência que me trouxe até aqui. Por um momento eu simplesmente existo dentro dela, suspensa, sem peso, consciente do jeito que se move sobre a minha pele, pelo meu cabelo, como se estivesse lavando de mim algo que eu não preciso mais carregar. O meu peito aperta, o ar se construindo devagar até o corpo responder, subindo sem hesitação. Empurra-me para cima através da água em direção a algo mais brilhante, algo que espera logo além das ondas. Ar. Luz. Algo novo. Quebro a superfície com uma inalação aguda… completamente acordada. Renascida.
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