Zara
Acordo no hospital uma manhã cerca de seis semanas depois do acidente, e pela primeira vez desde a batida, sinto absolutamente zero dor.
Nenhum puxão nos pontos, nenhuma dor de cabeça, nenhuma câimbra nas articulações. E ao acordar sem dor, entro de cheio numa vida que não reconheço.
De certa forma, a parte mais estranha desta manhã em particular não é a falta de dor física, mas a ausência de outra coisa por completo.
Alguns dias depois do acidente, os médicos me disseram que o dano no abdômen não lhes deixou escolha a não ser me abrir por completo para estancar o sangramento intenso.
Enquanto estavam lá dentro, enquanto o meu corpo ficava exposto e vulnerável de um jeito que eu nunca vou entender, eles removeram o que puderam do câncer que vinha crescendo quieto dentro de mim, algo que eu já tinha começado a aceitar como o fim de tudo.
Antes da batida, eu estava me preparando para morrer. Essa é a verdade. E em vez disso… acordei. Costurada, e me devolveram algo que eu já tinha soltado.
Não me deram certeza, nem mesmo uma promessa de ferro, mas me deram tempo.
Tempo que ainda não sei o que fazer com ele.
Fico deitada aqui por um longo momento, deixando o teto do hospital entrar em foco, deixando a quietude se acomodar ao meu redor sem tentar preenchê-la.
Quando finalmente viro a cabeça, não é porque espero algo diferente, não porque estou esperançosa… mas porque quero ver com clareza.
A cadeira ao lado da minha cama está vazia; sempre está.
E desta vez, não sinto nada a respeito.
Nenhuma decepção quieta se enrolando no peito.
Nenhum pensamento reflexo de que talvez ele só tenha saído, de que talvez se eu esperar tempo suficiente, o Knox volte e se sente aqui, perto o bastante para eu fingir que existe algo entre nós que nunca uma vez sequer se mostrou real.
Há só… nada.
Minha mão se move devagar sobre o cobertor, repousando de leve contra o estômago.
Consigo sentir mesmo através das camadas de bandagem, o lugar onde eles me abriram e tiraram de mim algo que estava me matando, e me pergunto, de longe, se foi ali também que o resto foi embora.
Não só a doença, mas ele. O domínio que ele tinha sobre mim.
O amor quieto e persistente que eu carreguei sem nunca ter sido pedida por ele, sem nunca tê-lo de volta.
Passei o casamento inteiro tentando alcançá-lo.
Vejo tão claramente agora que eu estava parada na frente de uma porta que nunca foi feita para abrir, me convencendo de que se eu só ficasse ali tempo suficiente, o amasse quieto o bastante, me fizesse pequena o bastante para não ameaçar o que quer que fosse que o mantinha trancado, então um dia ele se viraria para mim.
Um dia, ele me veria.
Um dia, ele abriria a porta e me deixaria entrar, me convidaria para a nossa casa, para o nosso casamento.
A percepção de que não sinto mais isso não chega como uma quebra. Parece algo se aliviando.
Como um peso que eu não percebia que carregava sendo pousado tão de leve que quase não noto acontecer.
Porque eu não o quero. Não do jeito que costumava querer.
O meu olhar volta para a cadeira, e pela primeira vez, não vejo o que está faltando.
Em vez disso, vejo espaço. Espaço que não pertence a ele, espaço que não precisa ser preenchido.
E devagar, quieta, algo dentro de mim se solta – não dele, porque não resta mais nada a que se agarrar – mas da versão de mim mesma que continuava parada naquela porta indesejada, esperando e rezando para ser vista como digna, como amável.
Como suficiente.
Me deram outra chance. Não nele… na minha vida.
Em algo que não exige que eu me encolha em algo mais fácil de manter, algo mais quieto, algo que não peça demais.
E esta vida, esta segunda que eu nem pedi, nem sequer esperançei, é valiosa demais para gastar parada do lado de fora de uma p***a de uma porta trancada.
Machucando os nós dos dedos e o coração, enquanto fico ali ano após ano, só batendo e batendo.
Desta vez, baixo a mão. Desta vez, me viro e saio caminhando da porta firmemente fechada.
Desta vez, eu escolho a mim mesma.