Primeiro Mês
— Não acredito que finalmente vou segurá-la! — Cher disse animadamente, passando pela porta direto, m*l olhando para Rebekah.
— “Olá, Bekah. Como está?” — Rebekah ironizou.
— Pelo amor de Deus, dê logo para ela segurar. Não aguento mais ela falando disso o caminho todo! — Raymond disse, depositando um beijo na testa de Rebekah. — Como você está?
— Estou bem, obrigada por se importar — resmungou, encarando a loira.
— Você não é mais a favorita, supera — Cher disse rindo.
Jonathan surgiu do quarto com Kayla nos braços.
— Essa pessoinha que estão esperando? — disse sorrindo.
— Ah, meu Deus! Cadê a coisinha mais linda da titia? — Cher praticamente pulou em cima deles.
— Acho que você quis dizer madrinha — Rebekah comentou casualmente.
O silêncio durou dois segundos.
— O quê? — Cher arregalou os olhos.
— Com certeza Kayla não poderia ter padrinhos melhores — Jonathan completou.
Raymond sorriu como uma criança.
— Agora eu posso segurar minha afilhada?
— Com cuidado — Cher advertiu.
— Se está comigo, está com Deus — respondeu convencido.
Rebekah observava tudo com o coração cheio. Pela primeira vez, sentia que Kayla não chegara ao mundo sozinha.
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Segundo Mês
O carro seguia em direção ao parque.
Cher fazia caretas, Raymond filmava, e Kayla gargalhava no meio dos dois, presa à cadeirinha.
Jonathan dirigia com uma mão no volante e a outra tocando, vez ou outra, a perna de Rebekah.
— Vocês já repararam que parecem uma família de comercial? — Raymond comentou.
Rebekah e Jonathan se entreolharam, rindo.
— Exagero — ela respondeu.
Mas, no fundo, sentiu algo aquecer no peito.
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Terceiro Mês
— Se ela vomitar em você, eu avisei — Jonathan disse.
Raymond levantou Kayla no ar mesmo assim.
— Por você eu faço a barba todo dia.
Kayla respondeu com um arroto seguido de risada.
— Está vendo? — Jonathan provocou.
Mais tarde, Cher reclamava.
— Ele age como solteiro.
— Ele estava dando um fora na garota — Rebekah riu. — Isso é exatamente o oposto.
Cher cruzou os braços.
— Vocês todos defendem ele.
— Porque ele te ama — Rebekah respondeu com firmeza.
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Quarto Mês
Kayla chorava sem parar.
— Eu não sei mais o que fazer — Rebekah murmurou, exausta.
Jonathan entrou com o celular na mão.
— Cher disse que é cólica. Banho morno, massagem.
Funcionou.
Quando Kayla finalmente dormiu, Jonathan ficou observando Rebekah encostar a testa na beirada do berço, cansada.
— Você está indo muito bem — ele disse baixo.
Ela sorriu, com os olhos marejados.
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Quinto mês
Kayla estava deitada no tapete da sala, rodeada de brinquedos coloridos, balbuciando sons sem sentido. Rebekah observava sentada no sofá, enquanto Jonathan tentava, sem sucesso, fazê-la segurar um chocalho.
— pa… la — a bebê murmurou, abrindo um sorriso torto.
Jonathan congelou.
— Você ouviu isso? — perguntou, os olhos arregalados.
— Ouvi o quê? — Rebekah respondeu distraída.
— Ela falou meu nome. — Ele sorriu, completamente bobo. — Foi “Ja… la”. Quase Jonathan.
Rebekah riu.
— Foi “bla-bla”, Jhonny. Não viaja.
— Você é c***l — ele reclamou, voltando a atenção para a menina. — Não liga pra sua mãe, Kayla. Eu sei o que ouvi.
Mesmo rindo, Rebekah sentiu algo estranho no peito.
Não era incômodo.
Era… emoção demais para admitir.
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Sexto Mês
— Você precisa sair um pouco — Cher decretou. — Nem que seja pra tomar um café comigo.
— E a Kayla? — Rebekah perguntou automaticamente.
— Vai sobreviver duas horinhas sem você. — A loira revirou os olhos. — O pai dela está aqui.
Jonathan levantou as sobrancelhas, mas não corrigiu.
Rebekah saiu inquieta. Voltou antes do combinado.
Ao abrir a porta, encontrou Jonathan dormindo no sofá, Kayla deitada sobre o peito dele, ambos respirando no mesmo ritmo.
Ela ficou parada ali por alguns segundos, observando.
Sentiu uma paz estranha.
E um medo ainda maior de perder aquilo.
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Sétimo Mês
Kayla chorava sem parar. Estava quente, inquieta, com os olhinhos marejados.
— Ela está ardendo, Jhonny… — Rebekah disse, à beira do desespero.
Jonathan já estava com o telefone na mão.
— Calma. Eu vou resolver. — Falava com firmeza. — Febre baixa, sete meses, sim… não, ela não tem alergias.
Enquanto ele organizava tudo — remédio, horário, compressas — Rebekah apenas observava.
Pela primeira vez, percebeu que confiava nele mais do que em qualquer outra pessoa no mundo.
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Oitavo Mês
No mercado, uma senhora parou ao lado deles.
— Que bebê linda! — comentou. — E que pai dedicado você é, viu? Raro de se ver.
Jonathan sorriu, sem jeito.
— Obrigado.
— Sua esposa deve ter muito orgulho.
Rebekah sentiu o estômago revirar.
— Eu… — Jonathan começou.
— Ela é a mãe — Rebekah interrompeu rápido demais, o sorriso forçado. — Só isso.
A mulher pediu desculpas e seguiu.
Jonathan a encarou.
— Está tudo bem?
— Claro. — Ela pegou Kayla no colo. — Só achei desnecessário.
Mas o incômodo ficou.
E Rebekah passou o caminho inteiro tentando entender por quê.
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Nono Mês
Kayla se soltou do sofá.
Um passo.
Depois outro.
— Jonathan! — Rebekah gritou.
Ele virou a tempo de ver a menina cambalear e cair sentada no tapete, gargalhando.
— Ela andou… — Rebekah levou a mão à boca, emocionada.
Jonathan filmava tudo, com a voz embargada.
— Você viu isso? — Ele riu. — Ela andou!
Rebekah chorou.
Jonathan a abraçou.
E nenhum dos dois percebeu que demoraram demais para se soltar.
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Décimo Mês
— Papá! — Kayla falou alto, estendendo os braços.
A sala ficou em silêncio.
Cher arregalou os olhos.
Ray tossiu sem graça.
Jonathan não disse nada. Apenas pegou a menina no colo.
Rebekah sentiu o coração acelerar.
— Ela… ela fala isso pra tudo — justificou rápido demais.
— Claro — Jonathan respondeu baixo.
Mas nenhum dos dois acreditou.
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Décimo Primeiro Mês
— Pensei em começar a trabalhar depois do aniversário dela — Rebekah comentou casualmente.
Jonathan parou o que estava fazendo.
— Trabalhar onde?
— Não sei… talvez em outra cidade, se surgir algo bom.
O silêncio foi pesado.
— Você vai levar a Kayla? — ele perguntou, tentando parecer neutro.
— Claro… — Rebekah respondeu, confusa com o tom dele. — Por quê?
Jonathan respirou fundo.
— Nada. — Sorriu fraco. — Só… pensei alto.
Mas naquela noite, ele demorou a dormir.
Pela primeira vez, percebeu que podia perdê-las.
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Décimo Segundo Mês - Um Ano
O apartamento estava decorado de forma simples.
Balões claros, um bolo pequeno e um banner torto: 1 aninho da Kayla.
Kayla batia palmas no tapete enquanto todos se reuniam.
— Parabéns pra você… — cantaram.
Rebekah segurava a filha no colo, emocionada.
Jonathan estava ao seu lado.
Foi então que sentiu.
O arrepio.
Levantou o olhar.
Parada próxima à porta, sem dizer nada, estava Lilian.
Observando.
Fria.
Silenciosa.
Seu olhar percorreu tudo: Kayla, Jonathan, a casa.
Por um instante, os olhos das duas se encontraram.
Rebekah sentiu o coração acelerar.
Lilian desviou o olhar.
Virou-se.
E foi embora.
— Bekah? — Jonathan chamou.
Ela respirou fundo.
— Estou bem.
Mas sabia.
Aquele primeiro ano havia sido apenas o começo.
E o passado acabara de lembrar que ainda estava ali.