Capítulo XVIII

1294 Words
Primeiro Mês — Não acredito que finalmente vou segurá-la! — Cher disse animadamente, passando pela porta direto, m*l olhando para Rebekah. — “Olá, Bekah. Como está?” — Rebekah ironizou. — Pelo amor de Deus, dê logo para ela segurar. Não aguento mais ela falando disso o caminho todo! — Raymond disse, depositando um beijo na testa de Rebekah. — Como você está? — Estou bem, obrigada por se importar — resmungou, encarando a loira. — Você não é mais a favorita, supera — Cher disse rindo. Jonathan surgiu do quarto com Kayla nos braços. — Essa pessoinha que estão esperando? — disse sorrindo. — Ah, meu Deus! Cadê a coisinha mais linda da titia? — Cher praticamente pulou em cima deles. — Acho que você quis dizer madrinha — Rebekah comentou casualmente. O silêncio durou dois segundos. — O quê? — Cher arregalou os olhos. — Com certeza Kayla não poderia ter padrinhos melhores — Jonathan completou. Raymond sorriu como uma criança. — Agora eu posso segurar minha afilhada? — Com cuidado — Cher advertiu. — Se está comigo, está com Deus — respondeu convencido. Rebekah observava tudo com o coração cheio. Pela primeira vez, sentia que Kayla não chegara ao mundo sozinha. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Segundo Mês O carro seguia em direção ao parque. Cher fazia caretas, Raymond filmava, e Kayla gargalhava no meio dos dois, presa à cadeirinha. Jonathan dirigia com uma mão no volante e a outra tocando, vez ou outra, a perna de Rebekah. — Vocês já repararam que parecem uma família de comercial? — Raymond comentou. Rebekah e Jonathan se entreolharam, rindo. — Exagero — ela respondeu. Mas, no fundo, sentiu algo aquecer no peito. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Terceiro Mês — Se ela vomitar em você, eu avisei — Jonathan disse. Raymond levantou Kayla no ar mesmo assim. — Por você eu faço a barba todo dia. Kayla respondeu com um arroto seguido de risada. — Está vendo? — Jonathan provocou. Mais tarde, Cher reclamava. — Ele age como solteiro. — Ele estava dando um fora na garota — Rebekah riu. — Isso é exatamente o oposto. Cher cruzou os braços. — Vocês todos defendem ele. — Porque ele te ama — Rebekah respondeu com firmeza. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Quarto Mês Kayla chorava sem parar. — Eu não sei mais o que fazer — Rebekah murmurou, exausta. Jonathan entrou com o celular na mão. — Cher disse que é cólica. Banho morno, massagem. Funcionou. Quando Kayla finalmente dormiu, Jonathan ficou observando Rebekah encostar a testa na beirada do berço, cansada. — Você está indo muito bem — ele disse baixo. Ela sorriu, com os olhos marejados. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Quinto mês Kayla estava deitada no tapete da sala, rodeada de brinquedos coloridos, balbuciando sons sem sentido. Rebekah observava sentada no sofá, enquanto Jonathan tentava, sem sucesso, fazê-la segurar um chocalho. — pa… la — a bebê murmurou, abrindo um sorriso torto. Jonathan congelou. — Você ouviu isso? — perguntou, os olhos arregalados. — Ouvi o quê? — Rebekah respondeu distraída. — Ela falou meu nome. — Ele sorriu, completamente bobo. — Foi “Ja… la”. Quase Jonathan. Rebekah riu. — Foi “bla-bla”, Jhonny. Não viaja. — Você é c***l — ele reclamou, voltando a atenção para a menina. — Não liga pra sua mãe, Kayla. Eu sei o que ouvi. Mesmo rindo, Rebekah sentiu algo estranho no peito. Não era incômodo. Era… emoção demais para admitir. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Sexto Mês — Você precisa sair um pouco — Cher decretou. — Nem que seja pra tomar um café comigo. — E a Kayla? — Rebekah perguntou automaticamente. — Vai sobreviver duas horinhas sem você. — A loira revirou os olhos. — O pai dela está aqui. Jonathan levantou as sobrancelhas, mas não corrigiu. Rebekah saiu inquieta. Voltou antes do combinado. Ao abrir a porta, encontrou Jonathan dormindo no sofá, Kayla deitada sobre o peito dele, ambos respirando no mesmo ritmo. Ela ficou parada ali por alguns segundos, observando. Sentiu uma paz estranha. E um medo ainda maior de perder aquilo. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Sétimo Mês Kayla chorava sem parar. Estava quente, inquieta, com os olhinhos marejados. — Ela está ardendo, Jhonny… — Rebekah disse, à beira do desespero. Jonathan já estava com o telefone na mão. — Calma. Eu vou resolver. — Falava com firmeza. — Febre baixa, sete meses, sim… não, ela não tem alergias. Enquanto ele organizava tudo — remédio, horário, compressas — Rebekah apenas observava. Pela primeira vez, percebeu que confiava nele mais do que em qualquer outra pessoa no mundo. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Oitavo Mês No mercado, uma senhora parou ao lado deles. — Que bebê linda! — comentou. — E que pai dedicado você é, viu? Raro de se ver. Jonathan sorriu, sem jeito. — Obrigado. — Sua esposa deve ter muito orgulho. Rebekah sentiu o estômago revirar. — Eu… — Jonathan começou. — Ela é a mãe — Rebekah interrompeu rápido demais, o sorriso forçado. — Só isso. A mulher pediu desculpas e seguiu. Jonathan a encarou. — Está tudo bem? — Claro. — Ela pegou Kayla no colo. — Só achei desnecessário. Mas o incômodo ficou. E Rebekah passou o caminho inteiro tentando entender por quê. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Nono Mês Kayla se soltou do sofá. Um passo. Depois outro. — Jonathan! — Rebekah gritou. Ele virou a tempo de ver a menina cambalear e cair sentada no tapete, gargalhando. — Ela andou… — Rebekah levou a mão à boca, emocionada. Jonathan filmava tudo, com a voz embargada. — Você viu isso? — Ele riu. — Ela andou! Rebekah chorou. Jonathan a abraçou. E nenhum dos dois percebeu que demoraram demais para se soltar. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Décimo Mês — Papá! — Kayla falou alto, estendendo os braços. A sala ficou em silêncio. Cher arregalou os olhos. Ray tossiu sem graça. Jonathan não disse nada. Apenas pegou a menina no colo. Rebekah sentiu o coração acelerar. — Ela… ela fala isso pra tudo — justificou rápido demais. — Claro — Jonathan respondeu baixo. Mas nenhum dos dois acreditou. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Décimo Primeiro Mês — Pensei em começar a trabalhar depois do aniversário dela — Rebekah comentou casualmente. Jonathan parou o que estava fazendo. — Trabalhar onde? — Não sei… talvez em outra cidade, se surgir algo bom. O silêncio foi pesado. — Você vai levar a Kayla? — ele perguntou, tentando parecer neutro. — Claro… — Rebekah respondeu, confusa com o tom dele. — Por quê? Jonathan respirou fundo. — Nada. — Sorriu fraco. — Só… pensei alto. Mas naquela noite, ele demorou a dormir. Pela primeira vez, percebeu que podia perdê-las. ∴ ════ ∴ ❈ ∴ ════ ∴ Décimo Segundo Mês - Um Ano O apartamento estava decorado de forma simples. Balões claros, um bolo pequeno e um banner torto: 1 aninho da Kayla. Kayla batia palmas no tapete enquanto todos se reuniam. — Parabéns pra você… — cantaram. Rebekah segurava a filha no colo, emocionada. Jonathan estava ao seu lado. Foi então que sentiu. O arrepio. Levantou o olhar. Parada próxima à porta, sem dizer nada, estava Lilian. Observando. Fria. Silenciosa. Seu olhar percorreu tudo: Kayla, Jonathan, a casa. Por um instante, os olhos das duas se encontraram. Rebekah sentiu o coração acelerar. Lilian desviou o olhar. Virou-se. E foi embora. — Bekah? — Jonathan chamou. Ela respirou fundo. — Estou bem. Mas sabia. Aquele primeiro ano havia sido apenas o começo. E o passado acabara de lembrar que ainda estava ali.
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