Capítulo II

1536 Words
Era de manhã quando alguém começou a bater na porta. Rebekah se virou na cama, puxando o travesseiro sobre a cabeça. — Já vou… — resmungou, a voz abafada. As batidas continuaram, insistentes demais para serem ignoradas. Ela bufou, jogou as pernas para fora da cama e caminhou até a porta, arrastando os pés. — O que foi agora? — perguntou irritada ao abrir. Angelita sorriu do outro lado, como se aquela fosse a melhor parte do dia. — Bom dia, flor do dia! Antes que Rebekah pudesse responder, a mulher entrou no quarto e abriu as cortinas com rapidez. A luz invadiu o ambiente, obrigando a loira a fechar os olhos. — Ah, não… — resmungou, tateando a cabeceira até encontrar o celular. — São… — destravou a tela e arregalou os olhos. — Meio-dia?! Pelo amor de Deus, Angelita! — Não se preocupe, pequena Bekah. Hoje você não tem aula. Rebekah apenas resmungou algo ininteligível e foi para o banheiro. Jogou água no rosto, tentando espantar o sono e o mau humor. Vestiu qualquer coisa e desceu as escadas ainda emburrada. Angelita estava na cozinha, concentrada em uma lista escrita à mão. — A senhorita quer algo específico do mercado? — perguntou, sem erguer os olhos. — O de sempre… peixe frito e batata. O mau humor deu lugar a um pequeno sorriso involuntário. Era impossível não se animar com aquilo. Era seu prato favorito. — Vai querer cereal? — Sempre. Angelita largou a lista e começou a preparar o café da manhã. Encheu a tigela com cereal e despejou o leite gelado por cima. Rebekah se sentou e começou a comer, sentindo o estômago reclamar baixinho, não de fome, mas de costume. — E então… — Angelita apoiou o cotovelo na bancada. — Como vai sua paixonite? — Que paixonite? — Rebekah engasgou, levando a mão à boca enquanto tossia. — O menino Jonathan. — Ele não é minha paixonite! — exclamou, recuperando o fôlego. — Claro… entendo — respondeu Angelita, divertida. — Ele está bem… eu acho. Angelita saiu para o mercado pouco depois, e Rebekah agradeceu mentalmente pelo assunto ter morrido ali. Jonathan era seu melhor amigo. Um irmão. Qualquer coisa além disso parecia errada, perigosa. Estragar aquela relação era algo que ela não saberia consertar depois. Que isso nunca aconteça, pensou, balançando a cabeça. Deitou-se no sofá e ligou a televisão, deixando o som baixo. O cansaço venceu rápido. — Rebekah! A voz ecoou distante. — Rebekah, acorda! — Deixa a menina dormir… — disse uma voz feminina. — Não, ela vai acordar. Rebekah! Ela despertou num susto, sentando-se rapidamente no sofá, com o coração acelerado. — Olha aí, não disse que ela ia acordar… Jonathan e Raymond estavam à sua frente. Próxima à porta, uma garota loira observava a cena com um sorriso tímido. — Eu tentei impedir — Angelita apareceu, esfregando as mãos no avental. — Mas você sabe como esses meninos são… — O que vocês estão fazendo aqui? — Bekah perguntou, ainda tentando se situar. — Hoje é sábado! — Jonathan respondeu, como se aquilo explicasse tudo. — Fugimos do campus pra te ver — Ray completou animado. — E trouxe alguém para você conhecer. Bekah, essa é a Cher. — Oi! Os meninos falam muito de você — disse a garota, se aproximando. — Eles também falam de você. Angelita pigarreou. — Todos vão almoçar? — Jantar! — Ray corrigiu. — Já passou das três. Estou com saudade da sua comida, Angelita. — Uma das coisas que mais sinto falta — Jonathan concordou. — Já ouviu a resposta. Pode pôr a mesa — Bekah piscou para a mulher. Conversaram por horas. Era como se Cher sempre tivesse estado ali. A conexão foi imediata, leve. Amizades assim eram raras, mas quando aconteciam, pareciam certas. Quando Angelita chamou para comer, Ray arregalou os olhos. — Peixe frito e batata! Angelita, eu te amo. — Não seria diferente se fosse só a Bekah em casa — Jonathan riu. — Quando vocês voltam? — Bekah perguntou, depois de um gole de suco. — Amanhã à noite. — Tão rápido… — Foi possível perceber a tristeza na voz de Bekah. Jonathan tocou de leve sua mão por baixo da mesa. — Logo você estará conosco. — E eu finalmente terei companhia feminina entre os ogros — Cher brincou. — Como aguentou por tanto tempo? — Sempre me pergunto isso. Riram. O tempo passou rápido demais. — Ei, vamos acordar cedo para correr amanhã? — Ray sugeriu e todos olharam incrédulos para ele. — Só pode ser brincadeira… amanhã é domingo, Ray. Tenha dó. — Não custa nada tentar, não é mesmo? Sedentários… — Comam logo, está quase na hora da minha programação favorita. E vocês sabem que eu não perco um programa sequer. — Ah, não! — Resmungou Jonathan. — Só hoje, deixa isso para lá. — Qual programa? — Keeping Up with the Kardashians. — Responderam, Jonathan e Ray, em uníssono. — Ah, eu amo também. — Não, para! Duas eu não aguento! — Jonathan não escondeu sua frustração, fazendo as meninas pensarem no que dizer a seguir. Rebekah e Cher estavam sentadas no sofá, aguardando o começo da programação. — Ei, conta mais sobre seus amigos. — Perguntou Cher para Rebekah. — Eles já me contaram, mas cada um tem sua versão, imagino que também tenha a sua. — Ah, o que quer saber? — Como se conheceram? — Bom… Jonathan e eu nos conhecemos há uns cinco anos, em um parquinho. E conheci Raymond na escola, eles eram amigos e consequentemente nos aproximamos. — Vocês já tiveram algo? — Indagou a menina curiosa, fazendo Bekah recuar um pouco na resposta. — Calma, é só uma pergunta. — Cher riu. — Claro que não, sua maluca! — Respondeu, rindo. — O que te faz pensar isso? — Por quê, sua boba? Eles são bem gatos, e o Jonathan parece ser afim de você. — Falou com um sorriso. — Quando eu estava no high school sempre ia a festas e tudo mais, e sempre rolava todo tipo de pegação possível. Quando chegava o outro dia, a gente fingia que nada havia acontecido. Por isso a pergunta. E vocês parecem ser bem íntimos. — O Jonathan? — A loira fez uma leve careta. — Somos como irmãos. — Sério que só prestou atenção nisso? — Olá, garotas! O alimento chegou e não estou falando de mim. Embora eu seja bastante comestível, aliás, se for para a Cher, estou mesmo falando sobre mim. — Raymond entrou na sala, juntamente com Jonathan, cortando todo o assunto das meninas, e fazendo todos rirem de sua fala. — Eu não acredito que fui obrigado a escutar isso. — Jonathan disse com desdém, seguindo o caminho de volta para a cozinha. Logo chegou a hora de se despedir dos meninos. Eles voltariam para o campus da universidade, e Bekah voltaria ao mundo real. — Não demorem tanto a voltar. — Bekah abraçou os meninos. — Cuida deles por mim. — Abraçou Cher. — Relaxa, quando menos esperar estaremos de volta. — Ray piscou para ela, entrando no carro. — Vai correr amanhã? — Com certeza não! — Preguiçosa! — Jonathan riu da garota. — Te odeio. — A loira mostrou a língua, rindo. — Sou um amor, eu sei. Até mais, Bekah. — Até mais, meus amores. Foi difícil segurar as lágrimas que logo apareceram no canto de seus olhos e ameaçaram embarcar sua visão. Bekah era apegada aos meninos, e muito. Apenas ela sabia como era ter que se despedir todas as vezes que eles se encontravam. A dor era sempre a mesma, e a sensação de não saber quando os veria novamente continuava presente. Por mais que eles estivessem seguros na Universidade e Rebekah em sua rotina, estarem longe um do outro era o bastante para fazê-la sentir que só descansaria quando os visse ao seu lado. Poderiam se proteger juntos assim, pelo menos era o que ela queria. De volta à casa, decidiu sair. — Vou comer algo na rua — avisou Angelita. Caminhou até o Burger King, tentando afastar a sensação de vazio. Sentou-se mexendo no celular quando alguém ocupou a cadeira à sua frente. Joseph Kingsley. — Joseph… — murmurou. — Rebekah Davenport — ele sorriu de lado. Ela respirou fundo. Não agora. — O que você quer? — Me desculpar. Ela riu, sem humor. — E a sua plateia? — Não tem plateia. Eu pensei muito… eu não sou assim. Não de verdade. O olhar dele não tinha deboche. Tinha arrependimento. — Tudo bem — ela disse após um instante. — Só faça diferente. — Joey — ele se apresentou. — Bekah. — Ela estendeu sua mão para ele, em forma de cumprimento. O atendente chamou a moça pelo balcão de mármore, mas antes que ela se levantasse pensou em fazer Joseph se sentir mais à vontade. O clima tenso era sempre a pior parte de uma situação r**m, seja ela presente ou passado. O atendente chamou seu pedido. — Vai comer algo? — ela perguntou. — Vou sim. Posso continuar aqui com você, Bex? — Claro, Joey. — A garota lançou uma piscadela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD