Capítulo IV

942 Words
— Ei, o que vai fazer hoje, Bex? — Joseph perguntou, apressando o passo para alcançá-la. — Como é? — ela respondeu, ainda andando. — Pensei que a gente podia comer alguma coisa mais tarde… sei lá. Se conhecer melhor. Bekah parou por um instante, o suficiente para processar a ideia. Então voltou a caminhar, abrindo um sorriso leve para o rapaz ao seu lado. — Hoje acho que não vai dar. O dia está bonito demais. Vou ao parque. — Posso ir? — Você não vai gostar… — Vai fazer o quê lá? — perguntou, curioso. — Fotos. O entusiasmo escapou na voz dela antes mesmo que percebesse. Fotografar sempre fora mais do que um hobby; era refúgio, memória, identidade. — Eu adoro fotos — Joey disse, animado. — Vou também. Me manda mensagem dizendo qual parque. — Eu não tenho seu número. — Mas eu tenho o seu, Bex — respondeu, piscando antes de se afastar. Rebekah chegou à calçada da escola e encontrou o carro já à sua espera. Cumprimentou Charles e seguiu o caminho para casa em silêncio, observando a paisagem pela janela como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos. Em casa, tomou um banho demorado, deixou a água quente escorrer pelas costas, como se pudesse levar consigo o excesso de ideias. Vestiu-se com cuidado, separou a câmera e, quando terminava de se arrumar, o celular vibrou. Era Joseph. Foi impossível não rir. “Agora não tem desculpas. xx JK” “Ok! Está salvo. Me encontre em 30 minutos, no parque principal!!” Bloqueou a tela e colocou o celular sobre a penteadeira. Conferiu a câmera mais uma vez, pegou a bolsa e desceu. Angelita conversava com o jardineiro e interrompeu-se ao vê-la. — Menina Bekah, a mesa do café está pronta. Sem discutir, foi até a sala de jantar. A mesa estava impecável, como sempre. Serviu-se de suco de framboesa e algumas torradas, comeu rápido e avisou que iria ao parque. O parque estava cheio. Vida em movimento. Bekah sentou-se em um dos bancos e logo começou a fotografar. Pessoas distraídas, crianças correndo, casais conversando, cachorros puxando as coleiras. Cada clique era quase automático. Estava tão imersa que não percebeu Joey se aproximando. — Diga “xis”, Bex. Ela ergueu o olhar. Joey imitava uma câmera com as mãos, rindo. Bekah sorriu, posando de brincadeira. — Você veio mesmo. — Já faz uns minutos que estou te observando — ele confessou. — Dá pra ver de longe o quanto você ama isso. Tem… uma aura. Ela piscou, surpresa. — Uau. Ninguém nunca disse isso. — Então devia dizer. — Ele deu de ombros. — Eu amo fotografar — admitiu. — É tipo… minha paixão. — De onde surgiu isso? — Do meu pai. — O sorriso dela ficou mais suave. — Ele dizia que fotos guardavam memórias de um jeito que nada mais conseguia. O último presente que me deu foi uma câmera. Disse que eu tinha olhos melhores que os dele. Eu tinha cinco anos. Joey a observava em silêncio, atento de um jeito diferente. — Espero que me deixe ver seu trabalho um dia. — Quero ter um estúdio — ela continuou, animada. — Não só meu. Um lugar para outros artistas também. Um espaço pra criar. — Parece incrível. — Por enquanto é só uma ideia. — Você ainda é nova. Vai realizar isso — disse, piscando. Bekah olhou as fotos no visor da câmera e, impulsivamente, apontou para ele. — Ei! Clique. — Vou querer direitos autorais — brincou. — Não se preocupe. Não vou expor. A tarde passou rápido demais. Entre risadas e fotos, Bekah se surpreendeu com o quanto estava confortável. Joey era diferente do que ela conhecia. Talvez sempre tivesse sido, só nunca tivera paciência para enxergar. Quando perceberam, já passava das sete. — Vamos comer alguma coisa? — ele sugeriu. Acabaram no BK, sentados, conversando como se o tempo não importasse. Bekah já nem se incomodava com a falação de Joey. Estava… gostando. — Ei, King. Os dois se viraram ao mesmo tempo. O garoto novo estava parado ao lado da mesa. — Julian — Joey cumprimentou, fazendo um toque de mãos. — Essa é a Rebekah. — Conheço. Matemática. Espero que não seja a única aula juntos. — Julian sorriu diretamente para ela. Bekah sentiu o rosto esquentar. — Senta aí — Joey indicou a cadeira. Julian sentou-se ao lado dela, perto demais para ser coincidência. Durante a conversa, Bekah percebeu os olhares, as cantadas discretas, a atenção constante. — Já está tarde — ela disse, por fim. — Vou indo. — Eu te acompanho — Joey se apressou. — Não vou deixar você ir sozinha. — Vocês vão pra que lado? — Julian perguntou, já do lado de fora. — Esquerda. — Uma pena — ele sorriu para Bekah. — A gente se vê amanhã. No caminho, Joey riu. — Eu sabia que era você a garota que ele havia me perguntado. — Cala a boca. — Sua casa é aquela? Joey parou, encarando o portão. Não acreditava que a menina morasse em uma casa tão grande. Ao olhar para dentro do portão, notou um homem uniformizado guardando um carro. — Você tem motorista? — Qual a surpresa? — Acho que eu nunca reparei. — Ele me busca todo dia, Joey. — É… acho que nunca prestei atenção. — Obrigada por me acompanhar. — De nada, Bex. Ele ficou ali por um instante a mais do que o necessário, como se quisesse dizer algo. Mas apenas sorriu e se afastou. E, pela primeira vez, Rebekah percebeu que algumas coisas estavam começando a mudar.
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