— Ei, o que vai fazer hoje, Bex? — Joseph perguntou, apressando o passo para alcançá-la.
— Como é? — ela respondeu, ainda andando.
— Pensei que a gente podia comer alguma coisa mais tarde… sei lá. Se conhecer melhor.
Bekah parou por um instante, o suficiente para processar a ideia. Então voltou a caminhar, abrindo um sorriso leve para o rapaz ao seu lado.
— Hoje acho que não vai dar. O dia está bonito demais. Vou ao parque.
— Posso ir?
— Você não vai gostar…
— Vai fazer o quê lá? — perguntou, curioso.
— Fotos.
O entusiasmo escapou na voz dela antes mesmo que percebesse. Fotografar sempre fora mais do que um hobby; era refúgio, memória, identidade.
— Eu adoro fotos — Joey disse, animado. — Vou também. Me manda mensagem dizendo qual parque.
— Eu não tenho seu número.
— Mas eu tenho o seu, Bex — respondeu, piscando antes de se afastar.
Rebekah chegou à calçada da escola e encontrou o carro já à sua espera. Cumprimentou Charles e seguiu o caminho para casa em silêncio, observando a paisagem pela janela como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos.
Em casa, tomou um banho demorado, deixou a água quente escorrer pelas costas, como se pudesse levar consigo o excesso de ideias. Vestiu-se com cuidado, separou a câmera e, quando terminava de se arrumar, o celular vibrou.
Era Joseph.
Foi impossível não rir.
“Agora não tem desculpas. xx JK”
“Ok! Está salvo. Me encontre em 30 minutos, no parque principal!!”
Bloqueou a tela e colocou o celular sobre a penteadeira. Conferiu a câmera mais uma vez, pegou a bolsa e desceu. Angelita conversava com o jardineiro e interrompeu-se ao vê-la.
— Menina Bekah, a mesa do café está pronta.
Sem discutir, foi até a sala de jantar. A mesa estava impecável, como sempre. Serviu-se de suco de framboesa e algumas torradas, comeu rápido e avisou que iria ao parque.
O parque estava cheio. Vida em movimento. Bekah sentou-se em um dos bancos e logo começou a fotografar. Pessoas distraídas, crianças correndo, casais conversando, cachorros puxando as coleiras. Cada clique era quase automático.
Estava tão imersa que não percebeu Joey se aproximando.
— Diga “xis”, Bex.
Ela ergueu o olhar. Joey imitava uma câmera com as mãos, rindo. Bekah sorriu, posando de brincadeira.
— Você veio mesmo.
— Já faz uns minutos que estou te observando — ele confessou. — Dá pra ver de longe o quanto você ama isso. Tem… uma aura.
Ela piscou, surpresa.
— Uau. Ninguém nunca disse isso.
— Então devia dizer. — Ele deu de ombros.
— Eu amo fotografar — admitiu. — É tipo… minha paixão.
— De onde surgiu isso?
— Do meu pai. — O sorriso dela ficou mais suave. — Ele dizia que fotos guardavam memórias de um jeito que nada mais conseguia. O último presente que me deu foi uma câmera. Disse que eu tinha olhos melhores que os dele. Eu tinha cinco anos.
Joey a observava em silêncio, atento de um jeito diferente.
— Espero que me deixe ver seu trabalho um dia.
— Quero ter um estúdio — ela continuou, animada. — Não só meu. Um lugar para outros artistas também. Um espaço pra criar.
— Parece incrível.
— Por enquanto é só uma ideia.
— Você ainda é nova. Vai realizar isso — disse, piscando.
Bekah olhou as fotos no visor da câmera e, impulsivamente, apontou para ele.
— Ei!
Clique.
— Vou querer direitos autorais — brincou.
— Não se preocupe. Não vou expor.
A tarde passou rápido demais. Entre risadas e fotos, Bekah se surpreendeu com o quanto estava confortável. Joey era diferente do que ela conhecia. Talvez sempre tivesse sido, só nunca tivera paciência para enxergar.
Quando perceberam, já passava das sete.
— Vamos comer alguma coisa? — ele sugeriu.
Acabaram no BK, sentados, conversando como se o tempo não importasse. Bekah já nem se incomodava com a falação de Joey. Estava… gostando.
— Ei, King.
Os dois se viraram ao mesmo tempo. O garoto novo estava parado ao lado da mesa.
— Julian — Joey cumprimentou, fazendo um toque de mãos. — Essa é a Rebekah.
— Conheço. Matemática. Espero que não seja a única aula juntos. — Julian sorriu diretamente para ela.
Bekah sentiu o rosto esquentar.
— Senta aí — Joey indicou a cadeira.
Julian sentou-se ao lado dela, perto demais para ser coincidência. Durante a conversa, Bekah percebeu os olhares, as cantadas discretas, a atenção constante.
— Já está tarde — ela disse, por fim. — Vou indo.
— Eu te acompanho — Joey se apressou. — Não vou deixar você ir sozinha.
— Vocês vão pra que lado? — Julian perguntou, já do lado de fora.
— Esquerda.
— Uma pena — ele sorriu para Bekah. — A gente se vê amanhã.
No caminho, Joey riu.
— Eu sabia que era você a garota que ele havia me perguntado.
— Cala a boca.
— Sua casa é aquela?
Joey parou, encarando o portão. Não acreditava que a menina morasse em uma casa tão grande. Ao olhar para dentro do portão, notou um homem uniformizado guardando um carro.
— Você tem motorista?
— Qual a surpresa?
— Acho que eu nunca reparei.
— Ele me busca todo dia, Joey.
— É… acho que nunca prestei atenção.
— Obrigada por me acompanhar.
— De nada, Bex.
Ele ficou ali por um instante a mais do que o necessário, como se quisesse dizer algo. Mas apenas sorriu e se afastou.
E, pela primeira vez, Rebekah percebeu que algumas coisas estavam começando a mudar.