Capítulo XXII

657 Words
Rebekah percebeu primeiro. Não foi uma frase dita fora de tom, nem um gesto exagerado. Foi a sensação. Aquela mesma sensação antiga, incômoda, que fazia sua nuca arrepiar sem motivo aparente. Como se estivesse sendo observada. Ela tentou ignorar. — Kayla, não corre assim — advertiu, enquanto a menina atravessava a calçada pulando em poças imaginárias. Jonathan caminhava ao lado delas, segurando duas sacolas de mercado, atento a cada movimento da filha. — Deixa, Bekah. Ela só está animada. Kayla parou de repente. — Mamãe… — disse em voz baixa. — O que foi, amor? A menina apontou para o outro lado da rua. — Aquela moça tá olhando pra mim. Rebekah sentiu o estômago revirar. Do outro lado, parada próxima a uma vitrine, estava Lilian. Mais magra. Mais arrumada. Os cabelos presos de forma elegante. Usava roupas discretas, maquiagem leve. Se não fosse pelos olhos — frios demais, atentos demais — talvez Rebekah não a reconhecesse de imediato. Os olhares se cruzaram. Lilian sorriu. — Jonathan… — Rebekah murmurou, sentindo a mão dele se fechar em seu braço. — Eu vi — respondeu baixo. Kayla observava curiosa, sem entender. — Aquela moça é quem? Antes que Rebekah pudesse responder, Lilian atravessou a rua com passos calmos, como se aquele encontro tivesse sido ensaiado. — Rebekah — disse, a voz suave demais para ser sincera. — Quanto tempo. O silêncio se instalou. — O que você quer? — Rebekah perguntou, direta. Lilian desviou o olhar para Kayla, e seus olhos brilharam de forma estranha. — Então… essa é a minha neta. Jonathan deu um passo à frente. — Não use esse termo como se tivesse esse direito. Lilian ergueu as mãos em rendição. — Não vim brigar. Vim… tentar fazer diferente. Rebekah riu, sem humor. — Diferente como? Sumindo por anos e aparecendo do nada no meio da rua? — Eu precisei de tempo — Lilian respondeu. — Para pensar. Para mudar. — Pessoas como você não mudam — Jonathan rebateu. Kayla apertou a mão da mãe. — Mamãe, eu não gosto dela. O sorriso de Lilian vacilou por um segundo. — Ela é muito esperta — comentou. — Puxa a você, Rebekah. — Não fale comigo como se me conhecesse — Rebekah disse, sentindo a raiva crescer. — Você não faz parte da minha vida. Nem da vida dela. — Talvez não ainda — Lilian respondeu, com calma demais. — Mas eu gostaria de tentar. — Não — Jonathan disse firme. — Isso não vai acontecer. Lilian suspirou. — Eu sei que não confiam em mim. E não espero que confiem agora. Só… me deixem provar que posso ser melhor. — Você já teve sua chance — Rebekah respondeu. — Várias. — E perdi todas — Lilian admitiu. — Mas não quero morrer sozinha sabendo que tenho uma família que nunca me conheceu de verdade. Houve um silêncio pesado. Kayla se escondeu atrás da perna da mãe. — Vamos embora — Rebekah disse, sem hesitar. Lilian assentiu. — Eu vou estar por perto — avisou. — Quando quiserem conversar… sabem onde me encontrar. — Não volte a se aproximar da minha filha — Jonathan alertou. — Isso não é um pedido. Lilian o encarou por alguns segundos, avaliando-o. — Você se tornou exatamente o tipo de homem que eu sempre temi — disse, antes de se afastar. — Alguém que não posso controlar. Ela se afastou, misturando-se às pessoas da rua. Rebekah só percebeu que estava tremendo quando Jonathan segurou seu rosto. — Ei… acabou. Ela foi embora. — Por enquanto — murmurou. Kayla puxou a blusa da mãe. — Mamãe… ela vai voltar? Rebekah respirou fundo, abraçando a filha. — Não se preocupe, meu amor. A mamãe e o papai estão aqui. Jonathan apertou as duas contra o peito. Mas, enquanto caminhavam de volta para casa, Rebekah tinha certeza de uma coisa: Lilian não tinha reaparecido por acaso. E aquela aproximação era apenas o começo.
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