Rebekah percebeu primeiro.
Não foi uma frase dita fora de tom, nem um gesto exagerado. Foi a sensação. Aquela mesma sensação antiga, incômoda, que fazia sua nuca arrepiar sem motivo aparente. Como se estivesse sendo observada.
Ela tentou ignorar.
— Kayla, não corre assim — advertiu, enquanto a menina atravessava a calçada pulando em poças imaginárias.
Jonathan caminhava ao lado delas, segurando duas sacolas de mercado, atento a cada movimento da filha.
— Deixa, Bekah. Ela só está animada.
Kayla parou de repente.
— Mamãe… — disse em voz baixa.
— O que foi, amor?
A menina apontou para o outro lado da rua.
— Aquela moça tá olhando pra mim.
Rebekah sentiu o estômago revirar.
Do outro lado, parada próxima a uma vitrine, estava Lilian.
Mais magra. Mais arrumada. Os cabelos presos de forma elegante. Usava roupas discretas, maquiagem leve. Se não fosse pelos olhos — frios demais, atentos demais — talvez Rebekah não a reconhecesse de imediato.
Os olhares se cruzaram.
Lilian sorriu.
— Jonathan… — Rebekah murmurou, sentindo a mão dele se fechar em seu braço.
— Eu vi — respondeu baixo.
Kayla observava curiosa, sem entender.
— Aquela moça é quem?
Antes que Rebekah pudesse responder, Lilian atravessou a rua com passos calmos, como se aquele encontro tivesse sido ensaiado.
— Rebekah — disse, a voz suave demais para ser sincera. — Quanto tempo.
O silêncio se instalou.
— O que você quer? — Rebekah perguntou, direta.
Lilian desviou o olhar para Kayla, e seus olhos brilharam de forma estranha.
— Então… essa é a minha neta.
Jonathan deu um passo à frente.
— Não use esse termo como se tivesse esse direito.
Lilian ergueu as mãos em rendição.
— Não vim brigar. Vim… tentar fazer diferente.
Rebekah riu, sem humor.
— Diferente como? Sumindo por anos e aparecendo do nada no meio da rua?
— Eu precisei de tempo — Lilian respondeu. — Para pensar. Para mudar.
— Pessoas como você não mudam — Jonathan rebateu.
Kayla apertou a mão da mãe.
— Mamãe, eu não gosto dela.
O sorriso de Lilian vacilou por um segundo.
— Ela é muito esperta — comentou. — Puxa a você, Rebekah.
— Não fale comigo como se me conhecesse — Rebekah disse, sentindo a raiva crescer. — Você não faz parte da minha vida. Nem da vida dela.
— Talvez não ainda — Lilian respondeu, com calma demais. — Mas eu gostaria de tentar.
— Não — Jonathan disse firme. — Isso não vai acontecer.
Lilian suspirou.
— Eu sei que não confiam em mim. E não espero que confiem agora. Só… me deixem provar que posso ser melhor.
— Você já teve sua chance — Rebekah respondeu. — Várias.
— E perdi todas — Lilian admitiu. — Mas não quero morrer sozinha sabendo que tenho uma família que nunca me conheceu de verdade.
Houve um silêncio pesado.
Kayla se escondeu atrás da perna da mãe.
— Vamos embora — Rebekah disse, sem hesitar.
Lilian assentiu.
— Eu vou estar por perto — avisou. — Quando quiserem conversar… sabem onde me encontrar.
— Não volte a se aproximar da minha filha — Jonathan alertou. — Isso não é um pedido.
Lilian o encarou por alguns segundos, avaliando-o.
— Você se tornou exatamente o tipo de homem que eu sempre temi — disse, antes de se afastar. — Alguém que não posso controlar.
Ela se afastou, misturando-se às pessoas da rua.
Rebekah só percebeu que estava tremendo quando Jonathan segurou seu rosto.
— Ei… acabou. Ela foi embora.
— Por enquanto — murmurou.
Kayla puxou a blusa da mãe.
— Mamãe… ela vai voltar?
Rebekah respirou fundo, abraçando a filha.
— Não se preocupe, meu amor. A mamãe e o papai estão aqui.
Jonathan apertou as duas contra o peito.
Mas, enquanto caminhavam de volta para casa, Rebekah tinha certeza de uma coisa:
Lilian não tinha reaparecido por acaso.
E aquela aproximação era apenas o começo.