Então quer dizer que você gosta de mim? - parte 1

1948 Words
A primeira coisa que Nathan ouviu quando adentrou aquele vestiário desértico foi também o motivo de ele ter congelado de medo; um receio paralisante, um frisson imobilizador provocado pela simples certeza da palavra: — Atrasado. Portanto, da entrada mesmo, Nathan já estava pronto. Mas talvez pronto seja uma expressão demasiadamente forte; tratava-se de algo mais como estar em alerta para enrijecer o maxilar ou para guarnecer o abdômen com os braços, caso viesse um provável soco, ou chute, ou o que quer que a muito bem criativa mente de Ítalo, que estava escorado na pia agora, tivesse reservado para Nathan, naquele lindo encontro à luz de velas. Nathan nem tentou se justificar; não adiantaria mesmo. O que ele poderia dizer, além de “hum... é que... humm”? Até porque, Ítalo, e isso Nathanael supunha, era do tipo que exigia que você respondesse a tudo que ele perguntasse, mas só na eventualidade de ele te perguntar algo, pois ele detestaria que você falasse qualquer coisa que não tenha sido não expressamente solicitada. Ítalo se desencostou, de repente achando a parede próxima de Nathan mais interessante.  — Eu já tinha percebido antes, claro que sim. Mas, agora... agora eu tive certeza. — Isso saíra dele com um tom tão ácido, tão galvanizado pela solidez de uma verdade irrefutável... que Nathan não teve opção, senão desviar o olhar. — Você é mesmo um péssimo ator. Péssimo.  Nathan ficou imóvel enquanto Ítalo movia-se livremente pelo espaço. Abaixou a cabeça como que num instinto; suas mãos suando frio. Ele ouviu o tilintar de chaves, e apenas ameaçou fitar o punho de Ítalo — ainda não se atrevendo a levantar o pescoço —, que balançava o chaveiro justamente para que o loiro visse. Ítalo encaminhou o objeto até a fechadura, trancando-os ali. Trancando Nathan com ele. Ah, é claro que ele tem uma chave daqui..., argumentou a parte sensata de Nathan para a outra; parte sensata essa que dizia já-já-você-será-bofeteado-se-não-ficar-na-sua-e-dançar-conforme-a-música, e que oscilava na dúvida de chorar ou sentir medo do porvir. Por isso ele nem deve se importar se alguém aparecer (professor, alunos, o Chapolin Colorado, tanto faz), o que não era muito provável, porque Nathan não era um cara de sorte; como se uma força narrativa e onipotente e onisciente decidisse que assim fosse. — Agora, me deixa ver se eu entendi, e aí você me corrige, se eu estiver errado. Impressão minha ou — e de repente Ítalo se agigantou aos olhos de Nathan, aproximando-se dele perigosamente. Agora seus corpos se tocavam, e Nathan estava sem fôlego, escorado na bancada, esperando um chute, que fosse. Pois que, ávido e brusco, Ítalo subiu a palma pela coxa de Nathan, enquanto ele gemia surpreso quando ela se fechou com força em seu m****o, por sobre a calça; quando ela apertou por sobre a calça; e quando assim permaneceu — você realmente estava brigando com o Isaac quando eu cheguei? Nathan arqueou o corpo, jogando seu quadril para trás, por sobre a pia. Ele não queria, não podia sequer encostar em Ítalo, por isso usou o próprio mármore como apoio para os seus braços, com tentativa nas pontas dos pés de ali conseguir se sentar. Mas Nathan não conseguiu resistir ao impacto da surpresa, à angústia da pontada de dor que o gelava por inteiro, e deixou sua cabeça inconscientemente pender por sobre o ombro de Ítalo; seus cabelos lhe roçando a nuca. Um arfar, compreensível ali como uma súplica, e um por favor, por favor escaparam dos seus lábios secos. — O que eu te falei sobre não responder às minhas perguntas? Mas Nathan não sabia o que responder. Não sabia! Meu Deus, o que é que ele iria dizer sobre aquilo, pelo amor de DEUS?! Tentar desmentir de novo?!?! Como ele iria negar a Ítalo que ai ai ai! tá machucando! Tá machucando!!! — Me res-pon-de — enfatizou Ítalo, apertando tanto que Nathan sentiu as pontas dos dedos doer quando segurou com mais força no mármore, suas unhas arranhando o material com agonia. Desesperado, ele fechou a palma em cima da de Ítalo, rogando diversas variações de tá bem tá bem por favor por favor; a ponta de seu nariz desenhando uma trilha quase chorosa, que ia e vinha arrastadamente, na curva do pescoço do moreno. — Eu não... eu não q-queri-... ele... ele me falou umas c-coisas sobre o te... teatro... aí eu não... — sibilou Nathan, tentando afrouxar o toque que enclavava por entre os dedos do seu algoz. Pois que sua fala sucedeu em tantos suspiros que, aos ouvidos de Ítalo, ela se tornara qual o que se não uma canção das mais lindas, daquelas mais melodiosas. Afinal, Ítalo era zeloso com o seu Isaac, mas não ingênuo o suficiente para não reconhecer o irmão que tinha; sabia que às vezes ele ia para além da conta, e que nem mesmo Nathan teria faculdades emocionais o bastante para lidar plenamente com isso, o tempo todo. Porém-contudo-todavia, ele havia sido convocado, desde o começo, justamente para tratar de desenvolver essas faculdades. Que Nathan desse, então, o jeito dele para isso. Que ele se virasse. — Primeiro: se eu souber que você falou com o Isaac daquele jeito de novo, eu vou espremer as suas bolas com tanta força que você vai tossi-las pelo nariz. Você me entendeu? Entendeu, entendeu! — Ótimo. — E Ítalo o soltou. Nathan respirou com um alívio sofrido — mas respirava, enfim; como se tivesse recebido novamente agora o sopro de vida. Ambos ficaram num silêncio que era somente interrompido pelo som de Nathan resfolegando, pelos seus soluços abafados. Enquanto isso, Ítalo ainda estava perto, tocando-o sem tocá-lo, verdadeiramente; os corpos sobrepostos, de um modo em que Nathan pudesse ser vigiado sob o espectro do temor. Assim que a saliva voltou a circular na boca de Nathan e assim que sua pulsação se normalizou, uma pergunta caçoou dele, em mente. E, mais rápida do que o desejo que Nathan tinha de contê-la, foi-se ela a ser perguntada, dita em voz alta, parecendo agora caçoar de Ítalo também, pelo simples fato de ter sido cogitada: — Até... até quando isso vai acontecer? — Você quer dizer, até quando vai apanhar? — questionou Ítalo com um sorriso despretensioso. Prestes a responder: até quando você começar a se comportar como um bom garoto. Se afasta de mim, por favor. — Até quando eu vou ter que fingir. Ítalo riu daquela ingenuidade. — Até quando eu quiser. E eu quero até quando o Isaac quiser. Mas, não se preocupe. Se você não for isso tudo que ele pensa, como eu acho que você não é mesmo, logo ele se cansa e vai atrás de um brinquedo novo. — Dito isso, Ítalo se afastou, recostando-se na parede mais próxima. — Até lá, você fica na linha. — Mas eu estou na linha... É, pois é. Havia algo em Nathan, uma in- ou subconsciência em si que era masoquista, porém revoltosa; passivo-agressiva, por assim dizer. Haja visto as poucas chances de escapatória da situação em que estava, e sem conseguir pensar em muitos artifícios para os quais recorrer, talvez essa fosse sua forma de reagir: sendo sonso; subversivo nas brechas; protestante nos pontos-cegos. Como um oprimido que, compreendendo seu estado, ali se conforma, na ânsia de se manifestar, de se sentir revidando, nos pequenos, quase insignificantes, momentos. Ou talvez ele só fosse boca-grande mesmo; um tremendo boca-grande que não sabia mesmo a hora de enfiar a língua no... — O que foi que você disse? Nathan negou, desviando o olhar. Nada, nada, perdão, monsieur, não quis dizer nada. — Ainda bem que você me lembrou — falou Ítalo, (re)aproximando-se —, vamos à segunda coisa: eu sei que você beijou aquele garoto ruivinho pra me provocar, pra me irritar — comentou, tomando Nathan pelo pescoço, empurrando de costas até a parede que até há pouco ele estava; as mãos do loiro tentando atenuar o toque inflexível demais, das de Ítalo, que agora prendiam Nathan pelo pescoço. — E, olha, você conseguiu. Porque... já pensou o que aconteceria com você se o Isaac tivesse visto? — Não tendo recebido uma resposta, Ítalo apertou. A Nathan, faltou-lhe ar quando um aperto latejante o lembrou que: — Eu te fiz uma pergunta, p***a. — D-Desculpar! — suspirou Nathan, esganiçado e de uma vez só, como um último fôlego em vida, enquanto sua palma tentava pescar alguns dos dedos de Ítalo, para que ele afrouxasse um pouco... — M-me desculparr... Ítalo sorriu ao ver a angústia de Nathan luzindo sobre as pupilas marejadas de azul intenso e sofrido. Os pés de Nathan tentando subir uma escada invisível, enquanto seu peito se inflava, em busca de um ar que m*l lhe vinha. Ítalo também gostou de ver o pescocinho de Nathan marcado, sabendo que ele só teria permissão para fazer algo tão básico e vital como respirar somente se Ítalo permitisse. Ele pensou que, talvez, se Isaac um dia tivesse uma experiência como essa com o loiro, iria adorar também. Das características ambientais daquele vestiário fedorento de mormaço e suor, decerto só valia mesmo citar o fato de ser fedorento, mormacento e suarento; o cheiro da virilidade masculina. Num certo ponto havia duas cabines sanitárias que todos os garotos não ousavam usá-las se não como mictórios. Aos demais cantos, as duchas, e do outro lado da parede ficavam uma série de armários vermelhos. O olhar de Nathan fixou-se neles enquanto era asfixiado, pensando que o professor de teatro ficaria puto se ele morresse antes da estreia. Satisfeito, Ítalo folgou os dedos ao redor da traqueia de Nathan, que deixou o peito desabar em cima dos quadris de uma vez só, resfolegando o quão máximo e quão mais rápido conseguisse.  Ítalo observou aquela coisa brilhante no pulso de Nathan, e isso abruptamente o irritava ainda mais do que o fato de Nathan ter as terríveis manias de se fazer de sonso e de não responder, quando solicitado. Enquanto se recuperava, Nathan sentiu seu braço sendo puxado, jurando que um golpe que não veio viria; e então, Ítalo pôs-se a desatar aquele nó m*l dado. No que menos se viu, já estava agora com o presente que Gabriel deu nas mãos. — O Isaac não pode ver você usando isso, certo? — comentou. — Não — disse Nathan, tossindo seco. — Eu vou tirar. Não vou usar perto dele. Isaac não vai ver... — Não vai mesmo. Assim, foi-se Ítalo, implacável, intransigente como uma locomotiva, a se desvencilhar das falhas de Nathan, querendo detê-lo. Mas Ítalo era mais rápido, mais forte, e também mais intimidante. Chegou próximo a um vaso, jogou aquele troço ridículo na água, que logo afundou, de tão pesado, e Nathan só pode espernear enquanto via o afeto materializado de Gabriel rodopiando e rodopiando no fundo, escorrendo dali ao esgoto, ao mar, ao seu irrepreensível choro, que agora vinham torrencialmente. Que passaria a ser repreensível, se Ítalo quisesse. — Para de chorar — ordenou ele. Mas, à primeira escuta, Nathan não conseguia... Seus soluços reverberavam no corpo como se pequenas colisões implodissem dentro dele, e sua boca seca doía de falas não ditas, entretanto explosivas; de protestos sinceros, mas insuficientes; com uma raiva sincera, porém subjugada. — Você. Eu odeio você! — vociferou Nathan, ignorando o tom, a projeção exorbitante que rasgava sua garganta, que a fazia doer e que fervia todo o seu rosto, com seus olhos azuis tornando-se fluorescentes quanto ao ser nervosismo. — O que mais você quer, Ítalo?! — O choro umedecia sua voz tanto que a sufocava, e agora Nathan não conseguia respirar direito. Seu peito latejou, estando exausto. — Que você me obedeça — disse com seriedade.
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