Antonela
Após quase dois meses viajando, retornei ao Brasil.
Fiquei alguns dias na casa do Andrey, que é uma pessoa incrível. Aliás, ele e o marido do dele são. Andrey me levou para fazer um tour, inclusive, de trem, e eu conheci diversas cidades italianas e também países vizinhos. É incrível, pois são muito próximos uns dos outros.
Foi uma experiência única, onde pude aperfeiçoar meu inglês e também me sentir um pouco mais livre. Lá, fui a bares e pequenas boates, conheci várias pessoas. Aqui no Brasil, meu pai meu e irmão me tratam como se algo fosse acontecer comigo a qualquer momento. Eles me cuidam tanto, que pareço até um bebê. Raras são as vezes que posso sair, baile só os das comunidades deles e do tio LC. Às vezes me sinto uma prisioneira.
Entendo que meu pai e meu irmão são procurados pela justiça por diversos crimes, não sou tão ingênua assim, mas eu sei me cuidar, jamais digo para alguém de quem sou filha ou aonde moro. Na faculdade, onde iniciarei o curso de arquitetura, meu endereço na matrícula é no Leblon, assim como Milena faz também. Não é uma mentira tão grande, afinal, temos apartamentos em vários bairros do Rio de Janeiro, inclusive, no Leblon.
Na Europa, além de praticar meu inglês, aprendi com Andrey algumas frases em italiano e fiz também um curso rápido de fotografia. Eu amo tirar fotos.
Milena e eu somos amigas desde sempre. Mesmo morando em comunidades diferentes, somos unha e carne. Ela já está iniciando o terceiro semestre da faculdade, onde cursa Psicologia, e eu iniciarei agora.
— Nélis, que saudade, gata! Achei que você fosse me trocar por uma nova melhor amiga, alguma europeia. Nunca vou te perdoar por passar seu aniversário longe! — Milena fala, me abraçando ao me receber no aeroporto, me chamando pelo apelido que tenho desde criança.
Eu havia passado meu aniversário de 18 anos no exterior, foi algo totalmente diferente dos anos anteriores.
— Eu é que nunca vou te perdoar por ter colocado uma nova amiga no meu lugar! — falo sorrindo.
— Você vai amar a Rafa. Ela é meio maluquinha, mas é muito gente boa. — Milena fala.
— Foi na faculdade que vocês se conheceram, né?
— Numa festa da faculdade. Ela é mais nova, tem 16 anos e não terminou o ensino médio ainda.
— Se ela não está na faculdade, o que ela foi fazer na festa, Mi?
Mi, é como carinhosamente, chamo a Milena.
— Nélis, a Rafa é tipo arroz de festa, sabe? Está em todas, qualquer evento que convidam, ela vai. Você vai gostar dela!
— Tá, mas eu ainda sigo sendo sua best, hein? — falo, apontando o dedo para ela.
— É claro, né? Tá doida? Agora vem, vamos colocar essas malas no carro e partir pra onde?
— Vamos pra Penha! Estou com saudade da minha casa, do meu quarto, e esse fuso horário do Brasil, me mata.
— Ah, sai daí, garota! Já está com essas doideiras, é? — Milena diz, me zoando.
Rimos e partimos pra Penha.
Ao passarmos pela entrada, uma bagunça estava formada. Um rapaz apanhava muito. Eram muitos chutes e coronhadas. E quem batia? Alguns soldados e o Leco, só podia mesmo, ele acha que tudo se resolve com violência.
— Que isso? Para esse carro, Antonela!
Estaciono e descemos.
Antes que falássemos qualquer coisa, Leco já veio gritando.
— Não se metam, entrem nesse carro e vão pra casa! — ele aponta a arma pro rapaz que está todo machucado.
— Sempre um bruto, né Marcelo?
— E você sempre intrometida, Milena!
— Meu irmão sabe que você está fazendo isso? — pergunto, pegando meu celular pra ligar para o Gabriel.
— EU SÓ QUERO FALAR COM MINHA IRMÃ! — O rapaz gritou.
— CALA A BOCA! — Leco grita também.
— O cara está falando que quer ver a irmã, libera ele! — Milena diz, se aproximando do rapaz e olhando para ele com certa compaixão.
— Nem mais um passo, Milena! — Leco fala, destravando a arma.
Milena se assusta. Eu também.
— Que foi, gostou dele? Curte um marginalzinho pelo jeito! — Leco fala diretamente para Milena.
— Você que o diga, né Marcelo?
Segundos de silêncio e um olhar intenso entre eles.
Leco pega o celular, fala com alguém e pouco depois, meu irmão chega, enlouquecido, dando tiro para o alto. Ele é um bruto também.
Milena não tirava os olhos do rapaz agredido.
Logo, uma garota linda chega. Eu não a conheço, mas pelo que entendi, ela mora há pouco tempo no morro.
Nunca vi nenhum dos dois antes, isso é normal, afinal, a comunidade é muito grande. Mas por que o irmão não mora com ela?
Já em casa, jogadas na minha cama, Milena e eu, comentamos o que presenciamos.
— O Marcelo continua o mesmo o****o, arrogante e agressivo de sempre! Queria ver ele ter essa marra toda sem um arma na mão!
— E você acha que meu irmão é diferente? Os dois são iguais, Milena.
— Ainda bem que meus irmãos são mais novos, porque eu não teria paciência, não! Mas o G4 não me irrita!
— Claro! Sabemos o motivo pelo qual o Leco te irrita. — falo e dou risada.
Milena joga um travesseiro em mim.
— Esse lance já passou, Nélis! Eu era muito nova e boba. Depois que amadureci, percebi como ele é escroto e canalha.
— Falta de aviso, não foi! Tanto eu te falei, Milena. Essas garotas vivem correndo atrás do Leco, aliás, deles né? Porque com o meu irmão é a mesma coisa, e por isso, eles se acham os gostosos.
— Bom, gostoso o Leco é mesmo. Mas vamos deixar baixo.
— Tu não presta mesmo, Mi!
Gargalhamos.
— Mas isso é passado! A aquela ingênua de anos atrás, não existe mais.
— Acho bom, dona Milena! Esses caras do bando são todos assim, e quando falo isso, incluo meu irmão, tá? São todos uns mulherengos, não sei o que essas garotas vêm neles. Eu não dou moral, o dia em que eu me apaixonar de verdade, Deus me livre ser com um tipo desses.
— E até parece que ia adiantar você querer um deles. Nélis, tio Carioca e o G4 matam o carinha e te colocam num convento.
Rimos alto.
— Nem me fale! Eles me tratam como criança, me sufocam.
— Ah, mas tu tenho uma boa pra você. Nós vamos num baile.
— Ai, Mi! Já tô enjoada desses bailes daqui, os da VK são um pouco melhores, vejo gente diferente. Mas, mesmo assim, é quase sempre a mesma coisa.
— Não, sua boba, estou falando de um baile em outro lugar. Vamos ver gente nova.
— Como assim?
— Vamos em um baile na comunidade em que a Rafa mora.
— Essa Rafaela mora em favela também? — pergunto, surpresa.
— Mora, e o pai dela, assim como o nosso, é o dono. Acredita nisso?
— E que comunidade é essa, Milena?
— O Complexo da Pedreira.