Capítulo 06 — O Pensamento Que Não Passa
Narrado por Dominik
Entrei na caminhonete e bati a porta.
Biel entrou do outro lado.
Não falou nada.
Os outros dois subiram atrás.
Também não falaram nada.
O motor ligou.
Saímos.
Pelo retrovisor, vi os caras que ficaram na rua.
Todos me olhando.
Nenhum perguntou.
Nenhum ia perguntar.
Porque ninguém pergunta.
Não quando eu não respondo nem pra mim mesmo.
Por que não resolvi ali?
Por que dei um “vou pensar”?
Lucas perdeu a carga.
Dívida é dívida.
Prazo acabou.
A regra é clara.
A regra sempre foi clara.
Só que a garota entrou na frente.
“Faço qualquer coisa.”
Os olhos dela não baixaram.
Nem quando falei com o irmão.
Nem quando olhei pra ela.
Maioria treme.
Ela não.
Isso não era pra ter importância.
E não teve.
Ou teve?
Biel me olhou de lado.
Rápido.
Voltou a olhar pra frente.
Ele queria perguntar.
Vi na cara dele.
Mas não perguntou.
Porque Biel é esperto.
Tá vivo até hoje porque sabe quando calar a boca.
— Boca — falei.
Só isso.
Ele assentiu.
Pisou fundo.
Chegamos na boca quinze minutos depois.
Movimento normal.
Vapor, olheiro, contenção.
Menino correu abrir o portão.
Entrei direto.
Subi pro escritório.
O segundo andar da casa azul.
Janela que dá pra viela inteira.
Sentei.
Botei o rádio na mesa.
— Cadê o problema do Beco 3?
Biel já tava na porta.
— Marquinhos querendo passar a frente do Bruno.
— Chama os dois.
Dez minutos depois os dois tavam na minha frente.
Marquinhos suando.
Bruno com a mão na cintura, perto da arma.
— Expliquei a regra? — perguntei pro Marquinhos.
Ele engoliu seco.
— Explicou, Dominik.
— E tu fez o quê?
— Eu... achei que...
— Não acha. — Cortei. — Faz o que eu mandei.
Olhei pro Bruno.
— Resolve.
Bruno assentiu.
Puxou o Marquinhos pelo braço.
Levaram ele pra trás.
Ouvi um grito abafado meia hora depois.
Não perguntei.
Não preciso.
Regra é regra.
Voltei a olhar pela janela.
A viela continuava.
Moto subindo.
Gente descendo.
O Horizonte não para.
Nunca parou.
Nem quando meu pai morreu.
Nem quando minha mãe se foi.
Nem ontem quando uma menina de 19 anos falou que trabalha pra mim.
“Qualquer coisa.”
Bati o dedo na mesa.
Uma vez.
Duas.
Parei.
— Biel.
Ele apareceu na porta de novo.
— Precisa ver o caixa de ontem. Faltou.
— Já sei quem foi.
— Resolve.
Ele sumiu.
A noite seguiu.
Veio gente.
Foi gente.
Dinheiro contado.
Droga pesada.
Arma limpa.
Tudo que faz o Horizonte girar.
Três da manhã eu ainda tava acordado.
Sentado.
Olhando pro nada.
O rádio chiava.
— Tudo certo no setor norte — alguém falou.
— Segue — respondi.
E seguiu.
Sempre segue.
4:47.
Levantei.
Saí do escritório.
Subi mais um lance de escada.
Porta de ferro.
Laje.
O vento bateu na cara.
Frio.
Céu ainda escuro, mas já clareando na borda.
O Horizonte todo lá embaixo.
Luz acesa em ponto ou outro.
Barraco.
Casa.
Beco.
Tudo meu.
Tudo dependendo de mim.
Tirei um baseado do bolso.
Acendi.
Traguei fundo.
Segurei.
Soltei.
A fumaça sumiu no vento.
Não fumo sempre.
Só quando a cabeça não cala.
E hoje ela não calava.
Não por causa do Marquinhos.
Não por causa do caixa.
Por causa dos olhos da garota.
Castanho escuro.
Cansado.
Mas não baixo.
Ela me encarou.
Mesmo sabendo quem eu era.
Mesmo sabendo o que eu podia fazer.
“Não mata ele.”
Ninguém pede.
Todo mundo aceita.
A mãe chora.
O pai xinga.
O irmão some.
Mas ninguém pede.
Ela pediu.
E ofereceu.
Ela.
Traguei de novo.
O gosto amargo desceu.
Não era pra importar.
Dívida é número.
Vida é número.
O Horizonte me ensinou isso cedo.
Se começar a pesar, perde.
Se começar a sentir, morre.
Então por que eu não resolvi?
Por que não mandei o Biel acabar com o assunto ali?
Por que falei “vou pensar”?
Não sei.
E não gostei de não saber.
Apaguei o baseado no chão.
Desci.
5:22.
Peguei a moto.
Saí da boca.
Rua vazia.
Só o vento.
Cheguei em casa dez minutos depois.
Mansão no topo.
Portão automático.
Segurança na guarita nem levantou a cabeça.
Já sabia.
Entrei.
Silêncio.
Sala grande.
Escada.
Quarto.
Tirei a camisa.
A calça.
Entrei no banheiro.
Água quente.
Deixei cair na cabeça.
No pescoço.
Nas tatuagens.
Fechei os olhos.
Por três segundos vi ela.
Na frente do irmão.
“Eu trabalho pra você.”
Abri os olhos.
Merda.
Desliguei o chuveiro.
Me sequei.
Vesti calça moletom.
Camiseta preta.
Desci.
Cozinha.
6:04.
A mulher já tava lá.
Dona Lúcia.
Trabalha aqui há cinco anos.
Faz comida.
Limpa.
Não fala se eu não falar.
Tinha uma xícara na mesa.
Café.
Preto.
Amargo.
Do jeito que eu gosto.
Ela não me olhou.
— Bom dia, senhor Dominik.
Não respondi.
Peguei a xícara.
Tomei um gole.
Quente.
Amargo.
Certo.
Coloquei a xícara na mesa.
Peguei a chave da moto.
Saí.
Dona Lúcia continuou lavando a louça.
Ela nunca pergunta onde eu vou.
Ninguém pergunta.
7:30.
Cheguei na boca de novo.
Biel tava no portão.
Rindo com dois meninos.
Quando me viu, endireitou.
Os meninos sumiram.
— Não dorme? — ele falou.
Passei direto por ele.
Não respondi.
Subi pro escritório.
Sentei.
Botei o rádio na mesa.
O Horizonte acordando lá fora.
Barulho de moto.
Grito de vendedor.
Rádio no último volume na casa da frente.
Vida normal.
Pra eles.
Pra mim, não.
Porque tinha um negócio pendente.
Um pensamento que não passava.
Uma frase que não saía.
“Vou pensar.”
Eu falei.
Agora tinha que cumprir.
Não porque eu devia explicação.
Eu não devo.
Mas porque eu não deixo ponta solta.
Nunca deixei.
E ela era uma ponta solta.
A garota.
Mirella.
Biel bateu na porta.
— Fala.
Ele entrou.
— O menino do Beco 3 já foi enterrado.
— Certo.
— Quer que...
— Não. — Cortei. — Outro assunto.
Ele esperou.
Olhei pela janela.
O sol já batia na laje.
Quente.
O dia ia ser longo.
E eu já sabia como ia começar.
Virei pra ele.
E falei.
Só isso.
Sem explicar.
Sem motivo.
Sem porquê.
— Busca a irmã do Lucas.
Biel piscou.
Uma vez.
Só uma vez.
Depois assentiu.
— Agora?
— Agora.
Ele saiu.
A porta fechou.
Fiquei sozinho.
Com o rádio chiando.
Com o Horizonte lá fora.
E com o pensamento ainda aqui.
Ainda sem resposta.