III

2518 Words
As correntes fria segurando meus pés me assustaram, pois foi a primeira coisa que vi quando abri os olhos. Tentei me levantar e vi que meu pé já não estava mais dolorido… Mas, como? Eu senti o osso estralar e torcer, mas agora era como se nada tivesse acontecido. Olhando ao redor, vi que as correntes que me prendiam estavam fincadas na terra e meu cativeiro era uma árvore. E não muito longe dali, o crepitar de uma fogueira com uma criatura ao lado chamou a minha atenção Admirando o fogo e tomando a sopa do pote, o Alpha estava presente. Reparei que ele tinha cada músculo das costas bem desenhado e a pele parda iluminada pela luz das chamas amareladas, o deixava com uma imagem de alguém muito forte. Musculoso… Gostoso… Era uma imagem que chegava a doer a feiura de alguém, porque era injusto uma pessoa só ser bonita daquele jeito. Como se tivesse notado que eu acordei, ele deixou o pote sobre o tronco que estava sentado e se levantou. O homem já usava saias de couro, vestido do mesmo modo que o vi mais cedo, tinha uma vara pontuda nas mãos e caminhava com  o rosto em fúria em minha direção. — O que… Eu… — não sabia o que dizer, não com o nervosismo brotando em meu sangue… Quando espremi os olhos com  sua proximidade, senti ele encostar a ponta da vara para me cutucar, como se eu fosse uma coisa estranha. Abri bem os olhos e vi o gesto se repetir. De início imaginei que o homem me bateria de alguma forma, agora o vejo me espetar como se eu fosse feita de algum material contaminado. — Mas o quê…? — É fria… — sua voz grave, grossa e capaz de estremecer qualquer coisa, penetrou em meus ouvidos e tive a impressão de ver o senhor líder ali, curioso. — É claro que sou fria, estou com frio! Está de noite e está frio! — senti um cutucão no meu braço e outro no ombro e com raiva, bati na ponta da vara. — Quer parar com isso!? — Não é uma filha da Grande Mãe… — O quê? — pergunto pra ele agora ou depois se isso tem alguma coisa haver com essa parada de lobo… Meu Deus o cara é um lobo! Me pegando de surpresa o homem segurou em meu pulso e me fez colocar a mão sobre o seu braço. Quente, do tipo que se fosse febre ele estaria a um passo de convulsionar, delirar e morrer. Eu me assustei, porque ele não parecia com alguém doente. Tomando-me mais uma vez com surpresa, o homem segurou meu rosto, ficou perto demais e saiu enfiando os dedos na minha boca até que eu abrisse bem, mostrando toda  a minha arcada dentária. Segurei em seus pulsos tentando afastar o homem, balbuciei algo inaudível e não tive sucesso. As mãos do homem desceram para meu pescoço, chegaram em meus ombros e no segundo seguinte meu corpo foi puxado junto a criatura. Eu ia gritar de susto, mas senti a língua do homem encostar no pé da minha orelha e lamber até em cima de um dos meus olhos.  O que era pra eu sentir, nojo? Pensar que esse cara tem problemas mentais? Quem chega numa garota e lambe até o olho dela? Perigo? Quem está escrevendo essa merda!? Não sendo o suficiente, ele enfiou o nariz no meio de meus cabelos, cheirou meu rosto, ombros e quando enfiou a cara no meio de meus s***s, dei um tapa na cara do indivíduo. Quando vi já era tarde demais. — Ei! Eu estou pouco me lixando pro tamanho do cachorro que você é, mas vai ficar bem longe daí! Sacou? Isso não o fez agir como um ogro i****a, apenas o fez me olhar de um jeito curioso. Ele não tirou as mãos de meu ombros e nem deu um passo para trás para se afastar, o que já estava me deixando com vergonha. — O que é essa criatura diante de meus olhos? — perguntou com cuidado. — Eu já disse. Meu nome é Stella, e eu vim do Queens. — Não é uma criatura pertencente a esta terra… — murmurou, ainda me cheirando. — Com certeza não. Mas e você… O quê exatamente você é? — A criatura mor que habita esse lugar. Líder por direito. — com ele falando assim, fica tão chique… Eu olhei em seus olhos, nada parecidos com as esferas vermelhas no meio do mato. O homem era de certa forma um humano assustadoramente bonito, diferente da sua forma animal, mas eu ainda não conseguia raciocinar direito.  — Porque estou presa? — perguntei tentando me mover. — Desobedeceu as ordens de Andrômeda. E minhas. — Eu só precisava de luz. Não enxergo no escuro. — me justifiquei. Ele franziu o cenho, olhou para fogueira e voltou a me fitar. — Esta sua fraqueza foi perceptível em sua falha fuga. A fêmea foi para o lado mais perigoso, escuro e não se deu conta de seus obstáculos. — Você enxerga no escuro? — perguntei admirada. — É quando mais vejo. — respondeu firme. A segurança que ele tinha em responder algo, era tão… tão… derrete calcinha… Isso me fez até engolir em seco.  — Então o porquê da fogueira? — insisti em mais perguntas. — Para que a fêmea pudesse enxergar minha imagem. Nós devíamos ficar nos olhando como se o mundo fosse parar e só voltasse a girar quando um beijo acontecesse? “Tá” legal, eu achei bonitinho aquilo, mas não nos beijamos. O cara tinha mais coisa pra falar… — É uma criatura de origem fraca. Frágil demais. Seu corpo anuncia que não possui força, sua estrutura demonstra que não possui agilidade e se não fosse as ervas proveniente desta terra, morreria por um simples ferimento nas patas. É sério isso? Esse livro está de s*******m comigo, só pode! Seção de ofensa, tão já? É muito cedo pra esse conteúdo no capítulo, não? — Eu não sou fraca, só não sou daqui. — retruquei de nariz em riste — E eu não tenho patas, tenho pé! Soltando os meus ombros, o homem resolveu se apoiar em suas pernas de um jeito muito sexy, observou-me com atenção e questionou novamente.  — Porque a Grande Mãe daria vida a um ser infinitamente belo, sem um pingo de raciocínio e cego a uma parte de sua estrutura? — eu ia responder, mas ele continuou — Suas patas são tão visíveis e claras quanto a inutilidade de seu caminhar. Porque n**a suas patas? Eu tentei muito focar na parte do infinitamente belo, mas ele tinha que cagar no resto da frase. O cara estava me esculachando do início ao fim, e quando foi me elogiar, foi pra complementar a ofensa. E eu só falei que tenho pés! — Você e todo mundo por aqui é irritante desse jeito? — perguntei me mexendo, fazendo seus olhos admirarem um pouco das curvas expostas. O pano esquisito que eu usava para me cobrir era um tanto sexy demais. Tinha muita coisa sendo exibida, tapando somente o necessário. Logo ele pegou minha canela, levantou uma de minhas pernas e eu me agarrei fielmente as correntes, por sorte o pano caiu por entre as pernas e ele não conseguiu ver o meu meio. O i****a estava levantando minha perna como se esta não pesasse nada e eu, por um tris, não virei de ponta cabeça.  — Patas! — gritou a criatura me mostrando meu próprio pé. Eu arregalei os olhos, engoli em seco e concordei. — Claro, patas! — respondi sentindo minha perna sendo deixada ao chão e eu podendo me sentar direito. O vento soprou forte, me fez estremecer sentindo o frio com mais força e isso fez o homem grande fechar os olhos e respirar fundo. Quando os abriu, era uma íris dourada com um fio escuro em seu centro, tão obstinado e fixo em mim. Ignorando meu tremor, ele pegou uma mecha de cabelo loiro e cheirou, depositou a mecha em cima de meu ombro e tocou com a ponta dos dedos a pele branca. O toque quente andou até o dorso de meu pescoço, desceu o risco do osso e segurou a ponta do tecido que tampava os s***s.  — Você não vai fazer isso! — impedi, tentando atingi-lo com meu pé. Foi um golpe em vão, ele segurou como quem não fazia esforço algum e me olhou, com aqueles olhos. O vento soprou de novo e ele pareceu respirar aquilo com toda sua força, até que eu entendi. Se ele é um animal e o vento está batendo forte, meu cheiro estava causando algum efeito. — O cheiro da estrangeira é quase um pedido para que meu monstro se guarde dentro de você. — sua voz estava muito grave e muito sedenta — Desejo usufruir do adorno de minha matriz, aqui e agora.  Era só o que me faltava, o vento estava levando o cheiro de xana pro nariz do homem! Como que eu vou me dar com isso? Eu dormi por trinta dias, e eu estou fedendo porque não tomo banho a milênios! É cheiro de xana fedida, não é de acasalamento! — “Mim não querer acasalar…” — respondi com cuidado, sentindo que eu estava me dando com o perigo de um jeito errado. Ele estreitou os olhos. — Esta não é uma escolha que lhe pertence, adorno de Andrômeda. — ele se levantou, me deu as costas e se aproximou da fogueira — Negociarei minhas vontades com o tutor que tomou sua vida como responsabilidade. Respirei aliviada, pois pelo menos por enquanto eu teria tempo de pensar em alguma coisa. Foi então que ele encheu o peito de ar como se fosse soltar um longo suspiro, mas quando fez um bico mirou bem nas chamas da pequena fogueira e soprou com toda a força, fazendo com que as cinzas se espalhassem e o fogo sumisse. Eu não conseguia falar nada diante da cena, só enxerguei um par de olhos vermelhos e a noite escura ao meu redor. Mordisquei os lábios, ouvi um barulho, tentei identificar de onde vinha, mas desisti. O coração disparou novamente, eu abracei as correntes e me encolhi. Eu estava morrendo de frio e com medo, e não fazia ideia do que fazer para sobreviver nesse lugar, ainda mais presa em correntes. — Seu medo é quase palpável… — sua voz grossa, parecia muito mais grossa no escuro.  O que eu devia fazer? O que eu devia sentir? O que eu devia dizer? — Não consigo ver nada… — murmurei insegura — Por favor, eu não quero ficar aqui presa, sozinha e no frio…  — Andrômeda não virá. — ditou, mas eu já não sabia mais de onde vinha sua voz e nem onde seus olhos estavam. Me assustei no segundo em que senti as correntes serem puxadas, onde deduzi que ele as arrancou do chão, foi quando senti o puxão e fui obrigada a permanecer de pé. Tentei me apalpar em qualquer coisa que fosse, até sentir que toquei nele. Senti sua pele quente no que supus ser suas costas, procurei não tatear demais e engoli em seco recolhendo minhas mãos. — A respeito de Andrômeda, para que seu adorno não se quebre, talvez eu lhe aqueça. — resmungou grosso.  Ele provocou as correntes, eu comecei a andar, mas não fazia ideia de onde deveria ir. O homem notou o quanto meu radar não prestava, inclusive por não enxergar no escuro, então meu corpo foi levantado, onde me manteve presa sobre seu ombro e eu passei a ser carregada, sentindo o vento frio bater contra minha b***a e levantar os panos. Eu tentei controlar as batidas do meu coração, mas me surpreendi quando notei que o calor de seu corpo me ajudava a esquentar, tornando assim a jornada mais amena. Eu não fazia ideia de onde eu iria, mas já não tinha mais escolha. Apenas aguardei com cuidado, ouvi os passos silenciosos durante a noite e tive a impressão de enxergar alguns pares de olhos nos observar, o que deduzi que podiam ser os lobos.  Em pouco tempo adentramos uma tenda. Era maior do que a tapera onde eu estava dormindo, a esteira era mais confortável e grande, com almofadas e vários lençóis. Havia velas de cheiro, não para iluminar, mas deixava o ambiente mais confortável e melhor para a minha visão. Enxergava pouca coisa, mas enxergava. Sem esperar, ele me soltou em cima das almofadas, o que me fez sentir dor com o baque. Sem se importar ele afundou sua mão no chão, abriu um buraco em pouco segundos, enfiou a ponta das correntes lá e jogou a terra de volta. Ele bateu contra o chão com tanta força, que tive a certeza que senti um leve estremecer. Quando ele terminou o processo, se levantou me observando batendo as mãos uma na outra e apenas para teste, tentei puxar as correntes. Para minha surpresa, era como se ele tivesse prendido elas com cimento, onde seria impossível escapar. — Mas o quê...? — perguntei embasbacada, me recordando de vê-lo soprar a fogueira. Eu levantei os olhos, o vi se aproximar de uma bacia com água e soltar seus braceletes no chão. Em seguida ele enfiou as mãos e limpou até os cotovelos. Era como ver uma imagem nórdica e admirável, mas com uma pitada de suspense perigoso. O alpha se dirigiu até um candelabro servindo-lhe de cabide e pegou alguns panos, secou as mãos e recolheu um jarro de água. Para minha surpresa, ele se aproximou, ajoelhou-se ao meu lado e encostou o objeto em minha boca.  Eu engoli. Não era água, era algo muito parecido com vinho, um bocado mais forte, mas bebi de bom grado. Ele afastou o objeto, deixou de lado e pegou em uma mecha do meu cabelo, eu desviei os olhos, tentei não olhar para ele e entendi o que ele estava fazendo. Talvez ele não estivesse disposto a esperar por Andrômeda… — Apesar de não ser fruto da grande mãe, possui exagerada semelhança com as fêmeas da tribo. — comentou depositando a mecha em meu ombro e me observando atentamente — Ouso dizer até que meus olhos procuram mentir para mim.  Levantei uma sobrancelha, sem saber se eu me sentia ofendida com o comentário. — Qual o problema de eu parecer com uma mulher daqui?  — Lobos não desejam carnes que não lhe pertencem. — respondeu um tanto grotesco e eu engoli em seco — Recolha-se criatura estrangeira e se aqueça, antes que se torne o frio de um inverno num corpo seco. Uma vez que o grande pai iluminar o manto azul, se arrependerá de fugir de sua tenda.  Eu me deitei, sem ter escolha e virei de costas para não precisar encará-lo, mas incomodada com as correntes. Mesmo sem saber se podia, puxei dois mantos grossos aos meus pés e cobri o corpo, respirando fundo e piscando muito devagar. Que esse capítulo acabe, porque eu não faço ideia do que pensar.
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