Gisele corria em uma esteira com uma máscara de oxigênio. Á sua frente havia um painel azul virtual que passava minuto por minuto os trabalhos de seus pulmões. Ela estava na sala com a presença de Elaine, Galak e Volkon e quando a mulherzinha soltou a palavra casamento, suas pernas perderam as forças, sua mente bugou e Gisele simplesmente esqueceu de correr e acompanhar a esteira rotativa.
Quando se deu conta, seu corpo virou um amontoado de merda, seu peito disparou o coração e Gisele foi parar do lado de trás da esteira enquanto era socorrida por Galak, que estava mais próximo do baque. Todo mundo ao redor do laboratório na sala de vidro parou para observar o tombo grotesco.
— Casamento? — Ela repetiu a palavra no chão, estrupiada e caída, com a máscara torta e os cabelos pra cima. Gisele simplesmente não acreditou no que ouviu.
— Exatamente. A eternidade dos Starianos, é o casamento. — Elaine surgiu em suas vistas, enquanto Galak a observava com cuidado. — Darius disse que tinha seu consentimento.
— Bom, ele tem, mas… Eu achei que era só mais uma declaração bonitinha. Eu não sabia que isso era casamento!
Elaine se levantou e olhou para Galak e depois para Volkon.
— Temos um problema.
(...)
Gisele estava sentada no meio do hall central da quarentena. O andar tinha uma área verde, um banco centralizado e a paisagem do vidro era convertido para as estrelas noturnas do espaço. O sol não se punha daquele lado de Starian, mas estava no horário noturno. Ela estava arrumada, tinha brilho em seus lábios e em seus olhos, e usava um vestido de flores. E ela realmente admirava a noite quando notou a presença de Darius se sentar ao seu lado.
— Sob as ordens de Elaine, e ao seu pedido, foi me ordenado que lhe desse um precioso espaço. Eu fiquei afastado por todo o dia e minha mente está uma bagunça. — Gisele o olhou apreensiva, mas desfez o semblante pesado assim que o viu. — Porque está me recusando?
Darius tinha duas curvas na franja sob sua testa, estava uniformizado e cheirava muito bem. Ele usava duas pequenas argolas prateadas em cada orelha pontuda e tinha os olhos negros. Ele era um belo Stariano, um romântico Stariano e um sedutor Stariano. Ele não lhe provoca medo e Gisele, estranhamente, não pensava mais em sua casa. Mas, casamentos, eram um passo crucial em sua raça, e não se fazia assim, depois da primeira noite de sexo, ou cúpula.
— Não estou te recusando. — ela respondeu baixo.
— A humana Elaine estaria mentindo? — Ele pensou um pouco. — Seria estas uma daquelas brincadeiras sem sentido dos humanos?
Gisele terminou de se virar no banco e tocou o rosto do Stariano, ela olhou seus detalhes, alisou o formato de sua boca e aproximou seus lábios. Vagarosamente ela o beijou, sendo correspondida de um jeito doce e cuidadoso.
— É que, eu não sabia que sua eternidade não era uma declaração bonita. Elaine me explicou depois que se tratava de um casamento.
— Como a lei dos humanos? — Ela concordou. — O que mudou? Jurou ser minha, estar comigo e não me negar. Porque a eternidade te assusta?
Ela tirou as mãos dele, dobrou os joelhos sobre o banco e cruzou os dedos das mãos. E ela sorriu.
— Darius, eu só tenho vinte e um anos.
— Eu tenho noventa e sete festejos Starianos. Também sou jovem. — Ele franziu o cenho — Apesar de minha jovem idade, tenho senso de responsabilidade. Tenho a graça de Galak. Tenho o orgulho de Starian nas vestimentas. Tenho pesos para um legado inteiro, e o desejo de tê-la para mim para todo o sempre. Do que mais os humanos precisam?
Gisele desviou os olhos e sentiu um frio na barriga.
— É que… No meu mundo, nunca sabemos quando é a hora certa. E… E isso assusta um pouco.
Darius baixou o cenho e se mostrou pensativo.
— Ordene-me que a negue. Me mande para longe, e apenas por sua vontade o farei. Eu a deixarei liberta de mim. — Ela engoliu devagar e, por algum motivo, encheu os olhos de água. — Mas fique ciente, pequena criatura, que esta será uma vontade somente sua. Unicamente sua.
Darius tinha duras feições em seu rosto, mas olhava com extrema firmeza. Gisele tremia e deixou uma lágrima escapar. Ela era jovem e tudo estava bonito demais, mas estava muito rápido também. O vínculo stariano era simples, mas o coração de Gisele ainda não sabia o que fazer. Havia coisas que ela queria entender, como por exemplo, como não sentia falta de seus pais, porque não sentia falta de sua família e os motivos pelo qual Darius sempre lhe ocupava a cabeça. Racionalmente falando, podia-se tratar de uma paixonite aguda. Um instinto de proteção, já que ela só se sentia segura com ele. Mas, e depois? Como seria o seu depois? Viveria apenas encarcerada no alojamento parindo?
— Você não está entendendo, é que…
— A incapacidade humana de filtrar os próprios sentimentos sempre provoca o caos. Filtre-os, pequena criatura. — Ele tinha feições sérias. — Entenda o que sente e aceite o meu vínculo sem refutar, mas se me negar, eu não estarei aqui pela manhã. Vai ser minha, ou irá me recusar? Liberte-se do medo e tenha coragem para viver o seu amanhã, ou viva seu presente desperdiçando as bênçãos do mundo ao seu redor. Eu estou aqui. Vai estar comigo?
Gisele limpou o rosto com as costas da mão e respirou fundo, mas tentou organizar os pensamentos e o olhou firme. Infelizmente sua firmeza escapou no segundo seguinte e as lágrimas a invadiram de novo, então, sem conseguir nada dizer, ela apenas negou com a cabeça. Darius fechou os punhos. Ele se endireitou no banco ao lado de Gisele e mirou o chão embaixo de suas botas. Seus olhos olharam firmemente para a linha rachada em seus pés mostrando uma falha na solidificação do edifício. E era assim que todo o seu ser estava.
A rejeição era repugnante, doentia e nojenta. Ele queria pegar a fêmea, trancafiá-la em um quarto e urrar como um animal até que ela se arrependesse da merda daquela escolha e fosse dele! Mas Darius era mais que um p****e irracional, infelizmente. Volkon o avisou sobre a dor da recusa, mas ele não conseguia entender o motivo pelo qual ele estava passando por aquilo se ele tinha feito de tudo para não machucá-la. Ele foi dedicado, ele merecia ter da fêmea o sentimento supremo dos humanos. Mas, o que ele fez de errado!?
Ele a desejava com a força de sua vida! Porque estava sendo recusado!
— Darius? — Gisele secou as lágrimas e percebeu que havia uma sombra na face do Goldarx abaixado e mirando o chão. — Está tudo bem? — Ele se levantou, não respondeu, lhe deu as costas e começou a caminhar. — Darius, aonde vai?! — Ela perguntou se levantando do banco, mas travou assim que ele deu sua resposta.
— Você fez a sua escolha. — Mas ele parou, olhou para trás e repetiu suas palavras com um certo amargor na voz. — Alívio e felicidade, não é?
Ela engoliu devagar, piscou devagar e sentiu o peito inundar de choro. O corredor tinha algumas luzes brancas, um pequeno robô fazendo a limpeza e alguns Starianos em pontos estratégicos fazendo a vigia. Darius caminhava devagar e de punhos fechados, enquanto Gisele o via pelas costas, firme e estarrecido. Ela o rejeitou, mas ele só precisava entender. Porque ele levava tudo ao pé da letra?
E porque ela estava chorando com tanta dor? E porque ela sentia que Darius estava sumindo da sua vida?