Capítulo 2. Tamara

1033 Words
Enquanto minha irmã se aproximava do namorado — que também se revelou ser meu companheiro — percebi que, por mais idênticas que fôssemos, algo fundamental nos tornava completamente diferentes. Talita caminhava com graça; até o jeito de sorrir era distinto do meu. Aproximou-se de Jonathan e o abraçou. Senti uma vibração percorrer meu corpo, mas foi o oposto do que senti ao ouvi-lo me chamar de companheira. — O que está acontecendo aqui? — Ela nos olhou, confusa. — Maninha, não te vi durante a festa. Onde você estava? — Vim ver se o Eliot estava por aqui, mas não o encontrei — respondi, antes que Jonathan rosnasse novamente. — O que foi agora, Jonathan? — Talita o encarou, preocupada. — Infelizmente, é ela! — Ele me lançou um olhar carregado de ódio. — O que tem minha irmã? — ela insistiu. Ao ver a maneira como ele me olhava, compreendeu a resposta. — A minha irmãzinha é sua companheira? — Nunca gostei desse apelido. — E agora, o que vamos fazer? — Sua voz embargou, e o choro se intensificou, tornando a cena ainda mais dolorosa. — Eu quero você, meu amor. Apenas você — disse ele. Senti algo dentro de mim se rasgando outra vez. — Mas não podemos fazer isso. Não podemos ir contra a vontade da deusa Selene; ela nunca erra — Talita tentava argumentar. — E, além disso, Tamara é minha irmãzinha... Ele a abraçou, mas voltou a me olhar com desprezo. — Ah, por tudo que é mais sagrado... — suspirei, impaciente. — Vamos, Alfa Jonathan, me rejeite logo para que eu possa ir para casa dormir. Não sou obrigada a presenciar esse melodrama todo. — Tamara, por favor. Sei que você é uma Beta, mas nem todos conseguem suportar a rejeição de um alfa. Não faça nada da qual possa se arrepender depois — alguém tentou intervir. — Pouco me importa se ele é alfa. Só quero ir para casa e tirar esse vestido que está me sufocando — respondi, seca. Jonathan me olhava como se não acreditasse nas minhas palavras. — Vamos logo. Acabe com isso de uma vez por todas. — Não faça isso, Jonathan, ou eu nunca vou te perdoar — a voz de Talita saiu trêmula. — Faço isso por nós dois, amor — ele disse, tentando segurar sua mão, mas ela a afastou. — Eu, Alfa Jonathan Alencar, da alcateia Lua Vermelha, rejeito você, Tamara Marinho, como minha companheira e Lua da minha alcateia. Ainda não havia me conectado com minha loba, mas naquele instante, ouvi seu grito de dor dentro de mim. Respirei fundo. Sabia bem como esconder a dor. — Tamara, não aceite a rejeição dele! Não faça isso com você mesma. Você sabe que, na nossa alcateia, não existe segunda chance. Terá que se casar com alguém que nunca vai amar — minha irmã implorava. Fingi não escutar sua súplica. — Não vejo problema nisso. Posso muito bem me casar com alguém que não amo — retruquei. Ouvi outro rosnado vindo de Jonathan. — A deusa Selene me uniu a alguém que não amo, e o pior: ele ama a minha irmã. Virei meu rosto para ele. — Eu, Tamara Marinho, aceito sua rejeição, Jonathan Alencar, alfa da alcateia Lua Vermelha. Vi uma lágrima rolar por seu rosto, mas ele logo a enxugou. — Agora vocês estão livres para viver esse amor tão sonhado — declarei. Ao invés de voltar para a casa, meus pés me levaram rumo à floresta. Meu peito ardia, minha alma estava em pedaços e minha loba gritava como um animal ferido. Tentei abafar os gritos dentro de mim, mas tudo foi em vão. Quando voltei à razão, percebi que estava muito longe da casa do alfa. Olhei para trás e não vi ninguém, mas sentia que estava sendo observada. Algo se aproximava, mas eu não sabia de onde. Fechei os olhos, esperando o impacto. Foi então que tudo mudou. Um corpo se lançou na minha frente, e pelo cheiro, reconheci minha irmã. Um lobo vermelho pulou em seu pescoço e a mordia com ferocidade. Gritei por socorro, batendo no lobo com todas as minhas forças. Implorei à minha loba por ajuda, e mesmo sem força, mesmo sem jamais ter passado pela transformação, ela decidiu me atender. Diziam que a dor da primeira transformação era insuportável, mas naquele momento, eu só queria salvar minha irmã. A dor foi irrelevante. Talita lutava bem, mas não era páreo para o lobo que nos atacava. Após a transformação, pulei no pescoço do lobo e cravei minhas presas. Ele gritou, sem entender de onde vinha tanta força. Segurei-o com firmeza e o arremessei longe. Achei que ele voltaria, mas se levantou e fugiu floresta adentro. Voltei-me para minha irmã. Ela já estava em sua forma humana e gritava de dor. Aproximei-me dela ainda como loba e me preparei para colocá-la sobre minhas costas e levá-la de volta para a casa do alfa. O pai de Eliot, que era médico, saberia o que fazer. — Não, Tamara... não vou sobreviver. Aquele lobo injetou alguma toxina em mim — ela murmurou. Procurei algum objeto que pudesse conter a toxina, mas nada encontrei. — E ele fincou as garras no meu peito... perfurou meu coração — completou. Minha loba chorava e uivava, inconsolável. — Tamara, escute: lute pelo seu companheiro. E, por favor, não se culpe por nada do que aconteceu aqui hoje. Aquele velho era um lunático — referia-se ao ancião da profecia, aquele que dizia que uma de nós mataria a outra. Mas, pelo visto, o velho louco estava certo. Abracei minha irmã, ouvindo seu último suspiro. Ela me chamou de “Tata” e disse que me amava. — Também te amo, Tati — respondi, com a voz trêmula. Minha loba me permitiu falar com ela uma última vez. Era assim que sempre nos chamamos: Tata e Tati. Talita sorriu, e seus olhos se fecharam para sempre. Sentindo a dor que me dilacerava, minha loba uivou alto, um som de cortar a alma. — Foi você quem fez isso? — ouvi a voz de Jonathan. Levantei a cabeça e o vi cercado por familiares e convidados da festa.
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