CLARA SILVA
Assim que saí do estágio, fui até a casa da Gabi. Minha amiga estava animada, fiquei preocupada por ela não ter aparecido.
A casa da Gabi estava toda fechada. Chamei, bati na porta e nada. Já havia ligado para ela inúmeras vezes, o celular só dava desligado e o fixo tocava até cair.
Um cara com cabelos de dread se aproximou.
— Oi, me chamo Hugo. Sou... amigo da Gabriela.
— Oi, Hugo — a Clara já havia me contado sobre ele. — Você viu a Gabi hoje?
— Não, não a vejo desde ontem. Já liguei e chamei por ela, mas não tive resposta!
— Tem algo errado — encostei meu rosto no vidro da janela, tentando olhar dentro. — Era para ela começar a trabalhar hoje e não apareceu.
Peguei o número do Hugo e fui para casa. Caso a Gabi apareça, ele me dará notícias.
No dia seguinte fui até sua casa novamente. O Hugo estacionou alguns minutos depois, na casa ao lado, com uma aparência de cansaço de um longo dia de trabalho.
— Oi. Ela não deu notícias?
— Não, Hugo. Eu estou muito preocupada!
— Nenhuma luz foi acesa na casa durante a noite. Acho que devemos ir à delegacia!
— Meu tio é chaveiro, vou ligar para ele abrir a porta dela e termos certeza de que ela não está lá dentro.
Ele concordou. Fiz a ligação, e em menos de meia hora meu tio estava terminando de abrir a porta.
A casa estava toda organizada, tudo arrumadinho como a Gabi costumava deixar. Em cima do fogão tinha uma panela com macarrão estragado, que provavelmente ela deixou pronto para seu almoço.
Olhamos todos os cômodos. Não tinha nada fora do lugar. Seja lá o que aconteceu, não foi aqui dentro.
— Vamos à delegacia! — Hugo disse.
Minha mãe estava comigo e concordou com o Hugo que deveríamos denunciar o desaparecimento dela.
Fomos até a delegacia no carro do Hugo.
O policial fez inúmeras perguntas desnecessárias, insinuou que a Gabi estava na casa de algum garoto e que logo apareceria como se nada tivesse acontecido.
Hugo não gostou nada da forma como ele falou, exigiu falar com o delegado e finalmente conseguimos fazer a denúncia.
A parte mais difícil para mim foi fazer o retrato falado. Eu sou boa em reconhecer pessoas, mas sou péssima em descrever.
Os meses se passaram e nenhuma notícia da Gabi. A polícia localizou a mãe dela, que estava há anos sem dar notícias, mas nenhum sinal da Gabi.
Um dia meu celular tocou, e quase caí pra trás quando vi o nome dela na tela. Ela estava tensa na ligação, não respondia as coisas direito, e quando ela me disse "Está tudo bem, sim", usando o código que eu tinha com a minha mãe, tive a certeza de que ela estava tudo, menos bem. Ela me disse que estava com o Marcus. Eu não fui com a cara dele quando o vi no velório da dona Lurdes.
Fui à delegacia novamente, como faço toda semana desde que ela sumiu. Informei sobre a ligação e eles foram até a casa dela, olharam o histórico do PC, as conversas com o tal do Marcus, tudo.
— Tudo indica que infelizmente a amiga de sua filha é uma presa digital — o delegado informa diretamente à minha mãe.
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MAURO VOLPONE
Difícil engolir que aquela menina gosta do meu irmão. É notório que ela foge do toque dele.
Marcus demorou tantos anos para se relacionar com alguém e foi cair logo nas garras de uma ninfetinha interesseira.
Minha mãe adorou a garota. Disse que ela é meiga e parece uma boa pessoa. Ficou com pena por ela não ter ninguém.
Hoje teve o leilão de gado na fazenda da família, e a menina parece ter entrado em choque por algum motivo.
— Acho que foi uma forma de fugir do foco da sua pergunta sobre a faculdade! — Geovana tira os brincos, colocando-os sobre o criado-mudo — deve estar mentindo para o Marcus sobre estar cursando uma!
— Ela ficou bem surpresa mesmo quando toquei no assunto. Mas ela me perguntou uma coisa que fiquei um pouco preocupado, amor!
— Perguntou o quê? — Me sento na cama, observando minha mulher se desfazer do vestido que veste para entrar no banho.
— Perguntou por que eu não fujo — ela riu desconfortável. — Acho que ela precisa muito de ajuda psicológica, Mauro.
— Acha? Eu acho que ela é uma grande aproveitadora, isso sim...
— O Marcus hoje não foi muito paciente ao colocá-la no carro — ela comenta, deixando evidente seu descontentamento.
Mandei mensagem para o Marcus para saber se chegaram bem e se a farsante tinha melhorado.
Na manhã seguinte, fui trabalhar e decidi investigar um pouco sobre a namoradinha do Marcus. Meu irmão está envolvido com a menina, e não quero que ele caia em uma cilada. Não costumo fazer investigações pessoais, mas é por uma boa causa.
Digito o nome "Gabriela Borges" e as mentiras já começam com a morte da avó. Marcus pensa que a avó morreu em um assalto, e por causa disso a Gabriela tem síndrome do pânico. Mas, na verdade, a avó faleceu durante uma cirurgia.
— DESAPARECIDA! — Leio em voz alta, surpreso.
O primeiro pensamento que me veio ao ler isso foi que ela havia fugido para cá. Ligo para a delegacia onde foi feita a denúncia, me identifico e peço para falar com o delegado responsável pelo caso.
— A moça está há oito meses desaparecida. Tudo indica que foi raptada por um predador s****l. Ele a seduziu pela internet, deu dinheiro e assistência na morte da avó e depois sumiu com a moça sem deixar pistas. A amiga e o namorado fizeram a denúncia. A amiga fez um retrato falado do suspeito. Vou te enviar por fax.
Quando a imagem chegou pra mim, não tive dúvidas de que era o Marcus.
— Obrigado pelas informações, Alvarenga. Vou verificar. Se for a mesma pessoa, eu te aviso!
Finalizo a ligação, pego o retrato falado e vou direto para a casa do Marcus.