CAPÍTULO QUATRO

1032 Words
•CAPÍTULO QUATRO GABRIELA BORGES Passei todas as roupas de cama, preparei toda a casa para que ela estivesse limpa e preparada para receber minha vó em seu pós-operatório. – Bom dia, Gabi – Hugo me cumprimenta – Como está a Lurdes? – Está no hospital. Amanhã irá realizar a cirurgia. Estou indo para lá agora. Pego a bolsa, que está um pouco pesada, e fecho a porta. Ontem foi a primeira vez que passei a noite sozinha em casa. A noite pareceu durar uma eternidade. Vovó não quis que eu passasse a noite no hospital, mas hoje ela irá operar e eu vou ficar, ela querendo ou não. – Posso levar você, é caminho do meu trabalho. Penso no peso da minha bolsa com as coisas da vovó e no caminho que terei que fazer. Daqui para Laranjeiras, eu preciso de duas conduções. – Se não for incômodo, eu aceito! – minha vó me mataria se soubesse, mas a bolsa estava pesada. – Incômodo nenhum – um sorriso largo se forma no seu rosto. Hugo é um homem bonito, deve ter uns 25 anos, aproximadamente, mas usa umas roupas muito coloridas e dread nos cabelos. Vovó diz que ele é esquisito e deve vender drogas. Ele tem um cheiro diferenciado que me fez acreditar que, pelo menos, usuário ele seja. Ele pegou a bolsa das minhas mãos e colocou no banco de trás, abriu a porta do carona para que eu entrasse, e assim eu fiz. O carro dele era extremamente limpo, diferente do que eu imaginava. Achei que teria embalagem de comidas, sei lá... Acho que, assim como minha vó, eu julgava o Hugo de forma errada. – O que você faz? – perguntei assim que ele ligou o carro. Não queria que ficasse um silêncio desconfortável – Com o que você trabalha? – Sou administrador – ele ri. Acho que não escondi nada a surpresa – Por que essa cara? O que achou que eu fazia? – Não sei... Não achei que fosse do tipo que trabalha em empresas – acabo rindo, e ele também – Achei que fosse mais... irreverente. – Achou que eu vendia artes na praia. Entendi – nós rimos, até que eu notei seus olhos em minhas pernas – Vai ficar tudo bem, Gabriela. Noto que ele olhava as minhas mãos agitadas e não realmente as minhas pernas. Eu estava praticamente enfiando as unhas nas minhas próprias pernas sem perceber. Por mais que ele estivesse me distraindo, eu não conseguia esquecer que minha vó estaria entrando para a cirurgia em menos de uma hora. – Eu só tenho ela! – Vaso r**m não quebra, já ouviu esse ditado? – o tom descontraído voltou. Conversamos sobre muitas coisas até finalmente chegarmos em frente ao hospital – Quer que eu fique com você? – Não, não, obrigada. Já fez muito me trazendo até aqui – agradeço a carona, tento abrir a porta, mas não abre. – Já tem quem leve você e sua vó para casa? – n**o com a cabeça – Anota meu número e me avisa quando ela estiver liberada que eu pego vocês. Ele me entrega seu celular, anoto meu número e devolvo. Imediatamente, ele me liga para que eu tenha seu contato. – Salva aí e me liga qualquer coisa – ele sai do carro e eu tento, em vão, abrir a porta para sair. Mais uma vez, ele a abre para mim. Sorrio com a gentileza – Está com defeito, só abre por fora. Me obriga a ser sempre um cavalheiro. – Podia ter me deixado pensar então que era um cavalheiro – ele me entrega a minha bolsa. – Dei mole. Tenho que ir. Qualquer coisa me liga. Eu posso te ligar? – concordo. Era estranho admitir, mas gostei das olhadas discretas que ele me dava. Até hoje, só beijei meninos da minha idade, e Hugo tem uma idade próxima à do Marcus. Talvez dar uns beijinhos nele para ganhar experiência, para quando encontrar o Marcus não seja algo r**m. Me despeço dele e entro no hospital. • • Quando a porta do elevador fechou, prendi a respiração. Tenho pavor de ambientes fechados, e elevador, além de ser fechado, ainda se mexe. Solto a respiração aliviada quando a porta abre. Eu praticamente pulo para fora da caixa metálica. Vovó estava em uma conversa animada sobre novela com a moça que ela estava dividindo o quarto. Simone tinha feito a mesma cirurgia que minha vó faria três dias atrás, e graças a Deus se recuperava bem. – Como está se sentindo? – perguntei, colocando a bolsa em cima da poltrona ao lado da cama dela. – Ansiosa, louca para fumar um cigarro – a outra mulher riu e eu só pensei em como será difícil para ela se livrar desse vício. Mesmo com a respiração cansada e com a voz parecendo se esforçar para falar, ela ainda queria o maldito cigarro. – Como a senhora mesmo diz, vontade dá e passa, dona Lurdes. – Se alimentou direito, Gabriela? – Sim, vó. Não se preocupe que deixei a cozinha do jeitinho que a senhora gosta. Ficamos conversando por um tempo até que uma enfermeira entrou no quarto acompanhada por um homem empurrando uma cadeira de rodas. – Dona Lurdes, vamos lá? – a enfermeira tinha um sorriso simpático e uma voz calma. – Posso ir andando – tentou parecer firme, mas o cansaço na voz era evidente – Pensando melhor, vou economizar minhas pernas. Sorri para ela. Ela sentou na cadeira. Segurei sua mão no longo corredor de paredes brancas até uma grande porta. – A partir daqui, você não poderá acompanhar – a enfermeira fala, e eu beijo a mão da minha vó. Ela sorri. – Se cuida – ela apertou minha mão e soltou logo em seguida. – Vou ficar te esperando aqui para me ajudar a cuidar de mim! O homem empurrou a cadeira, levando minha vó. Fiquei parada ali por um tempo, lendo a placa escrito “Centro Cirúrgico” na porta. Tirei do meu bolso o terço que minha vó me deu de presente na minha primeira comunhão. Perdi a conta de quantas vezes eu rezei o terço.
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