2- AYLA

926 Words
CAPÍTULO 2 AYLA NARRANDO Assim que Kael saiu, eu soltei o ar devagar tentando controlar a raiva ou talvez o nervosismo. Porque droga… aquele homem mexia comigo de um jeito que eu odiava admitir. — Tá tudo bem, princesa? — um dos seguranças do meu pai perguntou. — Parece que eu tô bem? Ele ficou quieto na mesma hora. Ótimo. Pelo menos alguém naquele morro ainda tinha medo de mim. Voltei a andar tentando ignorar os olhares curiosos ao redor. O problema de nascer no Dendê era esse: ninguém respeitava privacidade. O morro inteiro devia estar comentando naquele momento sobre o encontro da filha do patrão com o futuro marido. Meu estômago embrulhava só de pensar nisso. Futuro marido. Que inferno. Passei o resto da tarde fora de casa só pra evitar meu pai. Porque eu sabia exatamente o que ele ia fazer. Mandar eu me arrumar. Mandar eu sorrir. Mandar eu agir como a futura mulher de Kael. Revirei os olhos só de imaginar. Quando cheguei na mansão no fim da tarde, o lugar tava ainda mais movimentado. Vários carros importados estacionados, homens armados espalhados pelos cantos e vapores subindo e descendo sem parar. A reunião já tinha começado. Subi pro meu quarto na intenção de fingir que nem existia, mas nem consegui fechar a porta direito. — Ayla. — a voz grave do meu pai ecoou pelo corredor. Fechei os olhos por dois segundos. Respira. Virei devagar dando de cara com ele parado na porta. Augusto Menezes. O dono do Dendê. Meu pai era o tipo de homem que assustava sem precisar levantar a voz. Alto, cheio de tatuagem, corrente de ouro grossa no pescoço e um olhar pesado que fazia qualquer um tremer. Menos eu. — O quê? Ele me encarou por alguns segundos. — Já falei pra tu parar de responder desse jeito. Cruzei os braços. — E eu já falei pra parar de decidir minha vida. O maxilar dele travou. Pronto. Agora começou. — Tu tá esquecendo com quem tá falando. — Não. Tô falando justamente com o homem que prometeu a filha como se fosse mercadoria. O silêncio ficou pesado. Meu pai respirou fundo tentando manter a calma. — Essa promessa manteve nosso morro de pé durante anos. — Problema teu. — Problema nosso! — ele elevou a voz pela primeira vez. — Tu acha que isso aqui é brincadeira? O morro do Coroa quase entrou em guerra com a gente três vezes! — Então casava você com o pai dele! Meu pai fechou os olhos desacreditado enquanto dois seguranças no corredor tentavam disfarçar o constrangimento. — Tu virou piada agora? — Não. Só cansei de ser tratada igual a um objeto. Ele passou a mão no rosto irritado. — Kael vai assumir a Coroa daqui um tempo. Quando isso acontecer, a união dos morros vai ficar mais forte ainda. Ri sem humor. — Que lindo. Uma história de amor baseada em fuzil. — Para de drama. Aquilo me irritou mais ainda. — Drama? Tu literalmente vendeu minha vida, pai! — Eu garanti teu futuro! — Garantiu foi um inferno pra mim! O olhar dele endureceu. — Já chega. Tu vai descer comigo daqui a vinte minutos. — Não vou. — Vai sim. — Não sou criança! Meu pai deu um passo na minha direção. — Justamente porque deixou de ser criança que tá na hora de cumprir o acordo. Meu peito queimou de raiva. Antes que eu pudesse responder, ele virou as costas. — Se arruma. — Eu odeio você! — gritei. Ele parou por um segundo. Mas não virou. — Um dia tu vai entender. Que eu tô fazendo isso para o seu bem. Ele falou e saiu. Peguei a primeira almofada da cama e joguei na parede com força. Que ódio. ÓDIO. Eu queria sumir dali. Queria fugir daquele morro. Queria nunca ter conhecido Kael. Mas no fundo eu sabia que fugir não era uma opção. Nunca foi. Uma hora depois eu tava descendo a escada da mansão praticamente obrigada. Vestido preto justo. Cabelo solto e salto alto. Minha mãe insistiu que eu me arrumasse “como uma mulher de respeito”. Ridículo. Assim que cheguei na sala principal senti todos os olhares em cima de mim. Os homens do Coroa estavam espalhados pelo ambiente. Armas na cintura. Correntes de ouro. Cara fechada. E no meio deles… Kael. Sentado no sofá como se fosse dono da p***a toda. Meu coração acelerou sem eu querer. Ele ergueu os olhos na minha direção e ficou me olhando sem desviar. Sem vergonha nenhuma. O olhar dele percorreu minhas pernas devagar, subiu pela minha cintura e parou na minha boca. Minha respiração falhou. Droga. Kael levantou do sofá lentamente. Todos os homens ao redor ficaram quietos automaticamente. Até meu pai observou. Kael veio andando na minha direção daquele jeito calmo que me deixava nervosa. Parou na minha frente, muito perto de novo. — Tá bonita. A voz rouca fez meu corpo arrepiar inteiro. Revirei os olhos tentando esconder o efeito que ele causava. — Não me arrumei pra você. O canto da boca dele subiu. — Mas ficou bonita pra caralhø mesmo assim. Meu coração bateu mais forte. Ódio. Era só ódio. Tinha que ser. Kael aproximou o rosto devagar. — Hoje tu vai sentar do meu lado. Franzi a testa. — E se eu não quiser? Ele segurou minha cintura firme. Dominante e possessivo. Meu ar travou. — Princesa… — a voz dele saiu baixa perto do meu ouvido. — Tu ainda tá confundindo querer com poder escolher. Continua.....
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