Olho de Vidro

1211 Words
Dizem que quando estamos à beira da morte todos os nosso pecados passam por nossos olhos, realmente é assim, agora pela segunda vez, bem mais velho, tenho certeza de que Deus não lembra quem eu sou e não irá me salvar. A primeira vez que estive de frente a morte, eu era uma criança inocente que cometeu alguns pecados, o pecado de andar com a pessoa errada, João Carlos, esse é o nome de quem me salvou e depois de anos descobri que foi ele que me tirou tudo, por isso estou aqui hoje, nessa situação, confesso que nunca pensei que o Carlos seria capaz de retomar o morro, não adianta não consigo chamar ele de Chuck, é Carlos, praticamente ajudei o João Carlos a criar esses moleques. Assim que escutei que o Carlos tinha retomado o morro e ainda assumido mais três, sabia que esse seria meu destino. Mas para que vocês entendam o que me levou a trair meu melhor amigo, meu irmão, minha única família, temos que voltar um pouco, bastante no tempo. Vamos lá. 25 anos atrás. Tenho 12 anos e sou um completo filhinho de papai, estou na porta do colégio esperando meu pai vir me buscar, meu pai é advogado criminalista, minha mãe, ela era uma p**a do morro, que fez a cabeça do meu pai. Hoje meu pai está demorando, com certeza está com seus clientes, toda vez que ele sobe o morro ele esquece de me buscar, olho para dentro da escola e praticamente todos foram embora. Coloco a mochila nas costas e vou andando, a caminho de casa. m*l chego na porta do prédio que moro e encosta um carro, já reconheço pelo visual é alguém do morro, mas não tenho medo. Continuo andando, descem dois encapuzados com balaclava, se aproximam de mim e puxam, me jogam dentro do carro, colocam um saco na minha cabeça, o saco é preto, aqueles sacos de lixo. Eu nem grito, já sei que vou pro morro, não é a primeira vez que meu pai manda me buscar e eles fazem isso, mas dessa vez, quase cheguei em casa. Não deu outra, subimos o morro, vamos direto para onde meu pai está, eu desço do carro e vou em direção ao meu pai, até agora sem dar uma palavra. — E aí ele chorou? — Nada “doto”, nem choro, nem grito, esse aqui vai ser temido. – Fala um dos caras que estava no carro. — Vem cá filho, desculpa eu me atrasei, temos muitos assuntos pendentes. Eu sinto tanta raiva disso, eu odeio que meu pai me trate assim, não me importo de vim pro morro eu até gosto. Me aproximo do meu pai. — Sua benção. — Deus te abençoe meu filho. — Ei Marcos, quer ir lá pra casa, o João já chegou da escola também. – Diz Paulo. — Pode ser tio. — Levem ele lá para casa. – Ele ordena seus homens. — Ok chefe. Sigo com os homens, são três quadras dali eu chego e João já vem, de cara fechada pros homens. — Vaza p***a. Entra aê Marcos. Entro na casa, tiro minha mochila. — Bora jogar? — Bora. Era assim, toda vez que meu pai precisava passar horas no morro com o Paulo, pai de João eu ia para a casa dele e ficávamos jogando, anos se passaram e a rotina era a mesma a diferença que agora eu já com 16 anos e João com 17, eu já subia por conta própria pro morro, ele se tornou meu melhor amigo, um dia eu estou subindo o morro e escuto tiros para todo lado, no lugar de voltar, não, continuo subindo quando chego na casa do João, com muito custo, escuto tiros vindo de lá, tem um homem do lado de fora caído morto no chão, pego a arma dele, nunca atirei, apesar de João insistir em me ensinar agora me arrependo, vou entrando como se eu soubesse o que estou fazendo, João está encurralado, e reconheço o cara que está apontando a arma para ele, é o filho do dono do morro rival, aproximo dele e encosto o cano da arma na nuca dele, engatilho a arma. — Abaixa a p***a da arma. Quando ele vai se virar eu aperto o gatilho, mas eu não tinha visto que tinha outro homem na casa e ele atira em mim, não me acerta em cheio porque com o coice da arma, que eu nem sabia que dava, eu acabo indo para trás, mas a bala acertou meu rosto, pegando de raspão, no meu olho. João olha para mim, sangrando no rosto e acerta o cara que assustou quando me reconheceu, até poucos dias atrás eu não sabia que era por isso a cara de susto, João aproveita a distração do cara e rende ele e nem pensa e atira na cabeça dele. João vem até mim e corre comigo pro médico do morro, que diz que vou ficar cego, eles chamam meu pai, mas não me deixam sair do morro. Eu fiquei cego de um olho e devido o olho branco o apelido, olho de vidro. Dias se passaram e eu estava saindo do colégio, último ano, meu pai disse que ano que vem vai me mandar para estudar em outro país para minha segurança. Quando eu digo que foi por eu andar com a pessoa errada é porque se eu não tivesse me tornado amigo de João, eu não teria subido o morro, se eu não tivesse entrado na casa do João, eu não teria ficado cego de um olho e se eu não tivesse me tornado tão amigo dele, quando meu pai foi morto uma semana depois eu não teria me mudado para o morro. 1 semana atrás Eu estava chegando no QG quando escuto uma conversa do João no telefone. — c*****o, até hoje esse assunto? O advogado tá morto, foi morto uma semana depois da traição dele para meu pai. — Claro que tenho certeza seu i****a, fui eu mesmo quem matei o Doutor Marcelo. — Não quero mais ouvir falar desse assunto, entendeu? Escuto barulho de coisas caindo no chão, desisto de entrar, preciso absorver o que escutei. Foi o meu melhor amigo, que eu salvei a vida no dia em que eu perdi a visão de um olho meu, que matou meu pai. Isso me enlouquece, mas ele é o fodão do morro, se eu mato ele minha cabeça vai parar em uma estaca. Então preciso bolar um plano e assim eu faço eu me uno ao Magnata, amigo de João e ambicioso para caramba, o que eu não imaginava é que ele iria unir forças com dois rivais, Dente de ouro e Boca Preta e que Carlos conseguiria derrubar os três, assim que soube as notícias eu já sabia que eu iria morrer. HOJE POW Como disse, pela segunda vez vejo passar pelos meus olhos toda a minha vida, todo o meu pecado, a traição ao João, eu me arrependi, mas era tarde porque se o Magnata não tivesse unido com o Boca Preta e o Dente de Ouro ele não teria morrido eu teria avisado ele a tempo. Estou pronto para morrer e pagar meus pecados no inferno.
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