O carro de Sarah passava por Baraúna, demorou, mas chegaram. Agora, o motorista dirigia para um prostíbulo por nome de Luz Vermelha.
— Você é muito rica? — perguntou Sabryna e Sarah expressou alegria por Sabryna se interessar por ela em algum momento.
— Sim, sou muito rica — respondeu Sarah. — Não mais que Valéria que é milionária. Eu cuido da loja dela desde sempre, tanto que ela me tornou uma das proprietárias da empresa, mas eu já tinha muito dinheiro, pois, na época em que Kanahlic reconquistou o trono, os Feiticeiros Oprimidos que a ajudaram foram muito bem recompensados. Valéria e eu temos outra loja em Minas Gerais, lá em Uberlândia, quem toma conta de tudo por lá é o Alejandro, ele é como se fosse o marido de Valéria. Tiveram um filho juntos, mas a Valéria perdeu o bebê. Eu vim para cá para mudar de Vida, apaguei os meus rastros para não ser seguida, mas o Destino me pregou mais uma peça, tive que me envolver com a Assembleia dos Feiticeiros das Cinzas cujo líder é o Feiticeiro Mascarado.
"Ela falou o nome da Allogaj três vezes", observou Sabryna.
— Você gosta de Valéria?
Aquela pergunta deixou Sarah pensativa, demorou para responder:
— Sim, eu amo aquela menina. Não sei por que, ela é uma pessoa h******l, mas ela tem as suas qualidades ainda que quase nulas. Somos amigas, mas isso não influencia nos meus julgamentos e nas minhas decisões em r*****o ao mundo mágico. Eu sou uma Cinicae, acidentalmente, cheguei a um lugar onde estava havendo um processo de conversão quando o Allogaj Cesar conjurou a luz e causou um erro no resultado. A luz dele é muito forte, ele é muito poderoso, somente os Anciões mesmo para detê-lo. Enfim, por ser uma feitiçaria das cinzas, fui renegada pela sociedade, e por incrível que pareça, a Rainha Kanahlic, apesar de louca, sempre acolheu o pessoal das cinzas, mas a irmã mais nova dela, a atual Rainha de Ic, Zadahtric, odeia esse pessoal, e agora que a Profecia de que ela vai ser destronada por alguém das cinzas foi lançada, ela surtou ainda mais e está aniquilando a gente. Valéria e eu éramos contra o Reinado de Zadahtric, nós abraçamos a causa de Kanahlic, porém, Valéria enlouqueceu também, se envolveu com magia obscura e com seres obscuros. Eu a amo, mas não posso compactuar com as mesmas práticas. Eu ainda tenho luz dentro de mim, ela não tem. Ela estava na zona de conforto, eu não.
— Disseram-me que você fala muito, mas eu já sabia— foi o que Sabryna falou sobre aquilo tudo e Sarah gargalhou.
— Você é aleatória ou é impressão minha?
— Você se parece com Karen.
— Ah! — Sarah não gostou da comparação, e era verdade que se pareciam, em alguns aspectos. — A loiro oxigenada. É um surto por aqui? Não existem mais loiras legítimas?
— Por que não gostou dela?
— Não sei. Eu acho que ela também não gostou de mim.
— Por quê?
— Ai! Não sei, Sabryna, não torne isso um problema. As pessoas são assim mesmo. Você nem parece que é humana.
Sabryna, de fato, era humana, porém, o seu isolamento, durante vinte anos, a tornou uma pessoa diferente das demais, era como se ela estivesse a aprender a ser comum agora por socializar.
Enfim, chegaram. Sarah pediu para o motorista não estacionar muito perto do prostíbulo, não queira ser vista naquele lugar. Ela fez cara de nojo e pôs os seus óculos escuros.
— Faça como combinamos — ordenou Sarah e Sabryna confirmou.
Sabryna desceu do carro enquanto Sarah a esperava lá dentro e andou em direção ao prostíbulo, não sabia se a sua mãe biológica estava lá, era comum que naquele horário houvesse uma pausa para o almoço com todas as "funcionárias". Ela estava semelhante a uma evangélica que evangelizava por aquela região.
— Boa tarde, senhora — disse a recepcionista. — Se veio pregar a Palavra de Deus, estamos em... — ela interrompeu-se ao perceber quem era a pessoa ali, e saiu de trás do balcão da recepção. — Nossa Senhora, é a Sabryna? — ela começou a gritar. — Gente, venham ver, a Sabryna voltou e poderosa.
Sabryna ficou tão envergonhada que abaixou a cabeça, ela própria tinha esquecido que estava totalmente produzida, mas imediatamente a recepcionista levantou o queixo dela.
— Menina, como você é linda, estava escondida numa maluca esfarrapada? Por quê? Qual foi a Santa que fez este milagre?
"Santa Karen", pensou a garota. "Ou Santa Sid."
— Eu só quero ver a Olívia — disse Sabryna.
O pessoal começou a aparecer e a ficar admirado com a produção de Sabryna. De novo, Olívia apareceu por último e gritou:
— Saiam da frente, vagabundas, saiam — assim que ela viu a filha, ficou deslumbrada. — Sabryna? Você está... Você está incrível — foi a única coisa legal que ela pôde dizer para uma garota tímida com baixa autoestima.
— Posso falar com a senhora em particular? — pediu Sabryna.
Olívia ficou parada com os olhos a brilhar pela garota, ninguém nunca a viu desconcertada como naquele dia.
— Ah! Sim, sim. Podemos, mas seja rápida, o Pablo pode aparecer a qualquer momento, não quero que ele te veja aqui.
— Vamos saindo pessoal... — gritou a recepcionista.
— Não será necessário — disse Sabryna —, eu quero falar com ela lá fora.
Sabryna levou a sua mãe biológica até o carro de Sarah estacionado a metros de distância do prostíbulo.
— O que é isto? — perguntou Olívia quando chegaram mais perto do carro. — Casou com um homem rico que está te dando de tudo? Rápida, hein! Espero que não seja um velho que... — Olívia parou de falar quando Sarah abaixou o vidro da porta, depois encarou a Sabryna. — Você é sapatão? Bom, pelo menos ela é jovem e bonita.
— Olívia, esta é a Sarah Franco — apresentou Sabryna. — Sarah, esta é a Olívia, a mulher que te falei, a minha mãe biológica.
— Ela é a sua cara — Sarah colocou a mão para fora do carro para cumprimentá-la. — Prazer.
Olívia apertou a mão da loira e respondeu:
— Só na cama.
Sarah recolheu a mão depressa e disse:
— Só para deixar claro, não sou lésbica, sou muito bem casada, Sabryna é uma pessoa muito querida para mim e estou a ajudando.
— Eu queria ter uma amiga assim. Me contem aí, o que é que está acontecendo?
— Olívia — respondeu Sabryna —, lembra quando eu te perguntei se você tivesse uma oportunidade de emprego, se você mudaria?
— Sim, lembro. O que é? Você conseguiu tão rápido, ou isso já estava planejado?
— Eu consegui.
— Olívia — Sarah tomou a fala —, eu sou a dona de uma mega loja de roupas da cidade, quero te contratar como a gerente, você será treinada e capacitada para ocupar o cargo que é meu, mas não preciso exercer. Há um subgerente, se não souber resolver alguma coisa, ele resolve. Você terá um salário fixo, alugaremos uma casa mobiliada para você morar e poderá pegar algumas roupas da loja para usar, até determinado tempo. Então, largue este lugar infame e venha conosco.
Olívia ficou boquiaberta. O seu olhar estava tão distante que nem parecia que a sua alma estava no corpo. Após constrangedores segundos, ela voltou a si e franziu o cenho.
— Não — foi a sua resposta.
— O quê? — Sabryna ficou, interiormente, estupefata. — Por quê?
— Eu não quero — Olívia falou com tanta naturalidade que fez da excelente proposta de Sarah como uma coisa qualquer.
— Mas... — Sabryna estava atônita, pensou que fazia uma boa ação, não entendeu o porquê de a sua mãe biológica não aceitar.
— Sabryna, eu não quero, nem você e nem esta loira boçal me obrigarão a sair daqui, nem por um milhão de reais. Você nem me conhece.
— Mãe, você me garantiu...
Olívia pegou Sabryna pela gola da camisa e amarrotou a sua blusa.
— Não me chame de mãe, eu não sou a sua mãe.
Sarah, que estava no banco de trás, abriu a porta do carro, mas Olívia usou o seu pé e empurrou a porta para fechá-la novamente. A loira retirou os óculos escuros depressa e olhou para Olívia de soslaio, fuzilou a mulher com o seu olhar bastante irritada, achou muita petulância de uma simples Immunus. O motorista de Sarah também abriu a porta do carro, ele intimidaria a p********a Olívia, mas Sarah ordenou que ele voltasse para o seu posto e que não olhasse para trás. Ele obedeceu.
— Eu não te prometi nada — continuou Olívia e Sarah assistia à cena, ela aproveitou a distração de todos e fez o seu bastão mágico aumentar de tamanho —, disse que sim para você, que aceitaria a oferta de emprego porque eu pensei que nunca conseguiria. Não sei que milagre foi esse que você veio aqui de repente com uma proposta dessas. Eu não quero. Além disso, eu disse para você não votar mais aqui, não foi? Pegue a porcaria da sua amiga metida e b***a e vá embora...
— Ó, céus! — exclamou Sarah, ela olhava fixamente para Olívia. — Você está com câncer nos pulmões? — Sarah ouviu o que Olívia não conseguia dizer em palavras.
Olívia olhou para Sarah como se tivesse visto um fantasma, m*l sabia ela que a loira possuía um dom muito raro. A p********a tinha pouco tempo de vida e não queria que ninguém se apegasse a ela para não sofrer com a sua morte aos trinta e cinco anos, menos ainda a sua única filha. Ela desfez a sua cara de espanto e expressou a sua raiva, aproximou-se do carro e esmurrou o teto.
— Como você soube disso, a sua desgraçada? — berrou Olívia. — Não era para ninguém saber. p**a, maldita.
Olívia levantou a mão para esmurrar o carro novamente, mas Sarah a olhou como se ela fosse uma reles mortal, levanto o seu bastão mágico e conjurou o feitiço Mildigi, um flash intenso de luz brilhou da Pedra de Vírnam e Olívia esfregou os olhos, depois cambaleou para trás e caiu no chão.
— Sarah? — indagou Sabryna.
— O que você fez comigo? Desgraçada, eu perdi as minhas forças.
Sabryna se apressou em ajudar Olívia.
— Sarah? — insistia a garota. Ela sabia que foi um feitiço, mas não sabia qual era e o que causava a uma pessoa comum.
Sarah saiu do carro com o bastão na mão, pois, bem longe pôde ver o pessoal do prostíbulo a correr para encontrá-las. O pessoal observava tudo de longe.
— Eu te hipnotizei, mulher da vida — disse Sarah para Olívia. — Você é um m*l agradecida. Uma garota que nem te conhece, como você disse, se importa muito com você, se disponibilizando para te ver bem de vida e você bancando a egoísta. Ah! Faça-me o favor.
O pessoal do prostíbulo estava bem perto, Sarah sorriu, caminhou na sua direção e assim que ficaram a poucos metros, prontos para defenderem a sua companheira, ela conjurou o feitiço Svenante, um flash de luz piscou intensamente da Pedra de Vírnam e todos e todas caíram desmaiados no chão.
— Quem é você? — perguntou Olívia totalmente fraca.
— Sarah, o que há com você? — questionou Sabryna.
— É só a***o de poder — respondeu Sarah a dar de ombros. Depois voltou para o carro a dizer: — Eles vão ficar bem, não se preocupe. Um dia você vai entender tudo isso, você é uma Allogaj das Cinzas, chegará ao apogeu do poder.
Sarah tinha conhecimento do que ocorria consigo própria, agora era uma feiticeira das cinzas, tinha dois polos e isso mexia muito com a sua personalidade.
— Olívia — disse Sabryna para a sua mãe biológica —, você está doente, mas pode ser curada.
— Sabryna, câncer não tem cura — agora, Olívia queria dormir devido à sua total perda de forças.
— Tem, sim, e vou trazer para a senhora, prometa-me que desta vez a senhora vai aceitar. Prometa-me.
— Mas você nem me conhece. Por que está fazendo isso?
Sabryna nem teve a chance de responder e obter respostas, Olívia desmaiou imediatamente.
— Vocês se parecem — comentou Sarah —, eu aqui toda emocionada e vocês duas não derramaram uma gota de lágrima.
Sabryna colocou Olívia educadamente no chão e foi para o carro.
— Sarah, faça alguma coisa, não deixe ela morrer.
— Agora é com você, amor — respondeu Sarah. — Eu não sou tão poderosa, usei feitiços simples e daqui a pouco o efeito passa.
— O que eu faço?
Sarah a entregou o bastão mágico e mandou que ela conjurasse o feitiço Savi Materio. Assim Sabryna fez e depois foram embora daquele local.
¶
Sabryna ficou o caminho inteiro de cabeça baixa, Sarah quis conversar com ela, tentar consolá-la, mas não sabia o que a garota pensava. Não queria piorar tudo.
Quando chegaram em casa, viram as meninas reunidas e apreensivas na sala. Estavam sérias e o clima estava tenso. Dona Fátima ficou de pé para receber a filha.
— O que aconteceu? — perguntou Sabryna.
— Nada, filha — respondeu Fátima. — Mas elas me deixaram muito preocupadas.
— Aurira sentiu a presença de Luvas-de-Prata — respondeu Gisele. — Fong os viu voando sobre a casa, mas estavam muito longe. Parece que não nos perceberam.
— Para que lado foram? — perguntou Sarah.
— Para oeste — respondeu Fabiana.
— Estavam muito rápidos?
— Muito — afirmou Fong.
— Nós estamos protegidas pela magia de ocultamento muito forte — disse Belisa. — É impossível eles terem passado por aqui por nossa causa.
— Então outro feiticeiro está na área — explicou Afrima. — Deve ser bem poderoso para terem sentido a sua Emissão. E se os Luvas-de-Prata estavam o procurando, então ele não deve ser nosso inimigo.
— Pode ser o Feiticeiro Mascarado — sugeriu Sarah. — Não estamos mais na Loja, e também a maldição foi quebrada, ele já nos visitou outras vezes. Creio que ele sentiu a sua magia ser quebrada por Sabryna e veio checar.
— Por que ele viria para cá? — questionou Fabiana. — Ele espera por nós. Fora que ele é um exímio ocultador, não deixaria que o percebessem.
— Mas praticar magia poderosa na Terra, como o ocultamento, exige um esforço a mais — disse Leiane.
— Tudo bem, seja lá quem for, tenham certeza de que está atrás de vocês — completou Sarah.
Se o clima estava pesado, Sarah conseguiu deixar tudo mais tenso.
— Cadê a Karen? — perguntou Sabryna e todas lhe olharam a querer saber se ela não entendia a gravidade da situação.
Para elas, uma simples Immunus não era digna de importância naquele momento.