Heros Narrando
Tem coisa que a gente nunca esquece. Pode passar ano, pode passar guerra, pode até mudar o mundo, mas tem dor que fica enfiada no peito, latejando todo santo dia. A mãe da minha filha foi uma dessas cicatrizes mäl curada. Traíra. X9 desgraçada. Me iludiu direitinho, fez jura de amor, jurou fidelidade, chorava no meu colo dizendo que só tinha eu, e no fim, sumiu na madrugada com um tira. Um maldito policial.
Essa história começou errado e terminou pïor ainda. O bagulho ficou feio de verdade quando invadiram meu morro. No meio da quebradeira, no meio do tiroteio, no meio do caos, meu pai tombou. Mataram ele como se fosse ninguém. Um homem honrado, que nunca correu de pörra nenhuma, morreu defendendo o que era dele. Eu vi com meus próprios olhos. Sangue no chão, corpo no meio da sala, minha filha chorando no berço e a infeliz da mãe dela já tinha vazado com o amante fardado.
Naquela noite, eu jurei vingança. De verdade mesmo. Não foi da boca pra fora. Eu tava com o olho ardendo de raiva, o coração moído, as mãos tremendo de ódio. Quem fez aquilo vai pagar. Um por um. Vai ter sangue derramado. Vai ter justiça do meu jeito. Porque a lei deles nunca protegeu a gente. E se eles acham que eu vou esquecer, tão malucos.
Fiquei sozinho com minha cria. Sozinho não, né? Porque minha filha me deu força. Só de olhar pra ela, tão pequenininha, indefesa, já me dava vontade de botar o mundo abaixo pra ver ela sorrir. E meu irmão mais novo também tava comigo. Moleque firmeza, sempre na contenção, nunca me largou. Nós dois juntos, lado a lado, segurando a bronca. A vida me arrancou tudo, menos a responsabilidade.
Hoje em dia geral me vê rindo, fazendo baile, organizando festa, botando a quebrada pra viver. Mas ninguém conhece o corre de verdade. Ninguém sabe o que eu já engoli calado, quantas lágrimas eu derramei escondido, quantas noites eu fiquei acordado com medo da minha filha acordar chamando pela mãe. Mas eu nunca deixei faltar nada pra ela. Nunca.
Eu sou Casca grossa. No sentimento, no trato e na atitude. Já me envolvi demais com quem não prestava, já fui burro, já confiei em quem não devia. Agora não. Agora eu não vacilo mais. Amor? Tô fora. Paixão? Só se for pela vida que eu tô construindo pra minha menina. Mulher pra mim é só diversão, sem apego. Sem coração no meio. Depois daquela traíra, meu coração virou pedra. E eu juro que não quero quebrar essa rocha nunca mais.
A galera me chama de chefe, de patrão, de Dono da pörra toda. Mas eu continuo sendo só um cara que teve que crescer na marra. Que viu o pai morrer no chão, que viu a mulher fugir com o inimigo, que teve que aprender a ser pai e mãe ao mesmo tempo. Tem gente que diz que eu sou frio. Que eu nunca vou me entregar de novo. Que eu não tenho mais alma. E quer saber? Talvez estejam certos.
Só que frio ou não, minha filha vai ter tudo. Tudo que eu nunca tive. Tudo que tentaram me tirar. Ela vai estudar, vai ser livre, vai ser respeitada. Vai andar de cabeça erguida sem medo de polícia, sem medo de bandido, sem medo de pörra nenhuma. E quem tentar impedir isso vai cair. Porque eu não perdou, não esqueço e não recuo.
Cada baile que eu faço é pra lembrar que a favela tem voz, tem luz, tem alegria mesmo na dor. Cada risada que eu dou com os cria é pra não enlouquecer com os fantasmas que me assombram à noite. Mas amor? Não, parceiro. Isso eu deixei pra trás. Amor é uma ilusão bonita que um dia me matou por dentro. Não caio mais nessa.
Hoje, eu danço com a dor e brindo com a saudade. Mas meu foco é um só: vingança. Justiça. E criar minha filha com dignidade. Quem me vê na pista pensa que eu sou só festa, só farra, só ostentação. Mas por trás do sorriso tem história. Por trás da gargalhada tem luto. E por trás dessa máscara sou aquele que sobreviveu ao inferno e voltou pra contar.
Não adianta vir com historinha, com olhar doce, com papo de “eu sou diferente”. Eu escuto, eu jogo o charme, mas meu coração continua fechado com cadeado de aço. Quem me traiu não foi só a mulher que me deixou. Foi o sistema, foi a confiança, foi a esperança. Eu não me envolvo mais. Eu comando, eu decido, eu respeito quem merece. Mas amar? Isso morreu junto com meu pai naquela noite maldita.
O nome dela eu nem falo mais. É como se não existisse. Sumiu da minha vida igual sumiu da quebrada. Ninguém mais viu, ninguém mais sabe. Se um dia cruzar meu caminho de novo, vai passar direto. Porque não olho pra trás. Só pra frente. Sempre pra frente.
E é nessa caminhada que eu tô. Criando minha filha com amor de verdade, protegendo meu irmão mais novo do mundo crüel, e jurando, todos os dias, que ainda vou cobrar cada lágrima que chorei. E quem me conhece de verdade sabe que eu cumpro tudo que prometo.
Mas o mundo gira, né? E a favela nunca dorme. Nessa vida aqui, o improvável acontece num estalo, e às vezes é o destino que arma as peças só pra ver se a gente vacila de novo.
E foi aí que apareceu ela.
Tava suave na minha, cuidando dos corre, mente focada no trampo, sem pensar em mulher nenhuma, até o dia que a namorada do meu irmão chegou toda empolgada me apresentando uma amiga nova.
— Heros, essa aqui é a Renata. Veio morar no complexo, tá ficando lá em casa por enquanto.
Mano, quando eu virei e vi a mina, até o ar travou no pulmão.
Pensa numa mulher linda, com aquele tipo de corpo que para baile, rosto de princesa e um sorriso que parece feitiço. Renata. Só o nome já descia gostoso. Mina firme, olhar direto, e um jeito de quem não baixa a cabeça pra ninguém. Uma presença daquelas que mexe até com quem já fechou o coração.
Fingi tranquilidade, soltei aquele sorriso maroto de sempre, mas por dentro já tava tramando.
“Essa aí vai ser minha. Ou não me chamo Heros.”
Não que eu tivesse pensando em me apaixonar. Deus me livre. Mas levar pro matadouro? Ah, isso eu ia. Com estilo, com calma, do meu jeitinho. Renata não sabia, mas tinha acabado de entrar num território perigoso. E eu já tinha marcado o nome dela na mente.
O problema? O problema é que tem mina que não é só corpo. Tem mina que vem com alma. E se eu vacilar, posso acabar caindo. E , parceiro, não caio por ninguém. Ou será que caio?
Isso aí, cês vão ver ao longo da caminhada.
Por enquanto, só posso dizer uma coisa:
essa história tá só começando.