Heros Narrando
O baile tava no pique. Campo lotado, geral dançando, cheiro de churrasquinho no ar e o grave do som estalando bonito. Eu tava na minha, encostado no camarote, baseado na mão, cerveja na outra, curtindo minha brisa. No fundo da mente, o alerta sempre ligado, mas ali era festa, era o dia do meu irmão.
Fumaça tava lá agarrado com a Kelly, e vou falar, a vibe daqueles dois é de respeito. A mina é doidona, se joga, dança, bebe, mas tem postura. E o meu irmão olha pra ela com aquele brilho no olho que não dá pra negar. Um completa o outro. Tá na cara, só não vê quem não quer.
Tava nesse clima quando um dos moleque da contenção subiu no camarote, chegou no meu ouvido:
— Heros, o carro do MC já encostou. Tá na contenção.
— Libera pra subir, pô. Já deixa o DJ avisado que é pra parar tudo, escolta ligeira, na atividade.
Fiquei ali de canto, só esperando, e não demorou muito, o DJ gritou no microfone.
— É ele, é o brabo. Com vocês. MC MANEIRINHOOO.
O campo parou. Mano, geral gritando, celular pro alto, luz piscando, e o maluco entrou como rei, já cumprimentando Fumaça, abraçando os moleques, jogando rima no improviso, botando a galera lá em cima. A quebrada vibrou.
Foi nesse momento que meu olho bateu do outro lado do camarote.
A Baiana. Tava com a Eduarda e a Larih, rebolando daquele jeito que não tem como ignorar. Mó swing, quadril soltinho, sorrisinho no rosto, cabelão batendo nas costas. A calça marcando o corpo perfeito, e a blusa tomara que caia deixando as tatuagens dela aparecendo. Carälho, que tempero é esse, hein, mãe?
Fiquei só observando. A visão era absurda.
E não vou mentir, já curti só de olhar. Mas não era só eu que tava olhando, né? Tinha uns urubu já colando, com olho de fome. E eu não gosto de dividir visão assim não. Ainda mais quando o cheiro da mina já tinha me deixado maluco antes.
Desci do camarote, fui andando até o canto que elas tavam. No meio do caminho uma cocota veio se jogando em mim, toda se achando, querendo atenção.
— Sai fora, gata. Não é teu momento.
Ela ficou bolada, fez cara feia, mas vazou. Meu foco era outro. Quando cheguei perto da Renata, já falei no ouvido dela, e ela se sentou.
Aí eu pensei: era isso que eu queria mesmo.
Sorri de volta, dei aquela encarada cheia de maldade, e falei só pra cutucar:
— Tá cansada ou só fugindo de mim?
Ela riu, tirou onda, e não respondeu. Fiquei ali por uns segundos, depois voltei pro camarote. Era isso. Joguei meu charme, deixei no ar. Ela entendeu.
O baile seguiu frenético, MC Maneirinho botando o campo abaixo, e eu curti sim, bebi, dei risada com os moleques, mas vou confessar: a melhor visão da noite foi aquela Baiana rebolando.
Mina cheia de atitude, corpo que fala por si só, sorriso debochado, e um olhar que parece que lê tua alma e te desafia ao mesmo tempo. E o pior: ela não é do tipo que corre atrás, é do tipo que faz tu correr.
E isso me deixa mais interessado ainda.
O baile já tava nos finalmentes, mas a energia ainda tava lá no alto. DJ mandando os últimos batidão, a galera suada, copo vazio, corpo cansado, mas ninguém queria sair. MC Maneirinho já tinha encerrado o show, agradeceu geral e desceu, foi tirar foto com os moleques lá da contenção.
Eu desci do camarote e fui circulando. Cumprimentei uns parceiros, dei uma geral, mas minha atenção voltou pro ponto fixo da noite: Renata, a Baiana.
Ela tava de novo perto do bar, encostada, tomando os últimos goles da cerveja, e rindo de alguma coisa que a Kelly falou. Linda demais, parecia até que tava com brilho próprio. Cabelão todo bagunçado de tanto dançar, maquiagem levemente borrada, mas aquilo só deixava ela mais gata ainda.
Cheguei perto, com aquele meu jeito tranquilo, sem pressão, sem pressa. Encostei do lado dela e falei baixinho, com aquele tom que eu sei que pega:
— Foi mó satisfação te conhecer, Baiana, Mas se tu quiser prazer, é só chamar.
Ela revirou os olhos com tanta força, que eu quase escutei o barulho da paciência dela indo embora. Mas vou te falar? Aquela encarada dela me pegou de um jeito. Fiquei imaginando ela revirando o olho assim mas em outra situação, tipo, num clima mais quente, mais íntïmo, tá ligado?
Soltei uma risada baixa, sem vergonha nenhuma.
— Caraca, se tu revirar o olho desse jeito na cama, eu infarto, viu.
Ela riu de canto, aquele sorrisinho debochado, como quem não dá trela, mas também não fecha a porta. A Kelly já tava acenando pra ela, Fumaça do lado com o braço no ombro da mina, prontos pra ir embora.
Renata me olhou mais uma vez, aquela encarada de quem ainda não decidiu se gosta de mim ou se quer me bater, e foi indo com os dois. Fiquei ali parado, vendo ela sumir no meio da galera, rebolando de leve, calça agarrada, corpão indo embora.
Respirei fundo, passei a mão no rosto, e decidi encerrar a noite também, até porque já passava das 7hs. da manhã.
Fui direto pra minha goma. A rua tava mais calma, o barulho do baile ainda ecoando lá do campo, mas meu pensamento já tava em outra sintonia. Subi a viela como quem carrega o peso do dia bom. A noite tinha sido quente, movimentada, mas agora era silêncio.
Assim que entrei, fui direto no quarto da minha filha. Cecília.
A porta tava entreaberta, a luz do abajur baixinha iluminava o rostinho dela dormindo. Paz. Aquela cena me desmonta. Ela abraçada no travesseirinho, toda embolada no lençol com aquele cabelo bagunçado de criança. Me aproximei, dei um beijo na testa dela bem devagar, pra não acordar.
— Te amo, minha princesa.
Saí em silêncio, fui pro meu quarto. Tirei a camisa, chutei o tênis pro lado, fui direto pro banheiro. Banho rápido, só pra tirar o suor do baile e a poeira da quebrada. Água gelada na nuca, respiração profunda, precisava baixar a adrenalina.
Saí do banho, vesti só um calção. Cama me chamando.
Deitei e fiquei uns minutos olhando pro teto. Pensando na Baiana. Aquela rebolada, aquele olhar, a atitude. A mina é fogo, mas não é qualquer uma. E eu gosto disso. Já vi que o jogo dela é demorado, e eu tenho tempo. Vamos ver quem cansa primeiro.
Fechei os olhos e dormi com aquele cheiro dela ainda grudado na minha memória.