Heros Narrando Depois do almoço, levei a Cecília pra escolinha. Ela estuda de tarde, né. Nunca deixei ela estudar de manhã na época do frio, mano. Tenho coragem não de acordar minha cria nesse gelo todo, cê é louco. Ela fica toda encolhidinha na cama, agarrada no travesseirinho dela, quebra meu coração. Aí de tarde já tá um solzinho, o corpo esquenta, ela vai mais tranquila. Dei um beijo na testa dela, ajeitei a mochilinha nas costas e deixei na porta da escola. — Tchau, filha. Papai te ama, hein? — Também te amo, papai. Fui pra boca depois. O clima já tava estranho desde cedo. Uns papos torto rolando no rádio, os moleque falando que tinha carga que sumiu no caminho do Porto até aqui. Uma carga grande. E o dono do morro não pode vacilar com esse tipo de coisa. Não é só grana, é nome.

