Capítulo 1- Quando nossos mundos se chocaram

2157 Words
Sou Ana Alis. Tenho dezenove anos, um metro e sessenta de altura, cabelos castanhos que descem longos pelas costas e olhos âmbar que, segundo minha mãe, sempre carregaram o brilho dos sonhos. Desde menina alimento um desejo que agora começa a se tornar realidade: estudar Administração na Universidade Valthera, em cidade Y. Só de pensar, meu coração dispara é felicidade demais para caber dentro de mim. Mas junto com a alegria, vem a pontada inevitável da despedida. Vou deixar meus pais. Vou deixar meus irmãos. Vou deixar o meu lar. Somos uma família unida dessas que ri alto na mesa do jantar e se abraça sem precisar de motivo. Nossos pais nos deram coisas que o dinheiro já mais pode comparar,muito mais valioso: amor, estrutura e princípios. Criaram cinco filhos com dedicação admirável. Todos já formados ou quase todos. Falta eu. Mas por pouco tempo. Em breve, também serei motivo de diploma na parede da sala. Meu irmão Bento virá me buscar. Vou morar com ele por um tempo, até conseguir um lugar mais perto da faculdade. Sei que ele não vai gostar muito quando eu disser que quero sair depois… mas vai ter que aceitar. Ele sempre aceita. Mesmo resmungando. Desço as escadas tentando controlar o turbilhão dentro de mim. Encontro meus pais sentados no sofá. O olhar deles denuncia o que as palavras ainda não disseram: choraram. Meu peito aperta. Nunca fiquei longe deles. Nunca precisei aprender a sentir saudade à distância. Meu pai, Paulo Oliver, é um homem de pulso firme, mas de coração imenso. Minha mãe, Amélia, é um encanto doce e forte na mesma medida. Consegue ser a pessoa mais amorosa do mundo… e a mais brava também. E eu amo cada detalhe deles. Quando nossos olhos se encontram, não precisamos dizer nada. Eu choro. Eles choram. Nos abraçamos como se pudéssemos congelar o tempo naquele instante. Eles sabem que eu preciso ir. Eu sei que eles sempre estarão ali. Prometemos visitas, promessas de ligações diárias, promessas de que nada mudará mesmo sabendo que tudo mudará um pouco. Estamos conversando quando ouvimos o som do carro de Bento chegando. Meu coração dispara outra vez. Corro até a porta. Quando o vejo, não me controlo ,abraço-o com força, beijo seu rosto repetidas vezes. Ele segura meu rosto entre as mãos, os olhos marejados, e diz, com a voz embargada: Como a minha menina cresceu… Rimos para disfarçar o nó na garganta. Tomamos café juntos pela última vez antes da partida. Cada gole parece uma tentativa de prolongar o inevitável. E então chega a hora. Vamos de carro. Tenho pavor de avião prefiro a longa estrada, o tempo se estendendo diante de mim, como se cada quilômetro fosse uma preparação para a nova vida que me espera. A viagem será longa. Mas o meu sonho é maior Sou Theo Salvatori. Tenho vinte e três anos. Olhos verdes frios, segundo alguns. Cabelos castanho claros sempre alinhados, postura impecável. Um metro e noventa de altura e um corpo bem definido, resultado de disciplina, constância e horas incontáveis na academia. Nada em mim é por acaso. Tudo é estratégia. Tudo é construção. Sou o CEO da Salvatori Tecnologia. Assumi cedo. Cresci cedo. Aprendi cedo que o mundo não espera por ninguém e que, se você hesita, perde. Eu não perco. Sou o mais velho da família. Tenho um irmão de dezenove anos, Enrico Salvatore. Ele estuda Administração na Universidade Valthera. Preciso que, futuramente, ele esteja ao meu lado na empresa. Não por obrigação. Mas porque Salvatore não nasce para ser comum. Nasce para comandar. Dizem que sou frio. Dizem que estou sempre três passos à frente. Dizem que odeio perder. Estão certos. Antecipar movimentos é uma arte. Enquanto muitos pensam no agora, eu já estou no depois. Não construí um império tecnológico para ser apenas mais um no mercado. Eu comando. Eu lidero. Eu venço. Também falam que sou playboy. Talvez. Mulher, para mim, é distração temporária. Uma noite. Nada além disso. Não quero ninguém grudado. Não quero promessas, cobranças, expectativas. Emoções são brechas. E brechas são fraquezas. Eu não tenho fraquezas. Ou pelo menos é isso que todos pensam. Porque, se existe algo que realmente importa na minha vida, são eles. Meus pais. Minha mãe, Elena, é um doce a única pessoa capaz de suavizar a rigidez que carrego nos ombros. Meu pai, Eduardo Salvatore, é um homem justo, íntegro, de pulso firme. Foi com ele que aprendi que respeito não se pede se impõe. E Enrico. Meu irmão não é apenas meu irmão. É meu ponto de equilíbrio. O único que consegue me lembrar de quem eu era antes dos contratos milionários, das reuniões estratégicas e da frieza calculada. Eles são os únicos amores da minha vida. O resto? O resto é negócio. E nos negócios, eu nunca perco. Ana Lis Nossa… até que enfim chegamos. A viagem foi longa, cansativa, e cada quilômetro parecia carregar o peso da despedida que deixei para trás. Estou exausta. Meus olhos ardem, meu corpo pede descanso, mas meu coração ainda está acelerado demais para acompanhar o cansaço. O apartamento do meu irmão é enorme. Lindo. Sofisticado. Tudo ali parece ter sido pensado nos mínimos detalhes móveis modernos, iluminação elegante, aquele cheiro leve de ambiente organizado demais para ser apenas coincidência. É a cara dele. Bento me mostra o meu quarto com um sorriso orgulhoso, como se quisesse garantir que eu me sentisse segura ali. O espaço é acolhedor, claro, com uma janela ampla que revela as luzes da cidade ao longe. Vai tomar um banho e depois vem comer alguma coisa — ele diz, com aquele tom protetor que sempre teve comigo. Eu balanço a cabeça, já me arrastando de sono. Não quero… estou tão cansada que só quero dormir. Ele cruza os braços, fingindo severidade. Nada disso, mocinha. Tem que comer. Bento, meu irmão. O amor da minha vida... Reviro os olhos, mas sorrio. Tomo um banho demorado, deixando a água quente aliviar o peso da estrada e da saudade que insiste em apertar meu peito. Visto um pijama confortável, janto mesmo sem muita fome só para deixá-lo tranquilo e antes de me recolher, dou um beijo demorado em seu rosto. Obrigada por tudo sussurro. Ele apenas bagunça meu cabelo, como fazia quando éramos crianças. No quarto, já deitada, envio mensagem para meus pais avisando que chegamos bem e que amanhã ligarei com calma. Imagino minha mãe relendo a mensagem várias vezes. Imagino meu pai fingindo firmeza enquanto sorri aliviado. Apago a luz. O silêncio é diferente aqui. Novo. Desconhecido. Amanhã irei à Universidade Valthera fazer minha matrícula. Só de pensar, um frio gostoso percorre meu estômago. É o começo de tudo. O primeiro passo para o meu futuro. Sorrio sozinha no escuro. E assim, entre ansiedade e sonhos, adormeço. Theo Acordo cedo. Não porque preciso. Mas porque disciplina é um hábito que não se negocia. Levanto da cama, faço minhas higienes, tomo um banho demorado e frio o suficiente para despertar não apenas o corpo, mas também a mente. Visto-me com precisão, camisa alinhada, relógio no pulso, postura impecável. Sempre pronto. Dormi na casa dos meus pais esta noite. Gosto de vir para cá depois de um dia exaustivo. Apesar de tudo, é o único lugar onde o peso do mundo parece diminuir alguns quilos sobre os meus ombros. Aqui, ainda sou filho. Não apenas CEO. Desço as escadas com passos firmes, sentindo o aroma do café recém passado preencher o ambiente. Mas antes mesmo de chegar à cozinha, escuto a voz do meu pai. Já está na hora de ele se casar… Meu maxilar se contrai automaticamente. Fico parado por um instante, ouvindo. O Theo precisa formar uma família ele continua, falando com minha mãe como se eu não estivesse ali. Desço o último degrau. Não gostei disso digo, direto, sem rodeios. Os dois se voltam para mim. Minha mãe suspira, meu pai mantém aquela expressão séria, inabalável. Você precisa parar com essas noitadas ele afirma. Está na hora de arrumar uma mulher de verdade. Se não arrumar… eu mesmo arrumo. A última frase ecoa como um desafio. Sinto a irritação subir, controlada, mas intensa. Eu não gosto que decidam por mim. Não gosto que interfiram na minha vida como se eu fosse incapaz de conduzi-la. Pego as chaves do carro antes que a conversa avance para algo pior. Não discuto quando não há possibilidade de vitória. Apenas me retiro. Saio de casa. O ar da manhã está fresco, mas não o suficiente para esfriar meus pensamentos. Casamento. Como se fosse uma cláusula obrigatória. Entro no carro e sigo direto para a Universidade Valthera. Tenho uma reunião importante hoje. Afinal, além de CEO da Salvatore Tecnologia… também sou um dos proprietários da universidade. Estaciono, ajusto o paletó e observo o prédio imponente à minha frente. Negócios eu sei conduzir. Mas essa história de casamento? Isso não está nos meus planos. E ninguém muda meus planos. Ana Lis Acordei animada. Ansiosa. Elétrica. Hoje é o dia. Levantei cedo, escolhi minha roupa com cuidado algo simples, mas que me deixasse confiante. Arrumei o cabelo, fiz uma maquiagem leve e, quando me olhei no espelho, sorri. Eu estava linda. Tomei café com o Bento e fiquei esperando enquanto ele ia buscar o carro na garagem. Estou tão ansiosa, maninho falei assim que entrei no carro. Ele riu, daquele jeito tranquilo que sempre consegue me acalmar. Calma, princesa. Vai dar tudo certo. Estamos quase chegando. O coração começou a bater mais forte conforme nos aproximávamos. Pronto, chegamos, princesa. Quando desci do carro… perdi o fôlego. A Universidade Valthera era simplesmente deslumbrante. Moderna e ao mesmo tempo clássica. Parecia coisa de outro mundo. O prédio enorme, os jardins perfeitamente cuidados, fiquei maravilhada Entramos. Bento resolveu tudo na secretaria com eficiência. Documentos assinados, matrícula confirmada. Deu tudo certo. Enquanto ele ainda resolvia algumas últimas coisas, decidi caminhar um pouco pelos corredores. Queria sentir o lugar. Passei por um corredor amplo, iluminado por janelas enormes. Enchi um copo com água no filtro, porque, de repente, a ansiedade virou sede. E então… Pá. Bati em alguém. A água inteira virou sobre a camisa dele. Meu coração quase saiu pela boca. Levantei o olhar. E congelei. Era um homem alto. Muito alto. Elegante. Impecavelmente vestido. Traços marcantes, olhar intenso… absurdamente lindo. Lindo até demais. Mas o que era beleza virou tempestade quando ele me encarou com fúria. Tá cega, garota? Aquilo me subiu uma raiva instantânea. Quem ele pensa que é? Cruzei os braços, ergui o queixo e respondi, sem pensar duas vezes: Cega é a senhora sua mãe. Ele me encarou. Sério. Surpreso. Irritado. Mas eu não recuei. Olhei bem nos olhos dele e completei: Sai da minha frente, se não eu derramo o filtro inteirinho na sua cabeça. Passei direto por ele, como se não estivesse com o coração disparado e as mãos levemente trêmulas. Homem louco. Quem ele acha que é? Encontrei o Bento minutos depois. Fomos a uma sorveteria ali perto, e contei tudo. Ele quase morreu de rir. Ana… você está arrumando confusão no primeiro dia? A culpa não foi minha! rebati. Mas, enquanto fingia indignação… A verdade era outra. Aquele homem não saiu da minha cabeça. O jeito como ele me olhou. A intensidade. A postura. A presença. Que homem lindo é esse? Theo Chego à Universidade Valthera já irritado. A conversa com meu pai ainda ecoa na minha cabeça como um ruído persistente. Casamento. Responsabilidade emocional. Noitadas. Como se minha vida estivesse fora de controle. Ela não está. Eu controlo tudo. Ou pelo menos era o que eu pensava… até aquele exato momento. Estou caminhando pelo corredor principal, ajustando mentalmente os pontos da reunião que terei, quando, de repente Impacto. Água. Fria. Direto na minha camisa. Olho para baixo. O tecido caro completamente encharcado. Respiro fundo. Conto até três. Levanto o olhar. E encontro… ela. Uma garota. Não. Uma visão. Cabelos castanhos caindo pelas costas, olhos brilhando entre susto e desafio, traços delicados demais para a expressão irritada que carrega. Por um segundo um único segundo eu quase perco o fôlego. Ela é linda. Perigosamente linda. Mas o encanto dura pouco. Tá cega, garota? a frase sai mais ríspida do que eu pretendia. Ou talvez não. E então ela responde. Cega é a senhora sua mãe. Eu fico imóvel. Ela acabou de chamar minha mãe de cega? Ninguém fala assim comigo. Muito menos com minha família. E ainda assim… ali está ela. Pequena em comparação à minha altura, mas com uma postura que não recua. O queixo erguido. O olhar firme. Por um instante, eu fico sem reação. Não pela ofensa. Mas pela ousadia. E pela forma como aqueles olhos âmbar me encaram sem medo algum. Ela ainda completa: Sai da minha frente, se não eu derramo o filtro inteirinho na sua cabeça. Eu deveria responder. Deveria colocá-la no lugar dela. Deveria lembrar quem eu sou. Mas simplesmente observo enquanto ela passa por mim como um furacão.
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