Capítulo 4- Promessa Silenciosa

929 Words
Theo Não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via o medo no rosto dela. Os olhos arregalados. A respiração trêmula. A fragilidade que ela tentava esconder, mas que escapava pelos detalhes. E a cicatriz. Aquela maldita cicatriz. Olhei para o relógio no criado-mudo. 03h02. O silêncio da madrugada nunca me incomodou. Pelo contrário — sempre foi meu aliado. Mas naquela noite ele parecia pesado demais. Peguei o celular. — Quero tudo sobre ele. Hoje. Liguei para Afrânio. Afrânio não é apenas meu segurança. É meu homem de confiança. Trabalha comigo há anos. Discreto, eficiente, leal. Ele atendeu no segundo toque. — Aconteceu alguma coisa, doutor? Contei tudo. Sem omitir nada. Descrevi o homem com precisão — altura, postura, a forma como se movia, a cicatriz que cortava o lado esquerdo do rosto. Falei o local, o horário, cada detalhe que pudesse ajudar. — Quero nome, endereço, antecedentes. Quero saber quem ele é, com quem anda, onde trabalha. E, assim que encontrar esse desgraçado… me manda a foto. Houve um breve silêncio do outro lado da linha. — Entendido. Desliguei. Fiquei alguns segundos encarando o teto. Tentei fechar os olhos outra vez, mas era inútil. O rosto dela voltava. A boca dela. O jeito que me abraçou. Soltei o ar com força e me levantei. Fui até o banheiro e abri o chuveiro no mais frio possível. A água gelada caiu sobre mim como um choque necessário. Eu precisava me recompor. Eu sempre fui um homem controlado. Racional. Não deixo emoções guiarem minhas decisões. Mas aquilo não era apenas irritação. Era algo diferente. Passei as mãos pelo rosto molhado. Amanhã é domingo. Vou para a casa dos meus pais. Eu amo meus velhos. Sinto falta deles mais do que admito. Só espero que não venham com aquela conversa sobre casamento. Casamento. Quase ri. Está completamente fora de cogitação. Não agora. Talvez nunca. Às seis da manhã, eu já estava de pé. Fiz minhas higienes, tomei outro banho — dessa vez morno — e me vesti com calma. Dirigi até o condomínio Vale Verde, onde cresci. Aquela entrada sempre traz uma sensação estranha de pertencimento. Estacionei em frente à casa e, antes mesmo de tocar a campainha, a porta se abriu. — Theo! Minha mãe praticamente correu até mim. Abraçou-me com força, como se eu ainda fosse o menino que voltava da escola. Meu irmão veio logo atrás, rindo. — Sumido! Sorri. — Vocês dramatizam demais. Meu pai apareceu na porta com os braços cruzados. — Resolveu lembrar que tem família? Tentei segurar o riso. — Sempre lembro. Ele manteve a expressão séria por alguns segundos, mas logo se aproximou e me deu um abraço rápido, firme. Do jeito dele. E, para minha surpresa, ninguém tocou no assunto casamento. Graças a Deus. Tomamos café juntos. Conversamos sobre negócios, sobre a empresa, sobre banalidades do dia a dia. Minha mãe reclamou que estou trabalhando demais. Meu pai falou sobre investimentos. Meu irmão contou histórias da faculdade. Observei aquela cena em silêncio por alguns instantes. Minha base. Meu equilíbrio. Mas, mesmo ali, entre risadas e cheiro de café fresco, minha mente me traía. Olhos assustados. Um abraço inesperado. Uma cicatriz. Meu celular vibrou discretamente no bolso. Não olhei. Não ali. — Segunda eu quero ficar contigo depois da aula — meu irmão disse animado. — Vou ter uma reunião com uns amigos perto do seu apartamento. Fica mais fácil pra mim. — Claro — respondi. — Você sabe que pode contar comigo. Ele sorriu satisfeito. Meu irmão pode tudo. Sempre pôde. Passei boa parte da manhã ali. Escutando. Participando. Fingindo que minha cabeça não estava dividida entre dois mundos. O da família. E o dela. Saí no início da tarde. Minha mãe insistiu para que eu levasse comida. Meu pai pediu para avisar quando chegasse. Meu irmão me deu um soco leve no ombro antes de entrar. Dirigi de volta com o rádio desligado. Preciso distrair a cabeça. Como se tivesse ouvido meus pensamentos, meu celular tocou. Allan. Atendi. — Hoje é dia de balada, meu caro! — ele anunciou, animado como sempre. — Faz tempo que você não aparece. E hoje a meta é clara: pegar geral. Soltei uma risada curta. Allan é o oposto de mim. Impulsivo. Despreocupado. Vive como se cada noite fosse a última. — Você nunca muda — respondi. — E você anda sério demais. Tá precisando de diversão. Talvez estivesse mesmo. Talvez eu precisasse de música alta, bebida forte e alguma mulher que não mexesse comigo. Que não tivesse olhos Âmbar assustados. Que não tremesse quando eu a segurasse. — Eu vou — respondi. — Aí sim! Esse é o Theo que eu conheço! Desliguei. Não vou comentar com meus pais que vou sair hoje. Melhor assim. Estacionei em frente ao meu prédio e permaneci alguns segundos dentro do carro. Silêncio. Mas não era vazio. Era preenchido por pensamentos que eu não queria ter. Eu nunca misturo proteção com envolvimento. Nunca. Mas aquela garota… Fechei os olhos por um instante. O jeito que me abraçou. Como se confiasse. Como se eu fosse o porto seguro. E talvez eu tivesse gostado disso mais do que deveria. Meu celular vibrou. Mensagem de Afrânio. “Já estou levantando informações. Até o fim do dia tenho algo.” Um sorriso discreto surgiu. Ótimo. Encostei a cabeça no banco e respirei fundo. Se aquele homem achou que poderia encostar nela e sair impune… Ele não faz ideia de quem acabou de provocar. E, pela primeira vez em muito tempo, percebo que minha motivação não é apenas justiça. É pessoal. Muito pessoal.
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