capítulo 9- Eu protejo o Que importa

1722 Words
Theo Eu sabia que algo estava errado antes mesmo de vê-la. O campus estava agitado demais. Cochichos demais. Olhares cruzando o corredor como se algo tivesse acontecido. E quando ouvi o nome dela — Ana Lis — eu soube. Caminhei pelo corredor com passos firmes. Não gosto de tumulto. Não gosto de exposição desnecessária. E, principalmente, não gosto quando o nome do meu irmão é envolvido em drama. Enrico é impulsivo. Leve. Social. Eu sou o contrário. Mas ele é meu irmão. E eu o amo acima de qualquer coisa. Foi então que eu a vi. No meio do corredor. Postura ereta. Queixo levemente erguido. Olhos firmes. E na frente dela… Eleonora. Ótimo. Eu parei a alguns metros. Não interferi de imediato. Eu precisava entender o que estava acontecendo. — Fica longe do meu Enrico. A voz de Eleonora ecoou clara. Meu Enrico? Eu fechei a mandíbula. Não por ciúme. Mas por irritação. Enrico nunca deu a ela qualquer tipo de direito. Nunca. Ana Lis não recuou. Ela não abaixou a cabeça. Ela não demonstrou medo. — E se eu não ficar? A resposta veio calma. Direta. Eu senti algo estranho no peito. Não era preocupação apenas. Era… admiração. Ela não fazia ideia com quem estava lidando. Eleonora não é só uma garota mimada. Ela está acostumada a vencer pelo cansaço. Pela pressão. Pela influência. E ainda assim, Ana Lis sustentou o olhar. Sem tremor. Sem hesitação. Quando Enrico apareceu, eu quase intervi. Mas não precisei. Ele olhou para as duas, confuso. Eleonora tentou minimizar. Mas Ana Lis não deixou. — Ela acabou de me mandar ficar longe de você. Direta. Transparente. Sem jogo. O rosto de Eleonora mudou na hora. E eu senti orgulho do meu irmão quando ele respondeu: — Com que direito você pede isso? Ali estava Enrico. Justo. Claro. Sem ambiguidade. Eu amo isso nele. Ele nunca dá espaço para interpretações erradas quando decide ser firme. Ana Lis saiu antes que a discussão se estendesse. Puxou os amigos e foi embora. E eu fiquei ali. Observando. Eleonora tentou argumentar algo, mas Enrico não estava disposto. Eu conheço aquele olhar. Ele já estava irritado. E eu odeio quando ele se envolve em situações que podem manchar o nome dele. Ou o nosso. Quando a situação se dispersou, caminhei até o corredor lateral. Eu precisava vê-la de perto. Ela estava com os amigos, rindo, mas havia algo diferente no olhar. Não era medo. Era consciência. Ela sabia que tinha feito algo grande. Quando nossos olhos se encontraram, o mundo ao redor pareceu diminuir. Ela não desviou de imediato. Eu também não. Eu não estava com raiva dela. Eu estava preocupado. Não por mim. Não por Enrico. Por ela. Ela não entende ainda como certas pessoas funcionam. Ela não entende que algumas guerras começam pequenas e crescem rápido demais. Enrico se aproximou dela primeiro. Eu observei. Ele perguntou se estava tudo bem. Ela respondeu com firmeza. Sem vitimismo. Sem dramatização. Isso me desarma mais do que deveria. Quando ele saiu, eu me aproximei. Eu não planejava falar. Mas falei. — Você devia ter ignorado. Ela cruzou os braços. Defensiva. — Ignorado o quê? — Ela. Não era uma ordem. Era um conselho. Mas ela não gosta de conselhos. Isso ficou claro. — Eu não ignoro quem vem me ameaçar. O maxilar dela ficou firme. Eu quase sorri. Corajosa. Impulsiva. Perigosa. — Isso pode complicar sua vida aqui. Ela me olhou como se estivesse me desafiando. — Isso é um aviso? — É um conselho. Eu jamais a ameaçaria. Não ela. Ela perguntou se eu sempre tento controlar tudo. Eu não respondi de imediato. Porque, sim. Eu controlo o que posso. Porque já vi o que acontece quando não se controla. — Eu protejo o que importa. A frase escapou antes que eu pudesse medir o peso dela. E eu vi. Ela percebeu. Ela perguntou se eu também precisava de proteção. Por um segundo, a resposta verdadeira quase saiu. Todos precisam. Inclusive eu. Principalmente eu. Mas não é sobre mim. Nunca foi. Quando falei que ela não deveria responder mensagens de qualquer um, eu não estava sendo possessivo. Eu estava sendo estratégico. Noah é impulsivo. Enrico é transparente. Mas o mundo ao redor deles nem sempre é. E ela ainda não entende isso. Quando ela perguntou se era sobre Noah, eu preferi não responder. Porque, se eu respondesse, ela ouviria algo que talvez eu ainda não esteja pronto para admitir. Não é sobre Noah. Não é sobre Enrico. É sobre ela. É sobre a forma como ela entrou no meu mundo sem pedir permissão. E a forma como, mesmo amando meu irmão e respeitando cada espaço dele, eu sinto que algo está mudando. Mas uma coisa é clara. Eu jamais competiria com Enrico. Jamais. Ele é minha família. Meu sangue. Meu ponto de equilíbrio. Se algum dia Ana Lis escolher se aproximar dele, eu aceitarei. Mesmo que me custe. Porque lealdade não é opcional para mim. Mas enquanto isso não acontece… Eu observo. Eu avalio. Eu protejo à distância. Ela acha que declarou guerra contra Eleonora. Ela não faz ideia. A verdadeira guerra é outra. É interna. É silenciosa. E está acontecendo dentro de mim. E o mais perigoso de tudo? Não é que eu esteja perdendo o controle. É que, pela primeira vez… Eu não tenho certeza se quero recuperá-lo. Depois que ela se afastou pelo corredor, eu permaneci parado por alguns segundos. As pessoas passavam ao meu redor, mas eu m*l registrava. Minha mente ainda estava presa na cena. A firmeza dela. O modo como sustentou o olhar. A ausência de medo. Ela não faz jogos. Ela não provoca para manipular. Ela simplesmente é. E isso é perigoso. Perigoso porque pessoas assim não entendem o tipo de mundo em que estão entrando. Enrico apareceu ao meu lado minutos depois. Você viu, né? ele perguntou. Vi. Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. Eu já falei mil vezes que não tenho nada com a Eleonora. Eu sei. E eu sei mesmo. Enrico nunca brincaria com os sentimentos de alguém. Se ele quisesse algo, seria claro. Se não quer, também é claro. Ela não precisava ter sido envolvida nisso, ele continuou. Ele. Não ela. Isso me chamou atenção. A Ana Lis se defende bem, eu respondi. Ele me olhou de lado. Você reparou bastante. Eu sustentei o olhar dele. Não existe mentira entre nós. Eu sempre reparo. Ele ficou em silêncio por um instante. Theo… — ele começou, mas parou. Fala. Você está interessado nela? Pergunta direta. Como sempre. Eu poderia mentir. Mas não para ele. Não para Enrico. Demorei alguns segundos antes de responder. Eu não sei. E essa foi a resposta mais honesta que eu poderia dar. Ele me estudou com atenção. Só não complica as coisas. Não era acusação. Era pedido. Meu irmão sempre foi o mais leve entre nós, mas quando se trata de algo sério, ele sente antes de todo mundo. Eu nunca complicaria algo seu respondi firme. E é verdade. Se algum dia ela olhar para ele da forma como olhou para mim… Eu recuo. Sem discussão. Sem disputa. Porque amor fraternal não se negocia. Enrico assentiu, satisfeito com a resposta. Ela é forte, ele disse. Eu percebi. Ele deu um meio sorriso. Gosto disso. Eu também. E talvez seja exatamente esse o problema. Quando ele se afastou para ir para a aula, fiquei sozinho no corredor outra vez. Meu celular vibrou. Mensagem de um dos coordenadores. Assuntos administrativos. Reuniões. Planilhas. Decisões. Esse é o meu mundo. Controle. Estrutura. Previsibilidade. Mas ela… Ela não é previsível. Ela reage. Ela enfrenta. Ela provoca sem perceber. E o que mais me desestabiliza não é o fato de outros homens olharem para ela. É o fato de que ela não parece se importar com o efeito que causa. Ela não usa o olhar como arma. Ela não sorri calculando impacto. Ela simplesmente vive. E isso mexe comigo de um jeito que eu não esperava. Mais tarde, da janela do meu escritório, eu a vi atravessando o pátio com Laura e Márcio. Rindo. Gesticulando. Leve. Ela parecia distante do conflito da manhã. Como se não tivesse acabado de desafiar uma das garotas mais influentes da universidade. Eu admiro isso. Mas também me preocupa. Porque o mundo não é tão simples quanto ela acredita. Eleonora não vai esquecer. E eu sei exatamente como esse tipo de mente funciona. Ela vai planejar. Ela vai observar. Ela vai esperar o momento certo. E eu estarei atento. Não porque Ana Lis me pertence. Ela não pertence. Não a mim. Não a ninguém. Mas porque, de alguma forma que ainda não compreendo totalmente, eu sinto responsabilidade. Não é posse. Não é domínio. É instinto. O mesmo instinto que me faz proteger Enrico desde que éramos crianças. O mesmo instinto que me fez assumir responsabilidades cedo demais. Eu protejo o que importa. E, de forma perigosa, ela está começando a importar. A questão é: Importar como? Interesse passageiro? Atração intensa? Ou algo mais profundo que eu ainda não quero nomear? Fechei os olhos por um instante. A imagem dela enfrentando Eleonora voltou à minha mente. A coragem. A firmeza. Aquela frase: “Você também não sabe com quem está mexendo.” Eu quase sorri. Ela não sabe mesmo. Não sabe o alcance do meu nome. Não sabe o quanto posso interferir se quiser. E não sabe que, se alguém tentar machucá-la de verdade… Eu não ficarei parado. Mas há uma linha que eu não posso cruzar. Ela é aluna. Eu sou um dos donos da universidade. Eu preciso manter distância. Preciso manter lucidez. Preciso manter controle. E, ainda assim… Quando nossos olhares se cruzaram no corredor, algo dentro de mim decidiu que isso não será simples. Ela não é simples. E eu nunca fui homem de querer o simples. O problema é que, desta vez, não se trata apenas de mim. Enrico está no meio. Eleonora está envolvida. A universidade inteira já comenta. E eu preciso ser inteligente. Muito inteligente. Porque se eu errar… Eu não perco apenas uma mulher interessante. Eu posso abalar o equilíbrio que levei anos para construir. E isso eu não permito. Nunca. Mas uma verdade ecoa, insistente, dentro de mim: Se alguém sair machucado nessa história… Eu farei de tudo para que não seja ela. Mesmo que, no final… Seja eu.
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