Capítulo 11- Ela chamou meu Nome

1292 Words
Theo Eu estava em casa, tentando descansar. A cabeça cheia. Pensamentos demais. Trabalho demais. E, principalmente, Ana Lis. Não importava o quanto eu tentasse ocupar a mente com relatórios, contratos ou números. Ela sempre voltava. O olhar. O sorriso. A irritação. Aquele jeito de me desafiar como se não tivesse medo de nada. Meu telefone começou a tocar. Enrico. Ignorei. Não estou bem hoje. Ele ligou de novo. Suspirei irritado e atendi. Alô. Enrico, o que você quer? Eu não estou bem hoje. A voz dele veio diferente. Tensa. Urgente. Theo, por favor… vem ajudar a gente. Drogaram a Ana Lis. Estamos desesperados. Estamos na boate Raiz. Vem logo, Theo. Eu não lembro de ter desligado. Não lembro de ter pegado as chaves. Quando dei por mim, já estava no carro, dirigindo em alta velocidade. Drogaram. Ana Lis. Um calor violento subiu pelo meu corpo. Desgraçado. Quem fez isso com ela? Eu vou matar quem fez isso. Cheguei à boate Raiz em tempo recorde. Nem esperei manobrista. Entrei sem cumprimentar ninguém, ignorando olhares e seguranças que me reconheceram. Fui direto para a sala privada onde Enrico costuma ficar. E então eu a vi. Desacordada. Nos braços do meu irmão. Meu coração falhou uma batida. Ela parecia pequena. Vulnerável. Frágil demais. Não perguntei nada. Vocês vão no carro do Noah ordenei. Eu levo ela. Peguei-a nos braços. O corpo quente. Suando demais. A respiração irregular. Coloquei-a com cuidado no banco do passageiro e entrei no carro. Durante o trajeto, ela se mexia inquieta. Tentava tirar o vestido. A droga começava a agir. Não… murmurei, segurando as mãos dela. Aquele vestido. Preto. Colado. Curto demais. Ana Lis quer me matar usando esse vestido. Só de imaginar aqueles caras olhando para ela, se aproximando, tocando… Uma fúria cega tomou conta de mim. Ela murmurou algo. Theo… Meu nome. Ela chamou meu nome. Ela pensou em mim. Ana Lis… não brinca assim comigo. Apertei o volante. Cheguei em casa e o doutor Rubens já estava lá, aguardando. Liguei para ele no caminho. Não perderia tempo com hospital. Não com ela exposta daquele jeito. Levei-a para o meu quarto. Coloquei-a na cama. O médico aplicou a medicação e explicou que o efeito passaria em algumas horas. Disse que ela estava fora de perigo. Fora de perigo. Eu quase ri. Ela acordou algum tempo depois. Confusa. Tonta. Tentando se levantar. Fique deitada falei, talvez mais ríspido do que deveria. Enrico, Márcio, Laura e Noah estavam ali. Preocupados. Silenciosos. Ela perguntou o que tinha acontecido. Enrico respondeu: Você foi drogada, Ana. Ela piscou devagar. E disse apenas: Entendi. Entendi. Eu senti algo explodir dentro de mim. Entendeu? É só isso que você tem a dizer? Ela me olhou, ainda fraca. E eu perdi o controle. Você tem noção do perigo que correu? Você sabe o que poderia ter acontecido? Você ficou maluca ou o quê? Eu estava gritando. Eu sabia que estava. Mas não consegui parar. Ela pediu que todos saíssem do quarto. Eles hesitaram. Mas saíram. Ficamos sozinhos. Ela se sentou na cama, os olhos marejados. Quem você pensa que é para gritar comigo? A voz dela tremia, mas havia fogo ali. Sim, eu fui drogada! E o que você tem a ver com isso? O maluco aqui é você! Cada palavra dela era uma lâmina. Eu pedi sua ajuda? Não. Eu não pedi. Então para de se meter na minha vida. Me deixe em paz. Ela chorava. Eu odeio você. Aquilo. Aquilo doeu mais do que qualquer coisa. Eu vi o reflexo de mim mesmo nos olhos dela. Não era proteção. Era medo. Eu tinha assustado ela. A fúria se dissolveu em algo pior. Pânico. Eu dei um passo para trás. Eu… tentei falar. Não consegui. Desculpa. Foi a única coisa que saiu. Saí do quarto antes que ela visse a guerra acontecendo dentro de mim. Peguei as chaves. Entrei no carro. Dirigi sem rumo. A cidade passou borrada pelas janelas. O que eu fiz? Que direito eu tinha? Droga. Droga. Eu bati no volante. Ela estava vulnerável. Assustada. E eu gritei com ela. Eu não estava com raiva dela. Eu estava com medo. Medo de imaginar o que poderia ter acontecido. Medo de chegar tarde demais. Medo de perder alguém que nem é minha. Parei o carro em um ponto qualquer da cidade. Desliguei o motor. Apoiei a cabeça no volante. Ela chamou meu nome. Mesmo dopada. Chamou por mim. E eu estraguei tudo. Passei a mão no rosto, respirando fundo. Eu não sei o que está acontecendo comigo. Mas eu sei de uma coisa: Se eu descobrir quem fez isso com ela… Essa pessoa vai desejar nunca ter cruzado o caminho de Ana Lis. E, talvez pela primeira vez na vida… Eu percebi que o perigo não é o mundo. Sou eu. Porque, quando se trata dela… Eu perco completamente o controle. Meu celular vibrou. Enrico. Atendi no segundo toque. Ela já foi para casa ele disse. Márcio e Laura levaram. Ela não quis ficar. Fechei os olhos por um instante. Foi embora. Sem olhar para mim. Sem ouvir minhas desculpas. Ela está bem? perguntei, tentando manter a voz neutra. Está. Só abalada… e muito brava com você. Um gosto amargo subiu pela minha garganta. Eu sei. Desliguei. Ela já está em casa. Segura. Respirando. Mas isso não diminuiu o que eu sentia. Porque agora, além do medo, havia culpa. Eu devia ter abraçado. Devia ter explicado. Devia ter dito que fiquei desesperado. Mas não. Eu gritei. Como sempre. Eu só sei reagir atacando. Ela poderia ter sido levada por qualquer um. Poderia ter desaparecido. E eu quase enlouqueci só de imaginar. Meu punho fechou automaticamente. Alguém fez isso com ela. Alguém colocou algo no copo dela. E essa pessoa ainda está andando por aí como se nada tivesse acontecido. Não. Isso não vai ficar assim. Peguei o celular e liguei novamente para Enrico. Quero as imagens da boate. Theo… Sem discussão. Silêncio do outro lado. Eu já pedi para separarem as gravações. Claro que ele pediu. Ele também estava com medo. Porque ela não é só “a menina da universidade”. Ela é importante. Para mim. Para ele. Talvez mais do que deveríamos admitir. Desliguei. Abri a conversa com o contato dela. Ana Lis. Fiquei encarando o nome por longos segundos. O orgulho dizia para deixar quieto. Mas o orgulho não quase perdeu ela hoje. Eu digitei: “Você já está em casa?” Apaguei. Digitei novamente: “Está melhor?” Apaguei outra vez. Respirei fundo. Eu nunca fui bom com isso. Nunca fui o homem que pede desculpas. Nunca fui o homem que admite medo. Mas hoje eu quase a perdi. E isso muda tudo. Escrevi: “Eu não deveria ter gritado.” Enviei antes que pudesse apagar. Fiquei olhando para a tela. Nenhuma resposta. Talvez ela esteja no banho. Talvez esteja chorando. Talvez esteja dizendo para os amigos que me odeia. E talvez… eu mereça. Encostei no banco e soltei um riso baixo, sem humor. Ela me odeia. Mas foi meu nome que ela chamou. Ela podia ter ligado para qualquer um. Mas pensou em mim. Isso não é nada. Mas também não é pouco. Liguei o carro novamente. Não vou atrás dela agora. Ela precisa de espaço. Mas amanhã… Amanhã eu vou falar com ela. Sem gritar. Sem impor. Sem mandar. E, se for preciso, eu vou ouvir. Mas antes disso, eu vou descobrir quem fez isso. E quando eu descobrir… Não será a Ana Lis que terá medo. Será quem ousou tocar no que não devia. E, pela primeira vez, eu admiti para mim mesmo, em silêncio, no escuro do carro: Isso já não é apenas proteção. É sentimento. E eu não sei se estou pronto para isso.
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