Theo
Eu sabia que aquilo era uma péssima ideia, mas o que não faço pelo meu irmão? Tudo por ele e para ele.
Desde o momento em que Enrico me pediu para fazer uma reunião no apartamento, eu já estava irritado. Não pelo encontro em si — aquilo sempre aconteceu. Ele gosta de juntar gente, rir alto, jogar conversa fora. Só não autorizo bebidas alcoólicas.
Mas aquele apartamento é meu.
Meu espaço. Meu território.
E, ainda assim, eu deixei.
Talvez porque eu precisasse de distração. Talvez porque eu soubesse que, mais cedo ou mais tarde, cruzaria com ela de novo.
Só não imaginei que seria daquela forma.
A campainha tocou. Eu estava mais próximo da porta e, antes mesmo que Enrico se levantasse, eu já tinha girado a maçaneta.
E então eu a vi.
Ana Lis.
Por um segundo , um único segundo , eu perdi o ar. Ela estava diferente. Mais animada. Mais segura. O cabelo preso deixava o rosto ainda mais delicado. E aqueles olhos… maldição.
Ela também ficou paralisada.
Eu vi.
Vi o susto. Vi o reconhecimento. Vi algo que me deu um gosto estranho na boca , algo entre surpresa e nervosismo.
Bom.
Não fui o único afetado.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Enrico surgiu atrás de mim, sorrindo como sempre, expansivo demais.
Vocês chegaram!
Ele a abraçou.
E foi ali que algo dentro de mim se contraiu.
Eu não gosto dessa sensação.
Não gosto da forma como meu corpo reage quando ela está perto. Não gosto da tensão que cresce no meu peito, como se alguém estivesse puxando um fio invisível dentro de mim.
Mas o que realmente me incomodou não foi o abraço.
Foi o sorriso dela.
Ela sorriu para ele.
Depois sentou.
Riu.
Conversou.
E parecia… confortável demais.
Fiquei observando de longe. Encostado na bancada da cozinha, com um copo de whisky na mão que eu nem estava bebendo de verdade.
Noah se aproximou dela.
Eu vi quando ele pediu o número.
Vi quando ela entregou.
E vi o sorriso dela.
Aquela naturalidade.
Aquela leveza.
Meu maxilar travou.
Ridículo.
Completamente ridículo.
Eu não tenho direito nenhum de sentir isso.
Ela não é nada minha.
Não me deve nada.
Não sabe nada.
E, mesmo assim, cada vez que ela ria para outro homem, algo dentro de mim se tornava mais escuro.
Enrico percebeu.
Eu sei que percebeu.
Porque, em determinado momento, ele se aproximou de mim, segurando um refrigerante.
Vai ficar de cara fechada a noite toda?
Ignorei.
Você convidou metade da universidade para dentro do meu apartamento.
Ele riu.
Ah, então é isso? Territorial agora?
Não respondi.
Ele então ficou sério por um segundo.
Relaxa. É só uma reunião.
Só uma reunião.
Ele não entende.
Ele nunca entende.
Porque, para ele, tudo é simples.
Para mim, não.
Não com ela aqui.
Voltei a olhar para ela.
Ana Lis estava conversando com Laura e Márcio, mas o olhar dela percorreu o ambiente por um instante, e encontrou o meu.
Ficamos presos ali por dois segundos.
Dois segundos longos demais.
Ela desviou primeiro.
Boa escolha.
Ou talvez não.
Porque eu não desviei.
Eu queria que ela sentisse.
Queria que ela soubesse que eu estava ali.
Observando.
Avaliando.
E tentando entender o que exatamente ela estava fazendo comigo.
Quando anunciaram que iam embora, eu senti algo estranho.
Alívio?
Não.
Frustração.
Ela se levantou, despediu-se de Enrico, de Noah… e nem olhou para mim.
Nem uma palavra.
Nem um “tchau”.
Nada.
E aquilo me irritou mais do que deveria.
A porta se fechou.
O apartamento ficou mais silencioso.
Terminei o whisky de uma vez só.
Você está interessado nela?
A voz de Enrico veio calma atrás de mim.
Eu ri, sem humor.
Não seja i****a.
Então por que você estava encarando cada homem que chegava perto dela como se fosse matar alguém?
Silêncio.
Ele se aproximou.
Theo… eu conheço você.
E isso é o que mais me irrita.
Porque ele conhece mesmo.
Ela é diferente, ele disse.
Sim.
Ela é.
Mas eu não vou admitir isso.
Não para ele.
Não para ninguém.
Só cuidado, ele completou.
Eu me virei lentamente.
Cuidado com o quê?
Ele deu de ombros.
Você não é exatamente conhecido por ser… leve.
Leve.
Eu quase ri.
Leve nunca foi uma opção para mim.
Depois que ele foi para o quarto, fiquei sozinho na sala.
O cheiro dela ainda estava ali.
O perfume.
Suave.
Incomodamente marcante.
Fechei os olhos por um instante, e a imagem voltou.
Ela sorrindo.
Ela entregando o número para Noah.
Meu punho se fechou automaticamente.
Isso está ficando perigoso.
Muito perigoso.
Porque eu não gosto de dividir.
Nunca gostei.
E eu definitivamente não gosto de perder o controle.
Peguei o celular.
Abri a lista de contatos.
Fiquei alguns segundos olhando para o número novo salvo ali.
Ana Lis.
Eu não deveria.
Eu sei que não deveria.
Mas, antes que a razão pudesse me impedir, meus dedos já estavam digitando.
“Você sempre sorri assim para qualquer um?”
Apaguei.
Ridículo.
Respirei fundo.
Bloqueei o celular.
Isso é loucura.
Eu não sou adolescente.
Eu não sou impulsivo.
Eu sou controle.
Sou estratégia.
Sou racional.
Mas, quando se trata dela…
Nada disso parece funcionar.
Encostei a cabeça no sofá e soltei um riso baixo.
Se isso continuar assim, alguém vai sair machucado.
E eu tenho a estranha sensação de que não serei eu.
Fiquei ali por alguns minutos, olhando para o teto, tentando organizar os pensamentos como organizo contratos, reuniões e decisões importantes. Mas sentimentos não obedecem lógica. Não seguem estratégia. Não respeitam autoridade.
E isso me irrita.
Levantei, caminhei até a janela e observei a cidade lá embaixo. As luzes, os carros passando, as pessoas vivendo suas vidas sem saber que, ali em cima, eu travava uma guerra silenciosa contra mim mesmo.
Ela não fez nada.
Nada além de sorrir.
Nada além de existir.
E mesmo assim conseguiu mexer comigo mais do que qualquer mulher já conseguiu.
Voltei para dentro e passei a mão pelos cabelos, impaciente.
A cena dela entregando o número para Noah voltou à minha mente, nítida demais. A naturalidade. A leveza. Como se fosse algo simples.
Talvez para ela fosse.
Mas para mim não foi.
Porque eu vi o jeito que ele olhou.
E eu não gostei.
Meu celular ainda estava sobre o sofá. Peguei-o novamente. A tela acendeu e, por um instante, pensei em mandar uma mensagem. Qualquer coisa. Um simples “Chegou bem?” já seria suficiente para abrir uma conversa.
Mas isso significaria assumir interesse.
E eu não estou pronto para isso.
Não ainda.
Soltei o ar devagar e bloqueei a tela outra vez.
Controle, Theo.
Você sempre teve controle.
Não vai perder isso agora.
Mas, no fundo, eu já sabia.
O problema não era mandar mensagem.
O problema era que ela já estava ocupando espaço demais na minha mente.
E quando algo ocupa espaço demais… eu preciso decidir.
Ou afasto.
Ou tomo para mim.
E a parte mais perigosa de tudo isso é que eu ainda não sei qual das duas opções quero escolher.
Fechei os olhos por um instante.
Ana Lis.
Isso está longe de acabar.
E eu tenho a impressão de que você não faz ideia do que está despertando.