O sol da manhã filtrava-se pelas grandes janelas da mansão, tingindo de dourado os móveis impecavelmente polidos. Elowen acordou cedo, o coração acelerado desde que abriu os olhos. A lembrança do dia anterior ainda a acompanhava como um sopro de ar fresco: os risos das crianças, os abraços apertados, o reencontro com Nyra. Aquilo havia lhe devolvido uma fagulha de vida.
Mas a ameaça de Kael ecoava como uma sombra atrás dessa fagulha. A voz dele ainda vibrava em sua mente: “Se tentar qualquer coisa, Nyra será a primeira a pagar o preço.”
Ela sabia que não poderia se dar ao luxo de desobedecer abertamente. Ainda assim, não voltaria atrás. A ONG não era apenas um lugar de trabalho; era sua essência, seu coração. Estava decidida: continuaria lá, fosse sob a vigília de Riven ou sob a mira silenciosa de Kael.
Quando desceu as escadas, encontrou o próprio Kael no hall, imponente como sempre, trajando roupas escuras que ressaltavam sua autoridade natural. Riven estava ao lado dele, postura rígida, pronto para qualquer ordem.
O olhar de Kael pousou sobre ela, frio e cortante. — Vai sair de novo. — Não era uma pergunta.
Elowen sustentou o olhar, firme. — As crianças precisam de mim.
Um músculo no maxilar dele se contraiu, e por um instante pareceu que a ira iria explodir. Mas, em vez disso, ele apenas ergueu o queixo. — Riven. Você sabe o que fazer.
— Sim, senhor. — Riven inclinou a cabeça, mas seus olhos se moveram brevemente para Elowen, avaliando cada gesto dela.
O caminho até a ONG foi silencioso, como sempre. Elowen olhava pela janela, ignorando a rigidez ao lado. Estava nervosa, mas também determinada. Ela não iria se apagar.
Quando chegaram, o som das vozes infantis invadiu o ar, trazendo o alívio que ela precisava. Assim que entrou, foi recebida por crianças correndo, abraçando-a com a alegria pura que só elas sabiam oferecer. Elowen sorriu, abaixando-se para beijar os rostos pequenos, ouvir as histórias apressadas e as gargalhadas.
— Vocês sentiram minha falta? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Siiiim! — gritaram em coro, enchendo o lugar de energia.
Enquanto isso, Riven permaneceu à porta, atento a tudo, braços cruzados e olhar vigilante. Seu semblante parecia esculpido em pedra, mas a tensão nos ombros denunciava que estava em alerta máximo.
Foi nesse momento que Nyra surgiu. Os cabelos ruivos brilhavam como fogo sob a luz do sol que entrava pelas janelas, e seus olhos verdes faiscavam de pura rebeldia. Ela carregava uma pilha de papéis, mas ao ver Riven ali parado, a boca se curvou num sorriso debochado.
— Olha só… o cão de guarda voltou. — Sua voz estava carregada de ironia. — Você não se cansa nunca, não?
Riven não se moveu. Apenas a encarou com um olhar que poderia congelar o ar. — Se não tem nada útil pra fazer, cale a boca.
Nyra arqueou a sobrancelha, inclinando a cabeça. — Uau, tão simpático como sempre. Sabe, Riven, você deveria tentar sorrir um pouco. Vai que descobre que tem dentes de verdade.
Algumas crianças que estavam perto olharam para eles, rindo discretamente do tom afiado da ruiva. Elowen suspirou, sabendo que mais uma faísca estava prestes a virar incêndio.
— Nyra… — chamou em tom baixo, tentando conter a amiga. — Por favor.
Mas Nyra apenas deu de ombros, ainda mirando Riven com aquele sorriso provocador.
Ele, por sua vez, respirou fundo, como se contivesse o impulso de reagir de imediato. Mas, alguns minutos depois, quando Elowen já estava envolvida em atividades com as crianças, Riven se afastou discretamente do salão. Procurou silêncio no corredor dos fundos, onde o movimento era menor.
Nyra, claro, não perdeu a oportunidade. Seguiu seus passos como quem persegue um jogo divertido.
— Fugindo de mim, soldadinho? — perguntou, encostando-se na parede, braços cruzados, a expressão carregada de malícia.
Riven se virou lentamente, os olhos faiscando em irritação. — Você nunca sabe a hora de calar a boca, não é?
— Talvez porque eu goste de ver o quanto você se irrita fácil — retrucou, inclinando o corpo para frente. — É divertido te tirar do sério. Você é tão… controlado, tão certinho… alguém precisa bagunçar esse seu mundo cinza.
Ele avançou em um passo firme, encurtando a distância entre eles. Nyra manteve-se no lugar, o queixo erguido, desafiando-o com o olhar.
— Você está provocando a pessoa errada, Nyra. — A voz dele saiu como um rosnado baixo, carregado de ameaça.
— Será? — ela sussurrou, os lábios curvando-se em um sorriso. — Porque até agora parece que eu acertei bem no alvo.
Foi a gota d’água. Num movimento rápido, Riven a prensou contra a parede, uma das mãos apoiada ao lado de sua cabeça, o corpo imenso bloqueando qualquer rota de fuga. O rosto dele ficou a poucos centímetros do dela, e o ar se tornou pesado, elétrico.
Nyra arregalou os olhos por um instante, mas em vez de recuar, deixou escapar uma risada baixa. — Então é assim que você lida com quem te afronta? Usando força?
— Se abrir essa boca mais uma vez, vai se arrepender. — O tom dele era cortante, mas havia algo mais, algo que queimava sob a superfície.
E foi nesse instante que aconteceu. O olhar dele, contra toda a sua vontade, caiu sobre os lábios dela. Apenas por uma fração de segundos. Mas segundos que pareceram horas.
Nyra percebeu. Claro que percebeu. O sorriso dela se alargou, provocativo. — Está olhando o quê, grandalhão? Quer calar minha boca de um jeito diferente?
Riven fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando recuperar o autocontrole que escorregava entre os dedos. Quando voltou a encará-la, os olhos estavam cheios de fúria contida.
— Você é insuportável. — A voz dele tremia de raiva… e de algo que ele não queria admitir.
Nyra, sem se intimidar, aproximou ainda mais o rosto, os lábios quase tocando os dele. — E você adora odiar isso.
A tensão entre eles era palpável. O silêncio que seguiu pareceu rugir no ar.
Por fim, Riven se afastou bruscamente, como se o simples contato fosse perigoso demais. Passou a mão pelo cabelo, respirando fundo, tentando se recompor. — Fique longe de mim, Nyra.
Ela riu, caminhando em direção oposta, sem olhar para trás. — Ah, Riven… você sabe que isso é impossível.
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Enquanto isso, no salão, Elowen ajudava algumas crianças a pintar desenhos coloridos. Ela tentava mergulhar na alegria delas, mas sentia no fundo do peito o peso da ameaça de Kael. Cada gargalhada que ouvia parecia roubada, cada abraço era um risco.
Quando Nyra voltou, os cabelos um pouco bagunçados, Elowen notou. Mas a amiga apenas sorriu, como se nada tivesse acontecido, e sentou-se ao lado dela para ajudar com as crianças.
Do outro lado da sala, Riven reapareceu. Seus olhos estavam mais sombrios do que antes, e cada vez que encontravam os de Nyra, faiscavam como lâminas prestes a cortar.
Elowen percebeu, mesmo sem entender os detalhes. Algo havia acontecido. Algo perigoso.
E, no fundo, ela soube: não era apenas a tensão entre ela e Kael que ameaçava incendiar aquele mundo. Agora, Nyra e Riven eram outro fogo prestes a consumir tudo ao redor.