Capítulo 18

1094 Words
O sol ainda m*l havia surgido quando Elowen abriu os olhos. Dormira pouco, se é que se podia chamar de sono aquelas horas inquietas em que se revirara na cama, ora lembrando do beijo arrebatador, ora da proximidade sufocante na cozinha. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Kael inclinado sobre o seu, os olhos escuros fixos em sua boca, a tensão elétrica que parecia prestes a explodir entre os dois. O coração disparava, e o corpo reagia como se fosse novamente arrastado para aquele instante. Agora, a manhã chegava trazendo mais perguntas do que respostas. O que significava aquilo? Por que Kael, o homem que sempre a tratara com frieza e controle, havia perdido o equilíbrio ao ponto de beijá-la daquela maneira? Sentou-se na cama, levando as mãos ao rosto. O coração ainda parecia pesado. Eu não posso sentir isso. Não posso. Mas era impossível negar. Algo havia mudado entre eles, e quanto mais tentasse ignorar, mais a lembrança a corroía. Decidiu que passaria o dia evitando-o. Era a única forma de recuperar algum controle sobre si mesma. Tomou um banho demorado, vestiu uma calça jeans e uma blusa simples, e prendeu o cabelo em um coque frouxo. Precisava parecer ocupada, inatingível. Quando desceu as escadas, a mansão estava silenciosa. Nenhum sinal de Kael. O alívio foi imediato, embora breve. Sentou-se para o café, mas cada mordida no pão parecia travar na garganta. Não conseguia parar de imaginar que a qualquer momento ele surgiria, frio e imponente como sempre — ou pior, com aquele olhar de desejo contido que a desarmava. Elowen passou parte da manhã na biblioteca, fingindo ler relatórios antigos que encontrara em uma das gavetas. A verdade era que não absorvia uma única palavra. O pensamento voava, sempre para o mesmo lugar: a lembrança do toque dele, da respiração contra sua pele, do beijo que ainda queimava em sua boca. Por volta do meio-dia, ouviu passos firmes ecoando pelo corredor. Reconheceria aquele ritmo em qualquer lugar. O corpo dela enrijeceu. O coração começou a bater em um compasso descompassado. Kael. A porta da biblioteca se abriu com naturalidade, como se fosse dono não apenas da mansão, mas também do ar que ela respirava. O que, de certo modo, era verdade. Ele estava impecável como sempre, vestindo calça social escura e uma camisa preta, as mangas dobradas até os cotovelos. O olhar, porém, estava mais sombrio do que de costume. — Você está se escondendo de mim? — perguntou, a voz baixa, mas firme. Elowen fechou o relatório com calma forçada e ergueu o olhar. — Não estou me escondendo. Estou ocupada. Um sorriso de canto surgiu nos lábios dele, carregado de ironia. — Ocupada… lendo relatórios empoeirados que nem mesmo eu olho? Ela engoliu em seco. — Melhor do que perder tempo com discussões inúteis. Kael fechou a porta atrás de si e se aproximou devagar, como um predador prestes a encurralar sua presa. — Então é isso que acha de nós? Inútil? — Eu não disse nós. — Ela manteve o olhar firme, mesmo com o corpo clamando para recuar. — Eu disse discussões. Ele parou diante dela, a centímetros de distância. O cheiro amadeirado que vinha dele a envolveu como uma prisão invisível. — Você está tentando fugir de mim, Elowen. — Estou tentando ter paz. — Paz? — repetiu, rindo sem humor. — Depois do que aconteceu ontem, você realmente acha que existe paz entre nós? Elowen sentiu o rosto esquentar. — Não aconteceu nada. O sorriso de Kael se apagou. Ele inclinou-se, apoiando as mãos na mesa, tão perto que ela podia sentir o calor de sua pele. — Nada? Você chama aquilo de nada? Ela desviou o olhar, o coração disparado. — Foi um erro. Kael segurou-lhe o queixo com firmeza, obrigando-a a encará-lo. Os olhos dele faiscavam. — Então por que seus olhos dizem outra coisa? Elowen se debateu levemente, mas não conseguiu se libertar. — Me solte. — Não até você admitir que está mentindo para si mesma. — Eu não… — Ela parou, a voz falhando. O olhar dele a perfurava, desarmando cada defesa. Kael se aproximou ainda mais, a boca a centímetros da dela. — Eu poderia beijá-la de novo agora. E você sabe que não me afastaria. O corpo de Elowen estremeceu. O coração parecia prestes a explodir. — Você está enganado — murmurou, tentando soar firme. Kael roçou os lábios quase imperceptivelmente no canto da boca dela, sem chegar a beijar. — Estou? Elowen fechou os olhos, lutando contra o turbilhão que a consumia. A lembrança do beijo anterior voltou como uma onda, arrastando-a para o mesmo lugar perigoso. Com toda a força que reuniu, empurrou-o no peito e se levantou. — Eu não vou ser mais uma das suas conquistas, Kael! Ele a observou em silêncio por alguns segundos, o olhar sombrio, mas não de raiva — havia algo mais, algo intenso e incontrolável. — Você acha que eu a quero como uma conquista? — perguntou, a voz grave. — Você não tem ideia do que eu quero. Elowen respirava ofegante, o corpo em alerta. — Então me diga. Kael deu um passo em direção a ela, mas parou a poucos centímetros. O controle parecia custar-lhe caro. — Eu quero você de um jeito que não deveria. Um jeito que me tira do eixo, que me faz esquecer tudo o que jurei controlar. As palavras bateram fundo em Elowen. O peito dela se apertou, dividido entre medo e desejo. — Isso não muda nada — disse, forçando firmeza. — Eu não vou me perder em você. Kael inclinou a cabeça, os olhos fixos nos dela, intensos, perigosos. — É tarde demais para dizer isso. Por um momento, o silêncio foi absoluto. Apenas o som da respiração acelerada de ambos preenchia o espaço. Elowen desviou o olhar, caminhando rapidamente até a porta. — Eu não vou ficar aqui ouvindo isso. Kael não tentou impedi-la dessa vez. Apenas a observou sair, os olhos escuros faiscando em meio à penumbra da biblioteca. Quando a porta se fechou atrás dela, ele soltou um suspiro baixo, quase um rosnado contido. Sabia que estava no limite. E também sabia que Elowen já não era apenas uma distração em sua vida — era a tentação que poderia destruí-lo. Elowen, por sua vez, caminhava pelos corredores da mansão com o coração em chamas. As mãos tremiam, o corpo inteiro parecia tomado por um fogo que não queria admitir. E, no fundo, ela sabia: não importava o quanto tentasse fugir, não conseguiria escapar dele.
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