O amanhecer trouxe uma claridade suave, mas dentro da mansão o clima era denso, quase sufocante. Elowen descia as escadas com o coração apertado, determinada a enfrentar o dia. Sabia que teria a chance de ver as crianças da ONG — e Nyra. Apenas esse pensamento aquecia seu peito. Mas também sabia que nada ali vinha sem condições, e Kael estava sempre pronto para lembrá-la disso.
No hall, encontrou Kael e Riven conversando em voz baixa. A postura dos dois era tão rígida quanto o silêncio que pairava no ar. Assim que percebeu sua presença, Kael ergueu o olhar, e seus olhos frios a cortaram como lâminas.
— Elowen — disse ele, num tom grave, como quem dita uma sentença. — Não se esqueça: se tentar qualquer coisa que fuja do que eu autorizei… Nyra será a primeira a pagar o preço. Eu não hesitarei.
As palavras pesaram como um soco no estômago. Elowen manteve o queixo erguido, mesmo que a respiração vacilasse por dentro. — Entendi — respondeu, firme, sem demonstrar fraqueza.
Kael a analisou por alguns segundos, depois virou-se para Riven. — Leve-a até a ONG. Quero relatório de cada detalhe.
— Sim, senhor. — A voz de Riven era áspera, carregada de disciplina. Seus olhos escuros se voltaram para Elowen, duros, como se quisessem lembrá-la de que ele seria sua sombra o tempo todo.
O caminho até a ONG foi silencioso. Elowen olhava pela janela do carro, tentando acalmar o coração ansioso. O simples fato de imaginar as crianças correndo até ela já bastava para arrancar um pequeno sorriso de seus lábios. Mas a tensão do lado de fora — e do lado de dentro, com Riven — não a deixava relaxar por completo.
Quando o carro parou diante da ONG, Elowen m*l esperou que Riven abrisse a porta. Desceu rápido, o coração em disparada. O pátio estava cheio de movimento: vozes infantis, risos e correria enchiam o ambiente de vida. Foi então que seus olhos a encontraram. Nyra.
A ruiva estava ajudando algumas funcionárias a organizar os materiais. Seus cabelos brilhavam sob o sol, os olhos verdes faiscavam, cheios da energia rebelde que era sua marca. Ao perceber Elowen, Nyra deixou tudo cair das mãos, o rosto se iluminando.
— Elowen?! — exclamou, correndo até ela. — Eu não acredito! Você está aqui!
O abraço foi tão apertado que parecia querer colar os dois corações de volta no lugar. Elowen riu, sentindo a alma respirar novamente. — Eu precisava estar aqui. Precisava ver você.
— Você não faz ideia do quanto eu senti sua falta! — Nyra dizia, sem conter o entusiasmo. — As crianças perguntam por você todos os dias. Você é a luz delas.
Elowen sentiu as lágrimas arderem, mas segurou firme. — Então hoje eu vou iluminar um pouquinho de novo.
Atrás delas, Riven observava em silêncio. A cena não o comovia; pelo contrário, parecia apenas endurecer ainda mais sua expressão. Ele permanecia ao lado do carro, braços cruzados, olhar vigilante. Mas Nyra logo o notou. E, claro, não resistiu.
— Ah… — disse ela, com um sorrisinho debochado. — O cão de guarda também veio. — Seus olhos verdes faiscaram de provocação. — Deve ser exaustivo andar sempre com essa cara fechada, hein?
Riven estreitou os olhos e caminhou até elas. Sua presença era intimidadora, o corpo alto e rígido como uma muralha. Ele parou diante de Nyra, a voz baixa, mas carregada de ameaça.
— Cala a boca.
Nyra arqueou a sobrancelha, divertindo-se. — Nossa… sempre tão delicado. É assim que você conquista corações?
— Se abrir a boca mais uma vez para me provocar, vai se arrepender — disse ele, firme, encarando-a de cima a baixo. Os punhos dele se cerraram ao lado do corpo.
Nyra deu uma risadinha clara, insolente. — Uau… ameaças logo cedo? E eu achando que hoje seria um dia tranquilo. — Ela cruzou os braços, inclinando a cabeça. — O que vai fazer? Me castigar por falar demais?
Os olhos de Riven faiscaram. — Não brinque comigo, garota.
— Não estou brincando, grandalhão — retrucou ela, os lábios curvados em provocação. — Só estou me divertindo com o quão previsível você é. Sempre no controle, sempre com essa postura de soldadinho perfeito. Deve ser cansativo.
Riven se aproximou ainda mais, tão perto que apenas alguns centímetros separavam seus rostos. Sua voz saiu quase como um rosnado. — Você não tem ideia do que está fazendo.
Mas Nyra não recuou. — Tenho, sim. Estou mostrando que você não me assusta.
Elowen, aflita, tentou intervir. — Chega, vocês dois… — Mas sua voz perdeu força diante da intensidade que emanava entre eles.
Era como se o ar tivesse ficado mais pesado. Riven e Nyra pareciam presos em uma batalha silenciosa, onde nenhum dos dois aceitava recuar. A tensão entre eles era quase palpável, elétrica, perigosa… e estranhamente fascinante.
— Vamos, crianças! — chamou Nyra de repente, quebrando o clima, virando-se para as pequenas que já corriam até Elowen. — Olhem quem voltou!
As crianças se jogaram nos braços de Elowen, rindo e gritando de alegria. Ela se abaixou, abraçando cada uma, distribuindo beijos e sorrisos. Por alguns instantes, o mundo sombrio que Kael impunha parecia distante. Havia apenas amor ali.
Mas Riven não desviava os olhos de Nyra. Cada gesto dela parecia calculado para irritá-lo. Cada riso era uma provocação. Ele sabia disso. E ela também.
Mais tarde, quando o grupo se dividiu em atividades, Riven aproveitou a primeira oportunidade. Chamou Nyra de canto, longe do alcance de Elowen e das crianças. A expressão dele era dura, a voz carregada de fúria contida.
— Escute bem, sua insolente. — Ele aproximou o rosto do dela, os olhos faiscando. — Se não aprender a controlar essa língua, vai se arrepender amargamente. Eu não tenho paciência para joguinhos idiotas.
Nyra arqueou a sobrancelha, como se se divertisse ainda mais com a raiva dele. — Ah… então você admite que eu mexo com você? Que consigo te tirar do sério?
— Não se ache tão importante — rosnou Riven, os dentes cerrados. — Você é apenas uma distração irritante.
Nyra riu, balançando a cabeça. — Irritante… mas impossível de ignorar, não é?
Riven respirou fundo, tentando se conter. — Última chance, Nyra. Fecha essa boca ou eu vou garantir que você aprenda do jeito mais difícil.
Ela deu um passo para trás, mas não por medo. O sorriso ainda estava lá, brilhando em desafio. — Vou adorar ver você tentar. — E, virando-se, simplesmente deu as costas e saiu, deixando-o sozinho, fervendo de raiva.
Durante o resto do dia, a tensão entre os dois só aumentou. Elowen mergulhava nas atividades com as crianças, mas não conseguia ignorar o choque constante entre sua amiga e Riven. Era um duelo invisível, mas impossível de não notar. As faíscas entre eles queimavam tão intensas que até mesmo quem estava por perto sentia.
Nyra, com sua língua afiada, parecia se divertir em cutucar cada ferida que encontrava. Riven, com sua postura militar e sua raiva contida, se esforçava para não perder o controle — mas a cada provocação, seu limite ficava mais próximo do fim.
Quando o sol começou a se pôr e as crianças já se acalmavam, Elowen percebeu que algo havia mudado. O reencontro tinha trazido alegria, mas também havia acendido uma chama inesperada. Não apenas entre ela e seu propósito com a ONG… mas entre Nyra e Riven.
E essa chama, perigosa e imprevisível, ainda prometia incendiar tudo ao redor.